Gatos e urubus

Alguns leitores do meu blog se divertiram com a macabra história dos gatos mortos. Lembro: minha vizinha de cima ficou doente e deixou seus dez gatos passando fome em casa. Uns morreram. Outros começaram a praticar canibalismo, após lutas terríveis entre eles, das quais nos chegavam pavorosos gritos noturnos. Grito de gato, vocês sabem, é uma coisa extremamente desagradável.

Procurando tranquilizar alguns leitores preocupados, finalizei a verídica história com um "está tudo bem, a mulher voltou do hospital, jogou fora os gatos mortos e alimentou os sobreviventes".

Acontece que não foi bem assim.

A verdade é que o final da história foi tão grotesco que hesitei alguns dias antes de revelar. A velha não voltou do hospital. Morreu, ao que parece, de uma doença cujo principal transmissor são os... gatos. Eu fiquei com preguiça, como sempre, de tomar qualquer atitude. Mergulhei em meus trabalhos e esqueci do assunto. Por alguma razão, decerto pela mudança na direção do vento, o fedor desapareceu, e eu me dei por satisfeito.

Antes de ser internada, a velha deixara aberta a janela da sala. Acompanhem. Anteontem, à tarde, depois de uma sessão de café e leitura deste interessantíssimo Depoimentos, de Carlos Lacerda, fui à janela contemplar a sofrível paisagem que se descortina deste sétimo andar. Um pedaço da montanha de Santa Teresa ao fundo, uns prédios à esquerda, uns prédios à direita, e abaixo, o teto de uns galpões. Olhei para o céu, e observei, curioso, que havia um círculo de urubus, voando bem próximos ao prédio. Estranhei, porque essas aves, aqui no Rio, dificilmente aproximam-se das áreas movimentadas. Aí vi um deles se desprender do bando e vir voando na minha direção. Assustei-me e dei um passo atrás, mas continuei vendo o bicho.

Ele veio e entrou pela janela no apartamento da velha. Aí os outros todos vieram também. Fizeram um banquete com os corpos apodrecidos dos gatos.

Inicialmente, pensei em chamar o zelador e "denunciar" aquela orgia animalesca, mas fiquei com dó dos urubus. Eles também têm suas necessidades, pensei.

E assim terminou a história dos gatos. Vale a lição: mais vale um urubu de barriga cheia que um gato morto fedendo.

6 comentários:

Zé Eduardo disse...

Pois é... eu também tenho uma histórica maluca de gatos. Minha tia criava trinta e oito gatos em Barbacena. Verdade! 38 gatos. Mas ela morava numa casa grande, com jardim e tudo. Não é que um belo dia, os gatos começam a ficar violentos? Ninguém podia entrar na casa. Machucaram dezenas de pessoas, inclusive meu pai, que tentou entrar para tentar convencer a irmã a tomar alguma providência enérgica. Por fim, foi preciso fazer um mutirão para se matar todos os gatos. Fizeram um genocído de gatos.

Maria Padillha disse...

ah ah, isso é verdade, miguel? jura? se for, então esse teu prédio é mesmo uma fonte de histórias bizarras...

Miguel do Rosário disse...

maria, juro pelos deuses mortos, que é verdade. e você ainda não sabe de um terço das histórias. nesse prédio, havia uma velha sem rosto, misteriosíssima, que tentava invadir os apartamentos forçando a porta. ela tentou fazer isso aqui em casa. qdo a gente espia pelo olho mágico, só vê os cabelos da velha, e ela andando pelo corredor, fugindo, e aqueles cabelos grisalhos, tipo daqueles filmes de terror, O grito. É assustador.

Alice disse...

oi, miguel, eu já fico de tocaia, esperando você atualizar seu blog. dessa vez, você trouxe uma história meio edgar allan poe, não é? não adianta você jurar que é verdade, eu não acredito. como todo escritor, você deve ser um bom mentiroso. isso quem tá dizendo, é meu gatinho Tom, que também lê seu blog junto comigo. ele diz que conhece todos os gatos da rua do Riachuelo e garante que a história não é bem assim...

mario disse...

valeu amigo... isso é quase um rubem fonseca.

Jorge Ferreira disse...

rapaz, essa história dos gatos é realmente um assombro...mas essa da velha é realmente fantástica... se ela existe mesmo, faria um par interessante com um velhinho daqui de salvador que se arruma todo, com um paletó impecável, e vem aqui perto da loja pra "dirigir o trânsito. Claro, ele tem seu apito e nãoi dispensa seu caderninho de multas, onde anota todas as imprudências cometidas pelos motoristas da cidade. Ah! cara! me lembrei agora do me contou meu amigo Noel lá de Feira de Santana. Estive no domingo em sua casa junto com o João Filho e o meu irmãozinho Chacal. A história: ao se mudar para a casa onde mora, ele descobriu num depósito nos fundos, uns livros de magia negra. Passou um tempo impressionado com os livros mais logo esqueceu, porém, ao fazer uma reforma, descobriu umas coisas enterradas no quintal. Cabeças de bonecas, roupas, pedaços de ossos de cachorro amarrados com fitas vermelhas e toda uma série de artigos interessantes...tá até pensando em mudar de casa...

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