Falando de livros

Fui dar um passeio de bicicleta e, passando pelo Largo do Machado, topei com um desses sebos de rua, que estendem os livros na calçada. Fiquei ali examinando os títulos por curiosidade e vi três que me interessavam: Martin Eden, de Jack London; As aventuras do Sr.Pickwick, de Charles Dickens; e Depoimentos, de Carlos Lacerda.

O problema é que eu só tinha 2 reais na carteira e menos ainda em casa ou no banco. Solução: voltei em casa, separei uns best-sellers vagabundos que já tinha lido (de vez em quando leio um best seller pra ver se dá sorte e eu fico rico um dia com literatura), peguei a bicicleta de novo e pedalei até o sebo. Fiz a proposta: permuta. Consegui os três livros. O Rio é o paraíso dos sebos de rua. Você consegue os clássicos até de graça.

Lacerda

Nos últimos dias, andei lendo o Depoimentos, do Carlos Lacerda e aprendendo pra caralho sobre história do Brasil. Lacerda foi, em certos momentos, um filho-da-puta, sobretudo na sua obsessão contra o Getúlio. Mas foi um prefeito muito bom do Rio de Janeiro e um personagem político nacional extremamente curioso, e perturbador.

Após ter sido traído pelos comunistas (segundo sua versão), tornou-se profundamente anti-comunista, mas seu governo, como ele mesmo admitiu, mostrou a importância de sua formação socialista: foi um governo eminentemente preocupado com os pobres, com a periferia. Foi o prefeito do Rio que mais construiu escolas, mais investiu em saneamento básico, terminou o Maracanã, fez o Rebouças, a estação de águas de Guandu, e um montão de coisas importantes para a cidade.

Político que era, Lacerda sempre foi extremamente contraditório. Como articulista (função em que era insuperável), sua especialidade era mesmo meter o cacete, através de sua coluna no jornal Tribuna da Imprensa, que lhe pertencia, em toda sorte de políticos. O alvo preferencial era o Getúlio, mas o porrete descia pra todo lado. Esse jornal, a Tribuna da Imprensa, existe até hoje, na rua do Lavradio, na velha Lapa carioca, bem perto da famosa casa de show Rio Scenarium. É um jornal decadente, sem anúncios, que sobrevive com a receita gerada pela gráfica, que terceiriza as rotativas para produção de todo tipo de jornal de bairro, setorial, etc. Acho que a Tribuna tem futuro se assumisse com mais força um papel de jornal cultural e de opinião, e contratasse uma nova equipe de marketing para correr atrás de anúncio. Um passo importante que o Hélio Fernandes, dono da Tribuna, vem fazendo, é abrir espaço para alguns novos escritores, embora de forma demasiadamente tímida.

Lacerda não era tão inteligente quanto pensava. Sabia escrever bem e usar imagens fortes e ofensivas, mas sua análise política era equivocada e tendenciosa. De forma que, da mesma forma que destruiu bons políticos e elevou a fama de maus, igualmente enganou-se a si próprio. Terminou de forma melancólica, com seu mandado de deputado cassado pela própria ditadura que ele mesmo havia apoiado com fervor.

O apoio que Lacerda deu ao golpe militar foi um tremendo atestado de desonestidade política, visto que o argumento central de seus ataques à Getúlio e a todos os políticos ligados à Getúlio era o suposto pendor anti-democrático do getulismo; isso mesmo depois de Getúlio ter sido eleito pelo voto popular em 50. Nas décadas de 50 e 60, Lacerda dá apoio a diversas tentivas de golpe militar que ocorreram no período. Em algumas ocasiões, inclusive, é um dos principais conspiradores.

Entretanto, com todos seus erros, Lacerda é dessas figuras que a gente considera importante para a história do país. É o mesmo caso do Assis Chautebriand, que foi um filho-da-puta, mas crucial para a história do jornalismo nacional.

Dickens

O livro do Dickens, As aventuras do Sr.Pickwic, é o primeiro grande romance do escritor inglês. Ainda não li, sei apenas que foi publicado em capítulos no jornal em que ele trabalhava, em Londres, e foram essas histórias, engraçadíssimas, que o tornaram uma celebridade na Grã Bretanha. De origem humilde, família paupérrima, Dickens acabou nas graças do dono do jornal e casando-se com sua filha.

Jack London

O Jack London está me esperando lá na estante, impaciente para que eu mergulhe em suas aventuras. Pessoalmente, acho o London o maior escritor americano, infinitamente superior ao Kerouack, por exemplo. O Kerouack deu sorte de estourar nos anos 50, em pleno milagre econômico pós-guerra americano, em que o americano comum, com o bolso cheio de grana, queria um ideal libertário, louco, para justificar o imenso chute no balde que ele queria dar, e deu. As gerações ianques dos nos 50,60 e 70, torram todo o dinheiro acumulado na primeira parte do século, tanto que nos anos 80 os jovens são obrigados a voltar a pegar no batente. As grandes aldeias hippies se desfazem e todos vão tentar ganhar dinheiro pra sobreviver e recolocar o país de novo nos trilhos do crescimento. E o pior é que os filhos-da-puta conseguem. Os americanos são uns filhos-da-puta que conseguem tudo que querem, por isso nunca advoguei guerra aberta contra eles. Acho isso o grande erro da esquerda latina, e inclusive o chavismo entrou nessa onda errada. Eles são filhos-da-puta, mas se você falar a linguagem deles, e não deixar eles invadirem o seu país, você consegue conviver na boa com os americanos. Sendo os EUA um país heterogêneo e democrático, a bandeira da América Latina deve ser fazer alianças com grupos progressistas americanos e tentar insinuar um pouco de consciência política internacional no povo americano.

Kafka

O que me trouxe realmente prazer esta semana foi a leitura dum livro intitulado "Conversas com Kafka", que encontrei na biblioteca do Instituto Goethe, escrito por um músico que foi durante dois anos muito amigo do escritor tcheco. Muito interessante ver como Kafka era um sujeito divertido, com ódio do emprego burocrata onde trabalhava. Legal ainda saber um pouco de suas idéias políticas - durante um tempo frequentou reuniões anarquistas, achava os anarquistas pessoas realmente maravilhosas, mas ingênuos - o que é a pura verdade, até hoje.

Kafka era um boêmio, com muitos amigos artistas, músicos, atores, dramaturgos, etc, e aquela história de que mandou seu amigo Max Brod (que aliás também escreveu uma excelente biografia de Kafka) queimar seus escritos não era nada mais do que a costumeira atitude blasé e irônica com que tratava sua obra. Dizia que seus amigos roubavam seus escritos no seu quarto para publicá-los. Mas era puro charme de artista. Ele confessa para seu amigo que "já estava tão corrompido", que ele mesmo agora mandava seus contos para serem publicados nas revistas.

Fica claro que ele gosta de ser publicado. Seu pudor, sua timidez, nada mais é que uma grande e saudável vaidade, aliada a uma terrível suscetibilidade, derivada por sua vez de seus complexos psicológicos pessoais.

Hegel

Nesta semana, labutei ainda diante de uns livros de filosofia. É muito importante a filosofia para escaparmos do PENSAMENTO DE REBANHO que a sociedade de massas tenta nos impor. Achei muito interessante a teoria hegeliana de que a busca da verdade passa necessariamente pela decepção e pelo desespero. Resgatando Descartes e seu elogio da dúvida, Hegel vai mais longe, defende a DÚVIDA DESESPERADA. Conforme avançamos em nossos conhecimentos, somos impelidos a abandonar os ideais mais caros, que constituíam o que tínhamos de mais profundo em nós mesmos, para atualizá-los à luz de uma verdade mais real, mais libertadora. A busca da liberdade é uma luta desesperada. Não sei se Henry Miller leu Hegel, acho que ele era inteligente demais para perder tempo com filosofia e curtia mais a vida, mas enfim, chegou à mesma conclusão, pois falava, não com orgulho, mas com genuína angústia: "eu sou um escritor desesperado". Entre nós, sabemos que o maior motivo de desespero do Miller era a falta de grana. Depois que vai pra Paris e vira um sucesso, ele pode relaxar e escrever na paz do lar, FALANDO SOBRE o desespero, mas já não tão ACOSSADO pelo desespero.

Hegel é vacinar-se contra qualquer tipo de sectarismo. E também muito complicado, muito cansativo. No entanto, quando pegamos um Marcuse, que em Razão e Revolução, tenta explicar Hegel em linguagem jornalística, parece que estamos diante de um livro tipo "Hegel para crianças" e perde-se todo o vigor, originalidade e mistério que encontramos nos textos originais do filósofo alemão. Por isso, eu defendo sempre a leitura dos originais, nunca dos comentaristas. Dica: na Fenomenologia do Espírito, o Prefácio é mais complicado que livro, já a Introdução é mais acessível; vale, portanto, começar por aí.

Após esses anos todos de estudo, cheguei à conclusão de que pra ler filosofia é preciso uma atitude absolutamente desinteressada. Se você ler filosofia, por exemplo, com o intuito de "adquirir cultura" já está criando, sem querer, preconceitos que dificultarão o acesso ao texto filosófico. É preciso ler filosofia como quem está apenas se distraindo. A mesma atitude vale para a literatura. Distraindo-se, mas concentrando-se profundamente na leitura, é claro. Mergulhando e tendo prazer.

Crítica literária

Creio que uma das razões para haver tanto desequilíbrio estético no mundo (leia-se enorme quantidade de porcarias que fazem sucesso de crítica), é o fato de termos grandes leitores e péssimos estetas. O cara conhece tudo de literatura, se acha um grande crítico, mas a sua formação estética real, quer dizer, o seu aparelho mental estético, é sub-desenvolvido. Ele só sabe (porque leu em algum lugar) que Ulisses é uma obra-prima; Som e a Fúria é uma obra-prima; e por aí vai. E aí quando a Folha publica que fulano é uma obra-prima, ele vai e acredita e entra no coro dos puxa-sacos que alimenta a farsa literária que vem levando a nossa indústria editorial literária para um buraco cada vez mais fundo, com livros cada vez piores sendo cada vez mais incensados pela crítica; produzindo-se um crescente distanciamento entre uma elite culta (mas sem independência estética) e uma entediada massa de potenciais leitores.

São os críticos de "duas horas". Morro de medo dos críticos de duas horas. Eles pegam os livros, lêem numa tarde e escrevem: li fulano em duas horas, hoje à tarde, e achei o livro fantástico, a capa é maravilhosa, muito bem diagramado. E o texto é revolucionário, e tal. Uau! Só posso falar isso: UAU! E além de tudo, é meu AMIGO! Essa é nova geração de críticos e de júris de nossos concursos. O Globo paga 200 reais por uma resenha, mas tem que louvar o livro. É uma tremenda merreca, isso sim, mas diante da atual situação econômica, eu também tô na fila pra escrever a minha. Agora, respeitar, não vou. Nem vem que eu não respeito. Tem que haver um dia uma classe poderosa e prestigiada de críticos literários no país, independentes financeiramente para poder falar o que bem entender.

Por enquanto, são deslumbrados que dominam a crítica. Ah, Chico Buarque é um gato, tome prêmio pra ele! Alguém engoliu o milionário do Chico Buarque ganhar 100 mil reais naquele prêmio do sul? Que isso? Que isso? Tanto escritor bom aí, mil vezes melhor que o Chico, passando fome, e os caras vêm e dão um prêmio de 100 mil reais pro MILIONÁRIO do Chico Buarque? Eu adoro o Chico, mas porra... bom senso! Bom senso! Então porque não dão logo um prêmio de 100 mil reais pro Bill Gates? Um prêmio de 100 mil reais praquela banda sertaneja? E mais 100 mil reais para o Antônio Ermírio de Moraes, por toda a sua contribuição ao teatro brasileiro? (Ele é teatrólogo, vocês sabiam?). Aí Bortollotto, se prepare, vai ter um dia que vão dar prêmio de 100 mil reais pro Ermírio... e nada pra "ralé".

Entretanto, em relação às artes, não creio em solução estatal. Neste ponto, sou totalmente liberal. Arte não é mercado, não é mercadoria, tudo bem, mas é um artigo cultural que precisa ser consumido, convertido em dinheiro para pagar a sua própria distribuição.

Movimento Literatura Urgente

Não existe solução estatal, mas pode haver solução legal. Acredito que o Congresso podia votar umas leis melhores para o escritor brasileiro. O livro no Brasil, diante do quadro calamitoso de ignorância pública, deveria ser subsidiado pelos governos e grandes empresas, de forma a baratear o custo. Mesmo assim, sou simpático e aspirante à signatário do Movimento Literatura Urgente, desde que os apoios oficiais sejam totalmente transparentes e democráticos. Qualquer coisa que se faça a favor da literatura no Brasil, sou a favor. Qualquer coisa que se faça pelo bem do escritor, sou a favor. Escritor tem que receber dinheiro do governo sim, como todo mundo recebe ou quer receber. Editoras, jornais, revistas, produtoras de cinema e publicitários, recebem milhões em forma de patrocínios. É muita hipocrisia vir acusar o Movimento Literatura Urgente de querer mamar nas tetas do governo.

Agora, a coisa que eu não concordo com o Movimento, é a sugestão de 12 bolsas. Porra, 12?! Tinha que ser 12 mil bolsas, aí sim. Doze é subisidiar panela, 12 mil é subsidiar a cultura brasileira.

Gran finale

Para os heróis que chegaram até aqui, dois presentes: um trecho do Tratado Político de Espinoza que é uma bomba nos intelectuais, sobretudo nos moralistas.

"Os filósofos concebem as emoções que se combatem entre si, em nós, como vícios em que os homens caem por erro próprio; é por isso que se habituaram a ridicularizá-los, deplorá-los, reprová-los ou, quando querem parecer mais morais, detestá-los. Julgam assim agir divinamente e elevar-se ao pedestal da sabedoria, prodigalizando toda espécie de louvores a uma natureza huamana que em parte alguma existe, e atacando através de seus discursos a que realmente existe. Concebem os homens, efetivamente, não tais como são, mas como eles próprios gostariam que fossem. Daí por consequência, quase todos, em vez de uma Ètica, hajam escrito artigos satíricos, e não tinham sobre Política nenhuma idéia que pudesse ser posta em prática, devendo a política, tal como a concebem, ser tomada por Quimera, Utopia de uma idade de ouro sem instituições humanas e seus defeitos inevitáveis.

Por isso, entre todas as ciências que tem aplicação, é a política o campo em que a teoria passa por diferir mais da prática, e não há homens que se pense menos próprios para governar o Estado do que os teóricos, quer dizer, os filósofos".

4 comentários:

Anônimo disse...

Jack London é demais

Anônimo disse...

Jack London é demais

Tiago Muzulon disse...

Nossa Miguel, passei algum tempo aqui e vi de filosofia, literatura e cinema para a politica e critica e fiquei impressionado, voce le muito e catalisa muito bem tudo o que e devido. Vai prestar um servico escrevendo sobre o festival de cinema, e se pudesse ate lhe pagaria, pois criticas e textos assim nao vemos nos jornais.

tulio nogueira disse...

Gostei muito da expressão "Heguel para crianças". Principalmente porque de vez em quando eu tento milagrosamente conhecer todas as idéias de determinado autor, com um livrinho sem vergonha.
Apreciei também o toque sobre parar de ler filosofia para adquirir cultura.

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