O sucesso bate à porta

Foi só o Bortolotto publicar em seu blog um singelo texto meu, e uma grande editora logo me telefonou, querendo fechar um contrato de exclusividade.

Primeiramente, não entendi bem. Uma voz feminina arrastada disse:

- Bom dia, senhor Miguel do Rosário?
- Quem deseja falar com ele?
- Aqui é da Editora Planeta.

Legal, não? O negócio é que, como eu estava muito sonolento, entendi "Banco Banespa" (esqueci até que esse banco não existe mais), e desliguei o telefone apavorado, pensando que era mais um credor furioso me perseguindo.

Eles me ligaram novamente e eu, já compreendendo melhor a situação, fui tomado de súbita inspiração empresarial e imaginei que essa era oportunidade de fazer um contrato milionário.

- Escuta, tenho que falar com minha agente. Estou recebendo muitas propostas e tenho que analisar qual será a melhor. Mande-me um email.

Duas horas depois, toca a campainha. Fui atender e vi, pelo olho mágico, uma mulher muito magra e elegante. Era a Luciana Villas Boas, manda-chuva da editora Record. Eu a conhecia de uma foto no jornal, que inclusive havia recortado e colado na cortiça, sonhando com esse dia.

- Bom Dia, senhor Miguel do Rosário?
- Bom Dia, Luciana Villas Boas?

Ela abriu-se num sorriso amanteigado quando escutou seu próprio nome vindo da minha boca.

- Eu mesma. O senhor teria um minuto para mim?

Logo percebi que minha tática de desdém estava correndo sério perigo. Diante do charme daquela mulher, eu era capaz de me distrair e assinar qualquer contrato. Preparei um café e começamos a conversar sobre literatura. Eu estava hipnotizado e levemente aterrorizado com o que ia acontecer, quando fui salvo pela entrada triufante da Priscila, que havia ido fazer compras no supermercado.

- Quem é essa sirigaita?

Não tive tempo de explicar. A Pri andava numa fase particularmente ciumenta e, quando viu a Luciana de pernas cruzadas diante de mim, teve uma crise violenta e começou a gritar improprérios tremendos. Eu também gritava, tentando esclarecer tudo, e a balbúrdia ficou completa.

A elegante Luciana ergueu-se, muito dignamente, dirigiu-se à saída e saiu, batendo a porta com força. No corredor, havia um grupo de representantes duas outras grandes editoras: Rocco e Companhia das Letras. Dispensei os caras da Rocco, dizendo que se o Paulo Coelho os largou é porque boa coisa eles não eram, e recebi o grupo da Companhia das Letras. Eles haviam trazido um grupo de dançarinas para me fazerem uma proposta em forma de canção.

A Pri, nessa hora, começou a compreender seu erro e, terrivelmente embaraçada, disse que estava atrasada para a aula de teatro e saiu. Dei-lhe um beijo na boca e falei para ela não se preocupar, estava tudo bem.

- Você me ajudou. A Luciana estava me enfeitiçando...
- Humm... Tchau, beijinho.

Fiquei só com o pessoal da Companhia das Letras. As meninas dançavam e cantavam. A letra dizia algo assim:

- Venha, Miguel, ficar com a gente.
Nós trataremos muito bem de você.
Com a gente você vai se dar bem.
Com a gente todo mundo vai te ler.

Elas começaram a tirar a roupa, exibindo corpos perfeitos. Eu estava cansado de confusão e pedi para os executivos interromperem o show. As meninas ficaram um pouco chateadas, mas obedeceram e sentaram-se no canto, recusando-se a se vestirem novamente. Pensei que aquilo fosse mais uma técnica das grandes editoras para distrair escritor na hora de fechar um contrato.

Um dos executivos - eram cinco no total - aproximou-se de mim e começou a me explicar formalmente a proposta da Companhia das Letras.

Eu não estava conseguindo me concentrar com aquelas moças semi-nuas sentadas a um canto, mas não queria aborrecê-las mais ainda. Resolvi beber o vinho que havia na geladeira. Ofereci a todos mas se recusaram. Comecei a beber no gargalo, acintosamente, enquanto eles falavam comigo.

Uma das garotas começou a rir. Depois passaram a beijar-se umas às outras. Eram quatro e estavam agora totalmente nuas. Em questão de segundos, iniciaram uma verdadeira orgia lésbica. Eu olhava para o rosto dos executivos, atônito, esperando que tomassem uma atitude. Um deles pediu para ir ao banheiro; quando se virou, vi o rabinho escapando-lhe por baixo do terno.

Acordei suado, tremendo. A Pri passava um lenço molhado em meu rosto.

- Meu amor! Você está ardendo em febre!

7 comentários:

vitor disse...

ah ah ah doidêra!

viviana disse...

ui!

Joao Diniz disse...

ei ei, gostei que voce tratou com o maior respeito a luciana villas boas, que de fato é um charme de mulher

marcelo sahea disse...

muito bom, cara, muito bom!

secretaria bonita disse...

Estou no escritório do meu chefe, mexendo no computador dele, e eis que entrei no seu blog. Fiquei apaixonada por alguns textos. Esse post O Sucesso bate à porta é muito engraçado! E tem até uma certa poesia nele, não é?

o critico disse...

nao gostei. mas dei boas risadas...

Anônimo disse...

Gostei da forma apropriada com que conduziu a história com a Lady Luciana Vilas-Boas. A continuação tomou outro rumo, que não apreciei, mas fica o registro: uma dama deve ser tratada a altura.

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