O relatório

(William Blake, Satã sobrevoando Eva)

Grandes olhos - rajados de listras vermelhas. Fixados no espelho do banheiro. Roupas sujas amontoadas num canto. Olhos no espelho. Calcinhas dela penduradas na barra da cortina. Vermelhas de sangue, as listras do olho no espelho embaçado, salpicado de pasta de dente. Depois que enfiaram uma máquina de lavar dentro do banheiro, não é possível dar um passo. Apertado demais, olhos no espelho. Algo muito sombrio está para acontecer. Podia haver nuvens negras lá fora, tempestades. Não. Está sol. O dia está lindo. Mas a janela da sala está fechada. Através da porta do banheiro, entreaberta, a menininha espia o pai e dá um grito de horror. O rosto do pai havia, por alguns segundos, se transformado horrivelmente. Como um demônio. A menina continua gritando e chorando. O espelho vermelho se projeta nas pupilas rasgadas. Ele vê o rosto, no espelho, transfigurar-se num rosto de monstro. Sai do banheiro, sua mulher aponta-lhe um revólver.

- Vai embora dessa casa! Você não é... humano. Não se aproxime de nossa filha.

Foi assim que tudo aconteceu. Tive que dar por encerrada a pesquisa e partir. Esperavam-me lá embaixo, entre os campos de fogo e as fábricas dos suplícios eternos.

Ao ler o relatório, o Mestre, satisfeito com a profundidade do estudo, pagou-me com séculos de festas e orgias.

Um comentário:

Fagundes disse...

lembrou-me os seres disfarçados que vivem entre nós...

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