A poesia dá sede


Tem livros que nos encorajam a continuar do jeito que somos: filhos-da-puta, delirantes, sensíveis, tarados. E claro, bêbados em toda a plenitude, em toda filosofia e liberdade e alegria que há por trás dessa palavra. Bêbado, bêbado, bêbado. O livro de Moraes é um livro bêbado, maravilhosamente bêbado.

O personagem principal orgulha-se de ser um dos mais finórios vagabundos de Paris. Caga pra política, caga pra moral, caga pra alta literatura, enfim, vai no banheiro de seu estudiô e caga tão firme e forte que a merda se transforma numa peça de grande beleza, num sonoro e cheiroso hino de liberdade.

A edição que caiu-me nas mãos, editora Azougue, com sardônico pósfácio do Bortolotto, foi devorada com aquela voracidade metafísica que o Bukówsvki sentiu quando descobriu John Fante.

É um livro que nos tira do sério, nos faz querer, com vontade de criança chorona, toda a nossa ingenuidade de volta, toda a felicidade perdida de uns anos 70 vivido intensamente em quase todo mundo e que aqui foi merdado por uns milicos reaça e sem imaginação.

Dá vontade de ir pruma festa, ouvir bob dylan, stones, lou reed, charlie parker, chico buarque, gil, rorô, encher a cara de uísque, dar uns tapas, beijar a garota mais bonita e ir pra casa fazer amor com o caos.

Falar o quê? Moraes comprovou a tese de que arte não é conceito. Arte é intuição. Diversão. Liberdade. Não dá pra repetir trechos aqui. Não tem graça. Você tem que ler no contexto. Como vou convencer vocês que a cena em que Ricardinho (o protagonista) está transando com uma estrangeira e observando o camundongo no canto do quarto, que isso é muito bom?

De resto, o autor nos lembra que a melhor defesa contra o caretismo, a violência, o tédio, é o ataque: atacar uma cerveja, um papo, uma mulher, um base, um filme, um passeio sem direção pelas ruas de São Paulo, Rio, Porto Alegre ou Paris.

Moraes traduz, em brasileirês claro, a lírica libertária, inconsequente e viril dos escritores beatniks, com a malemolência, o humor, a doçura e tolerância tão nossa... tão bossa...

Nascido em 1950, o autor tem hoje 55 anos, certo? Pois então, aí vai o convite: caro Moraes, se ainda conservas alguma fração daquela energia transbordante da época em que escrevestes esses livros, empresta ela um pouquinho pra mim, essa alegria de viver, que eu quero sair de casa agora, me transformar no Cristo Redentor e mijar aliviado e sarcástico em todas as famílias-tradicionais-proprietárias da Zona Sul.

Agora, é claro que vão tentar usar o Tanto Faz para fazer apologia da cabeça oca. Nos anos 70/80, quando todo mundo era esquerdista-engajado, Moraes era meio maldito. Mas suas idéias sobre o mundo, o porra-louquismo centrado no próprio umbigo triunfou e os jovens de hoje pegam frases do Tanto Faz, como "quem precisa da história, essa puta velha assassina?", para justificar sua atitude resignada e mesmo francamente reacionária perante o mundo.

Tanto Faz é arte, é um canto desesperado de liberdade. Assim como ele desprezava os hippies-engajadinhos-riquinhos-emburrados de sua época, também não lhe agradaria virar ícone dos iúpizinhos engomados, com suas loucuras burocráticas de fim-de-semana e suas teses histéricas e rancorosas sobre a esquerda. São a sombra neo-conservadora dos mesmos sectários que outrora enchiam o saco dos artistas. O protagonista de Tanto Faz está acima de toda essa politicagem barata. Está fumando um back às margens do Sena ou do Tietê, contemplando o sol copular com o horizonte.

3 comentários:

Anônimo disse...

eh eh eh

Guilherme disse...

Re- antevejo isso (já tinha lido esta resenha) como uma recomendação magnífica, logo: procurarei a estória.

"...a melhor defesa contra o caretismo, a violência, o tédio, é o ataque: atacar uma cerveja, um papo, uma mulher, um base, um filme, um passeio sem direção..."
(eu que o diga, rapaz, acima de tudo, sobre o tédio, pois que já virei experti nele).

falou, abraços.

Miguel do Rosário disse...

isso aí guilherme, lê sim, voce vai gostar muito. grande abraço.

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