Experiências

Sou meio ignorante em literatura contemporânea internacional. Confesso que motivos pecuniários são um pouco culpados disso, já que me é lícito adquirir um Dickens por cinco reais, enquanto um livro novo em inglês, na livraria, não sai menos que trinta pilas.

Na fase mais aguda da minha crise financeira, fui assíduo frequentador de livrarias, onde devo ter irritado algum vendedor mais caxias com minha insistência em confundir livraria com biblioteca. Passava até mais de três horas lendo um livro mais recente. Interessei-me bastante, por um tempo, por alguns policiais norte-americanos. Vi muita coisa interessante. Impérios em decadência, historicamente, sempre produziram boa arte.

Entre os argentinos, li uns contos de Ricardo Piglia e sou fã incondicional de Ernesto Sábato, sobretudo de Heroes y Tumbas, romance delirante em que o personagem principal, Fernando Vidal, entrou para minha galeria pessoal dos grandes personagens do século. Dispensem-me aqui de falar de Cortázar e Borges.

Paul Auster e Philiph Roth me deram alguns momentos de lazer. Li esparsamente muita coisa desses dois autores, e com especial atenção (tendo inclusive comprado os livros) Leviatã (de Auster) e a Marca Humana (Roth). Não me impressionaram muito, apesar de reconhecer a destreza rítmica e o controle narrativo dos romances. O que incomoda nos norte-americanos em geral é que a consciência do mal e da injustiça, neles, sempre me parece ingênua, sobretudo quando leio o noticiário policial daqui.

Já fui admirador do Mario Vargas Llosa, tendo lido quase tudo dele. Hoje estou enjoado do Llosa, acho que percebi que ele se tornou meio clichê.

Ontem saí de casa à tarde, em busca de um espaço tranquilo para ler um pouco. Como trabalho em casa, às vezes me enche o saco ficar olhando para as mesmas paredes, parece que o cérebro pára de funcionar. Ia dizendo, fui a um bar aqui perto (moro num bairro com mais bares que gente), com um jornal e um livro de contos do Stephen King. Dei uma fugaz folheada no Globo, o suficiente para me convencer que não valia a pena me estressar lendo porcaria, e parti direto para o King, depois de pedir uma Antartica ao barman.

O livro foi adquirido no sebo, por módica quantia, e está no original, o que me traz o pensamento tranquilizador de que, se estou lendo merda, pelo menos estou aperfeiçoando meu inglês.

Tomei apenas uma cerveja, li o conto e voltei pra casa. Guardei o King e peguei na estante o "Aventuras do Sr. Pickwick", romance de estréia de Charles Dickens, tradução de Otávio Mendes Cajado.

Esse livro é de fazer você mijar de rir. Os pickwianos são cavalheiros londrinos que viajam pelo interior da Inglaterra em busca de histórias, diversão e aventuras. Acabam se metendo em situações tão grotescas e hilárias que a leitura fica difícil, pois é interrompida (pelo menos no meu caso) por acessos incontroláveis de riso.

No fim de semana, li um trecho de Flexa de Ouro, do Joseph Conrad, na livraria Letras & Expressões. Antes de sair, tive que fazer uma ponderada meditação para me consolar de não poder, nesse momento, comprar esse livro. Sou fã alucinado de Conrad, assim como o sou de Jack London.

Finalizo com outras dicas literárias: O suicídio do governador Antônio Menino, de minha autoria; e, para quem aprecia o estilo bukowskiano, os contos de Mão Branca, disponíveis nessa edição do Arte & Política.

2 comentários:

Glória disse...

Sobre o "Aventuras do Sr. Pickwick", me marcou quando ele ralhou com o jovem que o decepcionou em algo que não me lembro (li o livro bem jovem) dizendo; "De que valeram os dias que o deixei dormir na porta do supermercado??" Como hoje se cobra dos nossos pobres jovens: "de que vale o curso que te dei na universidade?" Dormir na rua seria mais producente para se aprender alguma coisa de humano e útil nesses tempos tristes de jovens massacrados pela massificação de informações.

Miguel do Rosário disse...

é isso aí, gloria. sempre com boas sacações. acho seu posicionamento sobre a educacao muito lúcido, combativo e importante. já inclusive conversei com minha mae, que é professora aposentada, e que concordou com o que eu expus a ela. Ela também vivenciou ambientes muito mesquinhos entre diretoras e colegas de profissao.

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