Crítica comparada dos filmes "Bom dia, noite" e "Cabra Cega"

O cinema como ferramenta revolucionária
Por Miguel do Rosário

Dois filmes marcaram-me recentemente. Dois filmes que falam de socialismo revolucionário. De sonhos, utopias, violência. O primeiro foi "Cabra Cega", dirigido por Toni Ventura, sobre um "subversivo" escondido num apartamento, durante a ditadura militar. O segundo, "Bom Dia Noite", sobre o sequestro do presidente da Democracia Cristã italiana, Aldo Moro, dirigido pelo italiano Marco Bellochio.

São dois filmes extremamente importantes para ajudar a entender os dilemas, os fracassos, e os avanços daquilo que foi o movimento revolucionário dos últimos trinta anos. E, naturalmente, para conhecer uma das vertentes mais promissoras do cinema contemporâneo.

"Bom dia, noite" projeta uma luz terrivelmente lúcida sobre os antigos dilemas que existiam no seio dos grupos revolucionários. O ritmo do filme é magistral. Sem sangue, sem perseguições delirantes, sem explosões, consegue prender a atenção até do espectador mais viciado na turbilhonante velocidade do cinemão americano. Compensa a falta de ação com uma trilha sonora centrada nos melhores clássicos de Pink Floyd. Falei falta de ação? Entenda bem, falta de "ação" no pior sentido holliwoodiano; digo pior porque longe de mim um maniqueísmo barato e anti-americano. A história do filme é ação pura. Cinco jovens, pertencentes a um obscuro mas agressivo movimento chamado "Brigadas Vermelhas" decidem sequestrar o homem que, segundo eles, é o representante supremo do conservadorismo italiano. A história é baseada em fatos reais. Aldo Moro foi sequestrado e executado por ativistas políticos em 1978.

Entretanto, um elemento ficcional é introduzido pelo diretor e pela roteirista Daniela Ceselli, que se basearam no livro "O prisioneiro", de Anna Laura Braghetti. Trata-se da jovem Chiara, interpretada por Maya Sansa. Ela representa o lado humanitário que parece faltar aos outros jovens. Simboliza o aspecto feminino que sempre faltou aos movimentos políticos, de esquerda ou direita.

O filme gira em torno da consciência de Chiara, que trabalha na biblioteca do Ministério. Um colega de trabalho, um jovem literato com idéias românticas sobre o mundo, ajuda Chiara, através de alguns papos-cabeça, a encontrar a si mesma e a enxergar com mais clareza diversas questões políticas. A intervenção desse rapaz é crucial para a história como um todo, porque ele representa uma atitude menos sangrenta, e mais eficiente, de revolta existencial. Ele está escrevendo uma peça de teatro que se chama... "Bom dia, noite", na qual um grupo de revolucionários sequestra um político, mas uma moça, componente do bando, resolve salvar o sequestrado. É um rasgo meta-linguístico que acrescenta muito ao filme, porque nos faz ver que tudo, a história se resolve, no fim das contas, no campo da criatividade. Ao longo da história da humanidade, foi necessário muito papel e caneta para que o homem superasse a barbárie e inventasse aviões, jornais e rock n'roll.

O próprio Aldo Moro, personificado por Roberto Herlitzka, ganha bastante voz ao longo do filme. Conversando com seus sequestradores, ele explica que a sua morte irá beneficiar os segmentos políticos mais reacionários da Itália. Aldo Moro, no fundo, é um político como outro qualquer, peça facilmente substituível no capitalismo. E não foi justamente isso que ocorreu? As tendências conservadoras souberam tirar proveito da comoção nacional criada pela execução de Aldo Moro para ganhar mais poder na Itália. Daí para a eleição de Silvio Berlusconi, atual presidente italiano e grande apoiador dos EUA na guerra do Iraque, foi uma evolução natural. O grupo Brigadas Vermelhas (Brigate Rosse) foi considerado extinto em 1988.

Vale destacar a cena de um almoço familiar, com parentes de Chiara, que leva seu amigo literato, em que os senhores presentes cantam canções revolucionárias dos tempos da resistência contra o fascismo. É muito emocionante.

O filme, contudo, não é complacente com os "subversivos". O mentor intelectual do grupo que sequestra Aldo Moro é tratado de uma forma caricaturesca. Mesmo assim, é autêntico. No entanto, alguma coisa no filme, não sei bem, talvez o jogo de imagens, a própria Chiara, sempre doce e alegre, ilumina o grupo revolucionário com uma luz de compreensão. Nesse ponto, vale a pena fazer o paralelo com o Cabra Cega de Toni Venturi, que, nesse sentido, é ainda mais explícito. Em Cabra Cega, vemos quanta ingenuidade, intolerância, estupidez e chauvinismo se escondem atrás de um desejo puro, abnegado, comovente, heróico, de lutar por um mundo melhor.

Aliás, por isso mesmo, por fazer uma crítica tão importante, tão construtiva, tão necessária, aos movimentos revolucionários de forma geral, que seria absolutamente idiota acusar um filme como Cabra Cega de fazer "apologia" da luta armada, como fez aquele ancião tolo e caquético de sobrenome Passarinho.

É verdade que, ao final de Cabra Cega, os três amigos pegam em armas e, sob uma trilha sonora triunfal, escancaram as portas do apartamento para enfrentar o mundo. Uma luz branca, que nos remete a sensações de vitória, fecha a obra.

Da mesma forma que Bellochio em "Bom Dia, Noite", mas de uma forma mais apaixonada, mais poética, mais (por quê não?) brasileira, Venturi dá seu recado mais importante. Com todos seus erros, seus fracassos, sua confusão, os jovens que combateram a ditadura tiveram uma importância fundamental para o país. Não só para a democracia. Não apenas para o processo republicano. Eles ajudaram a acrescentar à nossa minguada histórica alguns capítulos de heroísmo. Mesmo estando, às vezes, errados em sua metodologia e em sua filosofia (e quão fácil é para nós, do alto de nosso conforto democrático, dizer isso), estavam certos em sua revolta, em sua indignação e em seu inconformismo.

Lembro de uma passagem de Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar, para mim o melhor romance brasileiro de todos os tempos, e que também transformou-se num filme magnífico. Aliás, justiça seja feita. Minha lembrança vem do filme de Luiz Fernando Carvalho. Lembro do Selton Mello dizendo para o pai: "sei que estou louco. Mas sei que minha loucura tem mais sabedoria que a sua razão".

É isso. Muitas vezes, é mais sábio sermos loucos que racionais. Aliás, no "Bom dia, noite", há uma cena em que o jovem literato discute com a protagonista, Chiara, sobre o enredo da peça que ele está escrevendo. Em certo momento, ele acusa a moça (que no fundo é uma comunista sectária) de querer explicar tudo racionalmente. Ele explica que a personagem de sua peça decide libertar o sequestrado (o argumento da peça é o mesmo do próprio filme) por razões puramente sentimentais. Porque ela adquire, subitamente, um horror visceral, insuportável, ao assassinato, à execução sumária, a sangue frio, de um ser humano. E é isso mesmo que Chiara planejará fazer, ou sonhará fazer, já que o filme deixa o final meio em aberto.

Numa época em que vemos, de um lado, os conservadores americanos destruírem um país por causa de armas de destruição em massa que nunca existiram, sob o aplauso entusiástico do povo americano (não se esqueçam que Bush foi reeleito); e, de outro, terroristas invadirem colégios e matarem crianças, explodirem bombas em filas de desempregados e destruirem seu próprio país; em tempos assim, nada como um bom filme que nos lembra que, no frigir das batatas, a coisa que vale mais no mundo, é a vida, não a vida em geral, mas a vida real particular, individual, única, irrepetível.

3 comentários:

mestico disse...

o q aconteceu com o amigo de chiara? se vc tiver a resposta e puder envia-la para o email craniofilmes@uol.com.br, eu ficaria muito grato. obrigado desde já.

mestico disse...

o q aconteceu com o amigo de chiara? se vc tiver a resposta e puder envia-la para o email craniofilmes@uol.com.br, eu ficaria muito grato. obrigado desde já.

Rodrigo disse...

O aspecto feminino é o que falta, você tem toda razão. O feminino representado pelas diversas manifestação do amor, e principalmente pela compaixão.

Mesmo no quadro clássico de Eugène Delacroix, La liberté guidant le peuple (A liberdade guiando o povo).

Ela, a liberdade é representada por um mulher de seios nus.

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