Urubus não têm lei

Segue abaixo a minha última participação na revista Bagatelas, da qual não faço mais parte por uma decisão pessoal. Minha coluna não existe mais, portanto o texto abaixo só pode ser lido aqui. Desejo toda sorte e sucesso à revista e convido meus leitores a virem me visitar sempre por estas bandas.

Sou absolutamente contra o oba-oba. Claro que me aborreço muito com certo predomínio do pós-modernismo-joyciano-pilantra. Consequentemente, tenho me alegrado em ver as bases deste movimento ruírem aos poucos, de forma mais lenta do que eu gostaria, mas irreversivelmente. Pelo menos, prefiro acreditar nisso.

Literatura virou festinha? Agora tão criando uma faculdade de escritor lá no sul que vão ensinar até como dar entrevista... O mais preocupante é que, no fundo, a proposta é absolutamente coerente com os rumos que o segmento vem seguindo nos últimos tempos. Enfim, o problema no Brasil, blá blá, é a falta de leitores. Daí que ficamos reféns de meia-dúzia de intelectualóides e da ditadura dos concursos marmelada.

Ah, reclamar não adianta nada. A gente sabe que a vida é dura, e talvez as coisas devam ser assim mesmo. Quer moleza, dizia Chacrinha, senta no pudim. O fato é que eu fico chateado em ver que alguns dos que estão ingressando no mundo da literatura, inclusive amigos meus, começaram a deixar a discussão estética em segundo plano.

Em nome de uma suposta busca da profissionalização do escritor, estão esquecendo que isso só faz sentido se a literatura for o interesse central de suas vidas. Isso implica, naturalmente, em ler. Discutir o que leu. Perguntar. Pesquisar. Informar-se constantemente sobre o que vem sendo feito de novo no país e no exterior. Respeitar os que estão há mais tempo na luta, não pela idade avançada, mas pela extensão e repercussão de suas obras. Se não for assim, então não vale a pena.

Ganhar dinheiro com literatura? Ah, não me façam rir. Ser escritor é praticamente assinar atestado de pobreza. Conformem-se. Arrumem empregos que lhes permitam algum tipo de liberdade. Negociem com a mamãe uma mesada vitalícia. Encarando a literatura desta maneira leviana, vocês não somente não contribuem em nada para a profissionalização do escritor; pelo contrário, desmoralizam a literatura.

Querem que eu seja humilde? Então tá: parodiando o Veríssimo, eu sou o cara mais humilde do mundo. Me acuso, peço desculpas. Faço merda. Quem não faz? Quem atirará a primeira pedra? Um escritor deve ser leal apenas a si mesmo, e isso já é muita coisa. Elogio depois xingo, entro em contradição. Sou dialético, porra! O fato de ser simpático com as pessoas nem sempre é uma qualidade. No meu caso, é uma espécie de covardia congênita. Herdei essa merda. Tenho medo de cachorro e de magoar os outros, e a impressão de que meu talento existe à revelia da simpatia. Um dia ainda me livro disso, como já me livrei de tanta coisa em minha vida. Serei um filho-da-puta franco, cruel, mas de consciência tranquila.

Literatura é compromisso. Com a leitura, sobretudo. O escritor compete com dois-três mil anos de intensa produção literária. Como poderia ter a mínima pretensão de ser escritor se não procurasse dialogar com todo esse patrimônio? Evidentemente, isso será possível apenas se eu ler, reler e discutir todo maldito clássico, toda maldita obra contemporânea. Se um escritor não pensa assim, se acha que literatura é frequentar Flip, Flap e tomar umas cervas na Mercearia São Pedro, então, meu caro, definitivamente... boa sorte. O segredo é ler e sofrer, disse Dostoiésvki, respondendo ao jovem aspirante a escritor, que lhe pedira a fórmula de como escrever bem.

Cara, literatura não é um sonho bom. É barra pesada. Sofrimento, renúncia. Ser escritor, no início, é aguentar no lombo a consciência de ser um fraco que escreve mal pra caralho e não possuir nada além de uma ambição desmesurada e um ego doente. E trabalhar, trabalhar. Sondar as profundezas de seu próprio desespero. Aceitar a dor enquanto condição obrigatória para uma incerta evolução. Um dia, aprende-se a escrever, de forma singular e universal, e percebe-se que o sofrimento não diminuiu, pelo contrário. Não ganhamos dinheiro. O ego continua doente, a ambição cresceu. Que ganhamos? Satisfação íntima? Um pouco de dignidade?

8 comentários:

Camilla Lopes disse...

Racho a conta
e vamos rachar mtas ainda tenho certeza. Gostei das especificações. É honestidade, amigão, sinceridade... Esse povo pensa o quê? Que escrever é prazeroso? Que é sentar a sombra da árvore e ficar de nehénhénhé? Que isso... Tem que ter muito inferno na alma, amor tb. Sobretudo solidão. A gente vai longe neguim...

Ricardo Lima disse...

Aproveito para rachar a conta também.
Como você referiu escrever envolve dor, é uma dor sentida que só nós escritores sabemos extrapolar num cocktail de pesquisa e processamento mental. Um escritor deve ser como uma esponja, ter o poder de absorver tudo á sua volta para depois ter conhecimento suficiente para criar algo.
Eu hoje absorvo tudo, depois só tenho que filtrar o que não preciso e saber gerir tudo o que sei com aquilo que sou.
Fernando Pessoa escreveu um poema chamado "Autopsicografia" que descreve todo o processo mental que é preciso para originar uma obra. Um clássico!

Um abraço de Portugal!

Flávio Côrrea de Mello disse...

Caro Miguel,

Embora, neste momento, não compartilhe tuas opiniões, não mesmo, te desejo muita sorte e paz nos teus caminhos, pois bem sei que de nada adianta estarmos em lugares em que a angústia nos torna improdutivos, sobretudo para a escrita, e se o incômodo se torna insuportável, você deve realmente se mexer.
O rio é movediço, sempre é, e separa-se em inúmeros afluentes para depois se encontrar novamente e assim vai fluindo num ir e vir até desembocar no mar ou findar na terra, não sem antes umidificá-la, deixando novas folhagens, novas possibilidades.
Boa Sorte nos teus vôos!
A gente vai se encontrando, depois conversamos mais.

Emerson Wiskow disse...

Escritor tem que passar fome? Comer mulher feia? Não comer ninguém? Viver bêbado, abandonado, ser feio? Acho que não. Nunca participei de um evento literário, não tenhos amigos famosos. Isso não torna ninguém um escritor, nem mesmo sentir dor. EU NÃO SOU UM ESCRITOR! Escrevo simplesmente porque me ajuda a passar o tempo, me distraí, ajuda a não enlouquecer. Mas também me angustia, e não me importaria nem um pouco se eu ganhasse muita grana escrevendo. Não vai acontecer. Na verdade se eu tivesse comendo as mulheres capas de revistas, ganhando uma boa grana, com um Porsche na garagem, eu não escreveria uma linha. Talvez. Na verdade nem mesmo sei porque escrevi essa merda.

Daniel B Faria disse...

Como sou meio por fora de tudo, e talvez seja melhor continuar assim pelo que tou vendo, não sei dos meandros da coisa, nem sei quem sou pra entrar na briga dos outros. Não tenho essa pretensão. Mas vi, e tentei opinar, na questão da Faculdade de Escritor. Ia deixar noutro lugar, mas prefiro deixar pra você duas frases do meu querido filósofo Nietzsche, considere um presente. "Rápido bastante cavalgas para a tua meta: mas teu pé aleijado também está em cima do cavalo e há de chegar ao mesmo tempo contigo." "Tudo o que pode ser pago tem pouco valor: essa doutrina eu cuspo na cara do pequeno negociante".

Anônimo disse...

miguelito,
o compromisso só tem que ser com a literatura. toda manhã me pergunto por que continuar? e continuo. esmurrando metal afiado, pontudo. não vejo outra discussão a não ser a estética."literaturawear". isso é o que vejo, cada vez mais. moda, chinfra, onda. seja lá qual termo for empregado. o conceito, inplacavelmente, é o mesmo.
uma saída?
libertarmos a crítica da senzala acadêmica. pois lá é que são desenhadas essas "estratégias de ação", laboratórios de testes para o mercado.
saudade e esperança
só isso posso lhe dizer mais
do amigo de sempre,
silvio barros

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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