Marginal Blues 1980

Imaginar que se passaram vinte anos... Pois digo a vocês, quando o sujeito não morre num lugar desses, ele se transforma. Afinal, é preciso sobreviver. No meu caso, não só me transformei como virei transformista. Claro que já tinha um DNA gay antes disso, porque esse tipo de coisa, creio eu, já nasce com a pessoa. Mas compartilhar uma cela com outros vinte e sete homens foi, talvez, o fator decisivo para a metamorfose completa. Da sexual, naturalmente, porque a mudança mental que se operou em mim se deve, essencialmente, ao ilustre senhor Dráuzio Varela e seu trabalho social aqui na prisão. Ele foi o idealizador da primeira biblioteca do Carandiru e eu era seu assistente no projeto. Depois fui encarregado pela organização de tudo, o empréstimo dos livros, a coleta das doações vindas de empresas, editoras, livrarias e até de escritores, empolgados com a perspectiva de criar uma ilha de cultura dentro daquele inferno dantesco – o projeto incluía aulas de literatura, português, história, filosofia, de tudo que pudesse facilitar ao preso a assimilação dos livros, que chegavam aos milhares.

Agora estou livre, quarenta anos de idade e uma experiência que nunca imaginei que possuiria há vinte anos. Eu, que era um garoto mimado, criado pela avó corujona, ignorante tanto em relação ao meu próprio sexo quanto à vida em geral, hoje contemplo o mundo do alto dessa colina, onde vim me esconder da polícia (sim, infelizmente, fui obrigado a fazer um último crime), sem ódio, sem rancor de espécie alguma, tranquilo, compreensivo. Nem da polícia tenho raiva. Pelo menos não enquanto eles não puserem a mão em mim novamente - e acho difícil que eles consigam porque esse é o meu melhor esconderijo. Se tivesse vindo pra cá em 1980 não teria sido preso. Mas aí também não teria me transformado, não teria chegado onde cheguei.

Hoje posso dizer que sou escritor. Embora não tenha livro publicado, sinto a paixão da escrita queimar dentro de mim. Por isso, tive que cometer esse derradeiro assalto, precisava garantir o futuro. Não posso simplesmente me empregar como office-boy e esquecer todos os sonhos. Ou montar uma banquinha de camelô e passar o dia vendendo biscoito enquanto qualquer idiotinha filhinho de bacana tá aí lendo os clássicos, estudando inglês e alemão, viajando à Paris, montando panelinha de literatura, com tempo sobrando pra pensar, escrever e coçar o saco, não necessariamente nessa ordem. Mais tarde tenho meus planos para com eles. Por enquanto, precisava apenas de uma coisa: dinheiro.

Alguns dirão que sou imoral, e por isso não tenho direito à glória literária, que nunca a sociedade irá aceitar um monstro (me chamaram disso nos jornais, acreditam?) que assassina a própria avó que lhe criou com tanto carinho e dedicação. Mas eu sei o que sou. Nietzsche me ensinou que a única moral que vale é a moral do forte.

Entretanto, não pensem, ao ler essa carta que envio para os jornais, que sou um desses psicopatas de filme americano, revoltado contra o sistema capitalista e disposto a explodir tudo. Não. Tenho meus planos, que infelizmente não posso contar, para que eles sejam bem sucedidos. Mas eles não incluem nenhum atentado terrorista, nem outros crimes de espécie alguma. O último foi esse mesmo, que fui obrigado a cometer em vista das circunstâncais. Minha avó, que sempre foi muito boa comigo quando eu era criança, tornou-se uma megera avarenta após minha prisão. Guardava jóias no quarto enquanto eu quase morria de fome no xadrez – é, porque não é fácil engolir a gororoba nojenta que eles nos serviam por lá. A rapaziada mais aprumada mandava trazer comida de fora.

Gostaria de adiantar somente isso: vou sumir do mapa por uns tempos, mas não esqueçam meu nome: Virgulino Candeias de Araújo, ou simplesmente Virgulino Araújo, como pretendo assinar meus livros de agora em diante. De vez em quando, enviarei uns textos por email para revistas, sites, jornais. Meu ser físico continuará ausente por alguns anos, quiçá por toda a vida.

Mudei muito. Naquela noite quente de 1980, quando fui preso, eu era apenas um garoto inconsequente escutando blues no toca-fita de um fusquinha velho - cujos donos eu havia matado a facadas. Hoje sou um homem maduro, consciente dos fatos sociais e históricos que marcaram o país e o mundo. Hoje tenho cultura e experiência, não serei pego com tanta facilidade.

Aguardem, meu amigos, em breve mandarei notícias.

9 comentários:

Daniel Faria disse...

Cla - cla -cla
Clara Crocodilo!

Miguel do Rosário disse...

po daniel? que isso?

Daniel Faria disse...

é que teu conto me lembrou da saga de clara crocodilo, do arrigo barnabé. O inimigo público número um, o facínora! Clara Crocodilo tem um jeito mais "pop", de marginal de quadrinhos. Mas a ameaça é a mesma que paira no final do seu conto. Eu tinha o cd, me roubaram. Fico caçando nesses programas de música compartilhada, e consegui pegar alguns pedaços da música. O Arrigo Barnabé sumiu, sei lá, parece que agora quis virar "erudito". Quando gosto de uma coisa é assim, que nem um fio que puxa outro, foi um jeito sei que estranho de falar sobre seu texto.

Miguel do Rosário disse...

ah, valeu Daniel! pô, tu mesmo tem que admitir que seria muito difícil entender! ah ah, ah, vem cá, voce é o poeta daniel faria, com poemas publicados na germinaliteratura?

Daniel Faria disse...

Não sou esse Daniel Faria não. Um texto meu saiu recentemente no cronopios, ainda está na página de abertura, Apenas um modo de se fazer o texto falar. Não sou nada internético.

Antonio Diamantino Neto disse...

Gostei miguelito. ssa semana escrevo pedino os dois números de bagatelas. Sempre ouço seus comentários acreca de meus poemas e os conto, você gosta. Tem um novo no seu e-mail.
Um abraço.

Miguel do Rosário disse...

tom raiva, eu gosto mesmo dos seus textos. agora, escuta, eu não faço mais parte da revista bagatelas. mas pode mandar os contos para eles, que eles são gente boa e acessíveis e podem publicar sim. abraço.

Anônimo disse...

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Anônimo disse...

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