O segredo do Homem

"Os que estavam à mesa começaram a dizer então: Quem é este homem que até perdoa pecados? ", Lucas 7, 49



Dentre as inúmeras lendas que cercam a vida de Jesus, uma das mais escondidas pela Igreja é a de que o Filho de Deus teria sido um grande boêmio. Não é polemismo barato. Não se trata somente do hábito de beber diariamente quatro ou cinco garrafas de vinho. Cristo seria também um poeta, um bon vivant, um artista! Essa ladainha do Dan Brow sobre Cristo transar com Madalena e ter um filho, que hoje horroriza setores reacionários da Igreja, é uma versão infantil da verdadeira história. Como disse a francesa, antes de baixar a calcinha: prepare-se, le chose é bem mais cabeluda do que imaginas.

Na China, essa história é conhecida e encarada com naturalidade. Afinal, Buda foi, em sua juventude, o maior playboy de todos os tempos. No Ocidente, porém, o judaísmo moralista tratou de distorcer o significado profundamente libertário da vida de Cristo, erguendo em torno de sua biografia um muro de castidade e inocência. A idéia da gravidez sem sexo de Maria é uma das lendas mais carolas e inverossímeis da mitologia mundial. Daí para a virgindade de Jesus foi um passo natural, apesar do absurdo da coisa. Incrível é como a humanidade tem sido engambelada há mais de dois mil anos.

A lenda diz que Jesus barbarizava as noites de Jerusalém, cantando, bebendo e dançando, participando de festas e orgias... Numa dessas, conheceu Madalena, a mais bela prostituta da Palestina, que apaixonou-se perdidamente pelo jovem de longas melenas, olhos brilhantes e lábios sempre coloridos pelo vinho.

O amor de Madalena, apesar do bem que proporcionou à alma inconstante de Jesus, trouxe-lhe também a sífilis. Tal fato é que teria motivado a tentativa de apedrejamento da meretriz, por parte de pretensos "amigos de Jesus". Madalena foi salva pelo corajoso amante, que enfrentou os atacantes gritando-lhes a famosa frase sobre a primeira pedra (conta-se que um engraçadinho, neste momento, lançou um pedra que atingiu o abdômem de Jesus; e que este revidou furiosamente, esmagando-lhe o crânio com uma pesada tora de madeira).

Jesus tinha trinta anos quando contraiu a doença, e os médicos lhe deram poucos meses de vida. Diante da proximidade da morte e proibido de fazer sexo ou exceder-se no vinho, Jesus aproxima-se da religião e decide tornar-se um profeta.

Consultando os sábios de sua Seita, Cristo descobre que havia uma planta que poderia curar-lhe a terrível doença. Era um derivado da papoula, ou da cannabis, coisa assim, muito popular entre os jovens da elite judaica. Não tendo dinheiro para adquirir regularmente o produto, Cristo começa a fazer tráfico da planta para bancar seu próprio consumo.

A atividade rendeu-lhe gordos lucros; em pouco tempo, estruturou uma poderosa organização. Patrocinava projetos sociais e religiosos, que lhe renderam a fama de Santo, além de úteis para comprar o silêncio da comunidade.

Os supostos milagres de Cristo seriam nada mais que o resultado de seus conhecimentos científicos. Aprendera como curar doenças com seu pai, José, membro da Seita dos Essênios, uma espécie de Maçonaria, cujos integrantes estudavam literatura, ciências, religião e medicina.

Os romanos haviam proibido expressamente o consumo da referida erva entre os judeus, pois queria-os dóceis, alienados e submissos, e a planta induzia seus usuários à reflexão, provocando debates filosóficos e políticos que, invariavelmente, produziam projetos de rebelião.

Judas Iscariotes era um viciado decadente, que se aproveitava do bom coração de Jesus para adquirir-lhe a droga sem pagar. A dívida de Judas cresceu e Cristo, mesmo sendo o bom cristão que era, ameaçou-lhe dar uma surra caso não a quitasse. Há relatos de que o discurso de Jesus sobre dar a outra face para quem lhe estapeia foi uma tirada sarcástica contra Iscariotes, pronunciada logo após o sonoro ressoar de um tabefe na parte esquerda do rosto do X9 mais famoso do Ocidente.

Até que um safado qualquer (quiçá o próprio Satã) observou a Judas que, delatando Jesus, poderia não só ganhar uma boa recompensa (que usaria para comprar mais drogas) como se livraria de ser espancado pelo Santo Credor, o qual, apesar de Santo, bem sabia aplicar um corretivo num pilantra caloteiro.

Judas gostou da idéia e traiu seu Fornecedor, dedurando-o às autoridades competentes. Jesus ficou sabendo da trairagem e, sem ter como escapar, tratou de fumar grande quantidade de erva, para evitar a dor física nas tradicionais sessões de tortura.

No momento de carregar a cruz, um de seus discípulos conseguiu passar-lhe uma boa dose de outro estimulante, o que lhe permitiu arrastar o peso até o monte Calvário. No momento da crucificação, enquanto alguém distraía os guardas, aplicaram-lhe outra dose, para que não sentisse as dores dos pregos sendo enfiados em seus pés e mãos.

Todo esse coquetel fê-lo entrar em coma, após algum tempo, levando os guardas a pensarem que estava morto e a liberarem o corpo para ser enterrado. Quando o efeito passou, Jesus, como se sabe, saiu do caixão e foi ao encontro de seus amigos.

Conta-se que, nesta ocasião, ele teria combinado com seus discípulos que o mais seguro era que romanos e filisteus acreditassem mesmo em sua morte.

Jesus então partiu para o exílio na Índia, onde terminou o resto de seus dias. Dizem as más línguas que ele teria se convertido ao budismo...


(conto publicado na revista impressa Bagatelas, número 2, lançada esta semana. O conto vem aqui com uma ou duas correções. Portanto, os que não tem acesso à revista impressa, poderão ler o conto com alguma vantagem)

2 comentários:

Daniel. disse...

Não tenho o hábito de navegar em blogs, mas como você já deve ter percebido descobri o seu não sei como e sempre dou uma olhada. Acho muito bom. Agora: sacanagem com Judas, que sempre é o lado mal compreendido da história. Jesus sim é que era um tremendo cafajeste, insólito devorador de peixes. Ninguém me convence que as autoridades precisavam do tal beijo pra reconhecer o sacana. O beijo foi um ato de carinho, e Jesus "cordeiro" morto-vivo nunca desfez o mal entendido. Pra dizer a verdade, o único Messias nessa história insólita é o coitado do Judas. Até hoje fustigado e chicoteado por velhotes e criancinhas.

Miguel do Rosário disse...

grande daniel. também fiquei meio assim de colocar o judas como x9 de jesus. tenho a maior simpatia pelas versões que apresentam judas como um injustiçado. obrigado pela visita, daniel. abraço.

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