O diabo não bebe cerveja


(Faces com língua, de Emilio Mogilner - www.123emilio.com)


Faz dez anos que tenho problemas com a bebida. Perdi o emprego. Afastei-me dos amigos, da família. Mas como sempre conseguia um biscate, criando websites ou consertando computadores, vivia sem grandes preocupações. Até que um dia, meti-me numa briga de bar e esfaqueei um homem. Nem lembro direito como aconteceu, apenas de chegar em casa, pela manhã, muito bêbado e com a roupa toda suja de sangue. O sujeito morreu. Aí me acusaram de louco e me prenderam aqui.

Não sou louco. Quero provar a vocês que sou um cara normal. Ou quase. Apenas fui vítima de acontecimentos insólitos, cujas lembranças me tornaram um sujeito desequilibrado emocionalmente.

Começou assim: eu era casado com uma linda mulher e vivia num aconchegante apartamento em Botafogo. Três quartos, duas salas, uma cozinha espaçosa e uma enorme varanda que dava para uma vista magnífica da praia de Botafogo, do Pão de Açúcar e das avenidas litorâneas. Vivíamos um para o outro e não nos separávamos nunca por mais de algumas horas. Até fazer compras no supermercado era, pra nós, uma deliciosa aventura.

Uma noite, recebemos ligação de um amigo, ex-namorado de Eurídice - esse era o nome de minha esposa. Convidou-nos para uma festa em Copacabana. Ficamos empolgados com o programa, pois Hefestos sabia das coisas. Sempre que saíamos com ele, era diversão garantida. Eurídice vestiu uma túnica verde-musgo, amarrada na cintura e cingiu uma flor azul a seus cabelos longos e negros. Eu optei por minha bata branca tradicional.

Chegamos à festa por volta da meia-noite. Tocava um som muito louco e todos dançavam freneticamente. Os garçons passavam servindo bebidas variadas. Mergulhei fundo na coisa. Eurídice me olhava assustada, às vezes, e voltava a dançar. Ela e outra moça, também muito bonita, faziam uma coreografia diabolicamente sensual. Eurídice rebolava, saltava, mexia os peitos, balançava os braços, fazia o diabo com o corpo. A outra garota não deixava por menos, acompanhando-a em todos os movimentos. Eu não estava a fim de dançar e me instalei num banquinho junto ao balcão, concentrado em beber cerveja o mais rápido possível. Aos poucos, ou de repente, não sei, tudo começou a brilhar. Quando dei por mim, estava dançando também. Era estranho, nem parecia eu. Parecia que um demônio tomara conta de meu corpo e dançava em meu lugar. Diversas garotas dançavam comigo, todas bonitas, cabelos compridos, cabelos curtos, cinturas finas, vestidos negros, vermelhos, cintilantes. Fiquei tonto. Desmaiei.

Quando acordei, a boate estava vazia. Por todo lado, centenas de latinhas de cerveja, copos de plástico, sapatos, brincos perdidos, celulares. A primeira coisa que pensei, quando minha mente deu sinais de vida, foi, é claro, em Eurídice. Onde está ela? O engraçado é que assim que pensei isso tive a impressão de já ter a resposta.

Não tenho tempo de descrever todos os lugares sórdidos pelos quais passei antes de encontrá-la. A busca durou meses. Além dos hospitais, clínicas e necrotérios, estive em prostíbulos imundos, sinistras bocas de fumo, bares suspeitos, e outros lugares mal-afamados. Vou resumir: encontrei-a trabalhando numa estranha boate na área portuária de Santos.

Seu chefe era um homem sombrio, parecia estrangeiro e possuía olhos esbugalhados e sempre injetados de sangue. O nome caía-lhe como luva: Plutão. Podia jurar que o sujeito era o próprio diabo em pessoa. Hospedei-me numa espelunca ali perto e passei a observar a rotina de Eurídice. Havia sido praticamente escravizada. O estranho é que não parecia se importar. Por que não fugia? Por que não chamava a polícia? Sem respostas, decidi salvá-la imediatamente, livrá-la das garras daquele demônio.

Esperei uma noite em que Plutão se recolheu mais cedo e Eurídice ficou sozinha atendendo os clientes. Pedi uma cerveja. Quando ela veio, segurei sua mão e a olhei bem nos olhos. Vi que estremecia, mas não havia me reconhecido. O que o desgraçado fizera com ela? Soltei sua mão, deixei que continuasse a trabalhar. Esperei. Lá pelas quatro da manhã, tentei nova abordagem. Falei que era seu marido, que meu nome era Orfeu, e que nós costumávamos ser felizes. Seus olhos brilharam, um lampejo de lucidez cintilou em seu rosto. Senti imenso alívio ao ver que recuperava a memória e me olhava enternecida. Mas durou pouco. Logo voltou ao estado catatônico que, pelo jeito, era seu natural. Voltei ao hotel e esperei o dia seguinte.

Entrei no bar à meia-noite e pedi uma tequila. Plutão estava sentado a uma mesa nos fundos, fumando um charuto e sorvendo um líquido vermelho e viscoso. Aproximei-me. Ele mediu-me por um instante, cumprimentou-me com a cabeça e voltou a se concentrar na bebida. Sem saber como abordá-lo, disse a primeira coisa que me ocorreu.

- Com licença, senhor, poderia me dizer o que está bebendo?
- Sangue. Por quê? Quer um pouco?
- Ah, sangue - respondi, tentando sorrir do que achava ser uma piada. É um novo tipo de bebida?
- É uma bebida especial para pessoas especiais, meu caro. O que você quer?
- Quero levar Eurídice. Ela é minha esposa.
- O quê? Você quer levar minha melhor funcionária?
- Sim. Ela é minha esposa, já falei.

Ele riu e deu mais um gole na bebida nojenta. Puxei um revólver de dentro da calça e apontei para sua cabeça.

- Vou levar por bem ou por mal. Agora.

Notei uma expressão de medo em seu rosto. Ele procurou me acalmar.

- Eh, fica frio, rapaz. Não vamos brigar por causa disso. Tudo bem, pode levar a garota. Pegue-a pelo braço e diga: “Plutão mandou você vir comigo”. Vá na frente. Ela vai te seguir. Saia da boate. Caminhe até o fim da rua sem olhar pra trás. Sem olhar pra trás, ouviu bem? Ela estará te seguindo. Quando vocês contornarem a primeira esquina, estarão salvos.
- Salvos de quê?
- Do inferno, ora!! - e riu desbragadamente, exibindo os dentes sujos de sangue ou seja lá o que fosse.

Quase perguntei que inferno era aquele, mas dei uma olhada rápida ao redor e certifiquei-me de que estávamos mesmo num lugar assombrosamente infernal. As pessoas se comportavam de uma maneira bizarra. Ninguém ria ou conversava. Vi, num canto escuro do bar, um homem seviciando uma garota nua da cintura pra cima. Ele chicoteava a garota impiedosamente, e ela não gritava, apenas fazia caretas desesperadas. Em outra parte, dois homens faziam sexo furiosamente.

- Tudo bem. Vou lá pegar Eurídice.

Fui até onde ela estava e sussurrei em seus ouvidos.

- Plutão ordenou que você me acompanhe.

Foi como apertar o botão de um robô. Ela me olhou com obediência comovente. Largou a bandeja e me seguiu. Em alguns segundos estávamos fora do local. Senti desejo de olhar pra trás, mas lembrei-me do aviso de Plutão. Um pouco antes de chegar à esquina, a curiosidade mordeu-me o espírito novamente. Não pude resistir. Dei uma olhada ligeira pra trás. Ela arregalou os olhos e correu de volta.

Corri atrás dela, mas quando tentei entrar no estabelecimento, dei com a porta trancada. Esmurrei, chutei, gritei, mas não me deixaram entrar. Frustrado e deprimido, voltei ao hotel.

Vou resumir: nunca mais vi Eurídice. Acionei a polícia, a justiça, detetives particulares, paguei anúncios em jornais, e nada. O bar de Plutão transferiu-se para lugar desconhecido.

Comecei a beber descontroladamente. Aí vocês conhecem o resto da história. Talvez o que não saibam é que eu aprendi a tocar violão. Quando algum de vocês vier me visitar, posso mostrar as músicas que ando compondo...

5 comentários:

Tiago Muzulon disse...

Já li essa estória, mas de outro modo. Gosto de suas estórias como essa porque fazem o leitor ser o personagem. A onda de primeira pessoa bem-descrita é um grande trunfo, que precisa ser usado com autoridade, e você tem essa autoridade. Na moral.

Miguel do Rosário disse...

valeu Tiago, mas já te enviei todo dinheiro que eu tinha, não tenho mais como pagar seus elogios... rs rs rs, desculpe a brincadeira, é uma honra ouvir isso de voce, cara, abraço

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