(CONCEDIDA EM 2005)
Arte & Política: Paulo, fale um pouco de seus livros passados e futuros...
Paulo Scott: Publiquei três livros até agora: o “Histórias curtas para domesticar as paixões dos anjos e atenuar os sofrimentos dos monstros” (SULINA, 2001), uma compilação das poesias que escrevi nos anos oitenta e noventa; o já esgotado “Ainda orangotangos” (LIVROS DO MAL, 2003), contendo vinte e dois contos curtos – herméticos, poéticos e violentos –, e, recentemente, o romance “Voláteis” (OBJETIVA, 2005). O “Histórias curtas...” é um livro irregular, há textos melhor acabados – nos quais já é possível perceber o estilo que hoje me caracteriza – e outros de uma ingenuidade insuportável, mas que pela crueza têm algum valor literário. O “Ainda orangotangos” virará longa-metragem em plano-seqüência, dirigido pelo Gustavo Spolidoro, da Clube Silêncio – hoje, a segunda produtora de cinema mais importante do Rio Grande do Sul –, com previsão de lançamento para o segundo semestre de 2007.
No final deste mês de janeiro, sairá pela Editora Objetiva, o livro de poesias “A timidez do monstro”, com ilustrações do Guilherme Pilla, o responsável pelas capas da Livros do Mal – uma coisa importante a ser dita é que as ilustrações do livro, por motivos que não vêm ao caso, são as últimas feitas por ele antes da decisão, tomada há quase um ano, de parar de ilustrar.
Arte & Política: Como analisa a atual conjuntura do mercado de ficção no país?
A conjuntura do mercado ainda é reflexo dos problemas estruturais relacionados ao baixo nível cultural (educacional) do nosso país – crises econômicas, na minha opinião são secundárias, menos determinantes, tanto é que em vários países a procura por livros aumenta nos períodos de gravidade financeira.
Há boa ficção sim, mas que não provoca – apesar de algum esforço editorial, como, por exemplo, esse que a Companhia das Letras está fazendo com o livro recente do Marçal Aquino – a devida atenção dos consumidores-leitores.
Não se pode esquecer que mercado é, sobretudo, consumo, e isso – a exceção dos livros de auto-ajuda e dos autores da moda, alguns cujo resultado sequer pode ser considerado literário – é algo que em escala significativa sequer existe no Brasil. Livros excelentes, como o “Deixe o quarto como está” (COMPANHIA DAS LETRAS, 2002), do Amílcar Bettega Barbosa (ganhador da última edição do Portugal Telecom), não chegam a vender os três mil exemplares da primeira edição.
Apesar de tudo isso, vale o registro, autores novos (e tidos como marginais ao gosto médio do consumidor brasileiro) vêm recebendo, inclusive da imprensa literária, maior atenção do que receberiam há alguns anos atrás.
Arte & Política: Para você, a proliferação de pequenas editoras trouxe que tipo de mudanças à literatura contemporânea?
As editoras pequenas, com maior ou menor êxito, expõem novos autores, cuja qualidade literária – se, de fato, presente – poderá ser mais facilmente reconhecida. Importante lembrar que nem todas as pequenas editoras têm compromisso com a qualidade, muitas entram na lógica: “vamos publicar os nossos amigos” – radicalmente contrária a essa perspectiva, esteve (ou está, já que não se sabe se a editora acabou, ou não) a editora Livros do Mal, com rigor máximo na seleção dos seus autores.
Com efeito, escritores das pequenas editoras passaram a receber da imprensa brasileira o mesmo destaque dispensado aos autores das grandes editoras; isso obrigou as grandes a se tornarem mais sensíveis e abertas aos excêntricos (admitidos aí todos os significados cabíveis na expressão).
Arte & Política: O que faz para se inspirar?
Falta de inspiração não é o meu problema. Pelo contrário, tenho de controlar a enxurrada de impulsos e as idéias para conseguir, efetivamente, ser produtivo; quero dizer: não há como você terminar os projetos iniciados se não controla a compulsão de iniciar outros e outros.
Na execução dum texto longo (como um romance, por exemplo) – especialmente quando estou muito cansado ou envolvido pela frieza e tensões da vida prática (como diz a minha mulher Simone) – escuto Chet Baker, Nina Simone e John Coltrane, coisas desse tipo.
Uma certa indignação constante (que me caracteriza) é outro elemento inspirador importante.
Arte & Política: Falta uma crítica mais profissional e independente no país?
Com certeza. Isso está mudando, mas muito lentamente. Num meio repleto de leitores pouco informados – preguiçosos até – uma crítica literária razoável seria algo indispensável. Uma das pessoas que melhor tem se pronunciado a esse respeito é o escritor Nelson de Oliveira.
Arte & Política: Onde gosta de passar o Carnaval?
Carnaval? O que é isso?
Arte & Política: Três livros que levaria para uma ilha deserta?
“A náusea”, do Jean Paul Sartre. “Viagem ao fim da noite”, do Luis-Ferdinand Céline. “Almoço nu”, William Burroughs.
Veja que são todos estrangeiros; é uma pena (mas fazer o que?, são minhas grandes influências).
Arte & Política: Dostoiésvki ou James Joyce?
Joyce, por razões muito particulares.
Arte & Política: Pode dizer alguma coisa sobre o tema educação?
Sobre a educação, o que posso dizer é que... bem, é o maior problema do Brasil e os Governos todos (de todos os níveis federativos), como acontece com a saúde – aliás, só isso já seria motivo para protestos e manifestações intermináveis – não conseguem resolvê-lo.
Arte & Política: A literatura serve pra quê?
Tornar o vazio e a falta de sentido da vida – o que, ao menos mediatamente, pode-se resumir às relações interpessoais – mais suportáveis. Ou – supletivamente – permitindo-me um pouco de sarcasmo: para um tanto de gente infeliz bater no peito e vociferar “eu sou um escritor, vocês não vêem?, eu sou um escritor”.
Arte & Política: Como descreveria Porto Alegre e seus habitantes?
Um lugar provinciano, elitista e racista, com gente talentosa e neurótica saindo pelo ladrão.
Arte & Política: Que autores brasileiros contemporâneos chamaram mais sua atenção nos últimos tempos?
Começo por dois jovens (acima da média): João Paulo Cuenca e Daniel Galera. Dos mais velhos, seja pela verve ou pelo estilo, citaria João Gilberto Noll, Marçal Aquino e o Nelson de Oliveira. Na poesia, tem o Fabrício Carpinejar, singular em todos os aspectos. Há também os que me influenciaram: Luiz Ruffato, Daniel Pellizzari (este pela postura admirável que assumiu diante da literatura) e o Joca Reiners Terron. Correndo por fora, estão o Marcelo Benvenutti, a Cecília Giannetti, o Cardoso e a Mara Coradello.
Arte & Política: Considerações finais?
Muita gente me escreve perguntando como eu fiz para assinar contrato com duas das quatro editoras mais importantes do Brasil – sinto, nesses assaltos, nessa ansiedade, que os interlocutores estão mais interessados em publicar (seja lá o que for) do que realmente escrever. Esse é o maior erro que se pode cometer (até por que se a intenção é se expor – e isso, sem dúvida, é fundamental – basta iniciar um blog e veicular os textos por lá).
Não há truque: o negócio é escrever do jeito que você acha que vale a pena e, dessa obstinação, retirar algum prazer, porque – mesmo quando conseguir o almejado reconhecimento nacional – logo perceberá que todo o resto (vaidades, glamour etc) é bobagem. Isso eu posso garantir.
Assassinato na Riachuelo 217
Odiava isso, desde o início. Mas antes de cobrir a seção de Cidade de um jornal como aquele, eu tinha uma visão totalmente romântica sobre reportagem policial. Sonhava com crimes cinematográficos, cometidos por assassinos célebres, as pessoas comprando jornais em todo país para ler as últimas notícias sobre os casos que abalaram a sociedade.
Acho que era porque sempre nutri o desejo de ser detetive, investigador, qualquer coisa assim, mas não tinha o perfil psicológico afirmativo, firme, estruturado que se exigia dos homens da lei.
Claro que me enganei redondamente, sendo que meu caso é mais grave pelo fato do jornal onde trabalho possuir uma linha editorial voltada para o sensacionalismo escatológico. Somos orientados, para não dizer coagidos, a bater as fotos mais infames...
Não há câmera fotográfica, contudo, por mais moderna e possante que seja, que consiga captar o horror da morte de maneira tão profunda, tão intensa, como a íris humana, que conta com o auxílio do olfato - o aroma de carnes putrefatas é coisa que não atinge leitores, apesar da marca indelével que deixa no espírito do observador. Isso sem falar das paisagens adjacentes, em geral decoradas com toda espécie de lixo, esgoto, ratos e coisas nojentas e sujas.
Existe uma diferença significativa entre folhear um jornal vagabundo bebericando uma cerveja depois do almoço, como quem se diverte vendo um filme de ação, e rodar oitenta quilômetros do centro até algum extremo da periferia, axilas úmidas de suor, atravessando lixões, favelas, valas podres, para fotografar e descrever a morte de um jovem de vinte cinco anos, o rosto destruído por uma bala de fuzil AR 15, larvinhas brancas se mexendo pelas feridas múltiplas do corpo moreno...
A única coisa boa, no meu caso, é que finalmente havia encontrado um bom motivo para me tornar um inveterado, incorrigível e orgulhoso alcóolatra. Nos últimos tempos, começava com uma cervejinha no café da manhã, que tomava por volta das dez horas num botequim perto de casa, junto com um ou dois pastéis de queijo. Era o melhor momento do dia, em que a consciência, esvaziada pela bebedeira e pela noite de sono, permitia-me alguns minutos de poesia. Os raios de sol, filtrando-se pelos galhos de uma velha amendoeira da calçada, riscavam o chão do bar e faziam o copo de cerveja resplandecer com um luz especial, alegre e libertadora.
Na hora do almoço, às três da tarde, mandava ver mais algumas cervejas para abrir o apetite, no mesmo bar onde às vezes íamos ao final do dia, enquanto esperávamos algum marido ciumento esfaquear a mulher, ou um desempregado estuprar a enteada, matá-la e enterrá-la no quintal de casa.
Ao final do expediente, lá pelas onze ou meia-noite, saíamos pela Lapa, eu e mais uns pinguços do jornal, bebendo todas e cheirando umas carreiras. Também eram momentos felizes, em que ríamos, enlouquecidos, de tudo, de todos, do mundo inteiro.
Voltava para casa guiado apenas pelo instinto animal, já que nunca me lembrava como conseguira fazê-lo. Certa vez acordei fedendo a urina e vômito, ao lado de dois mendigos, perto do Passeio Público, o que me levou a frequentar reuniões do AA por dois meses.
Aquele serviço estava me fazendo mal, me afundando cada vez mais. O editor, porém, gostava do meu trabalho e me dava bônus e folgas sempre que pressentia que eu estava a ponto de abandonar o barco. Assim eu ia levando.
Apesar da maioria dos crimes mais horríveis acontecerem na Baixada Fluminense, as partes mais nobres da cidade também ofereciam palco para espetáculos macabros. Aliás, foi no centro da cidade, ironicamente na mesma rua onde eu morava, que registrei a cena mais terrível da minha carreira como repórter policial do Jornal O Povo.
Estávamos sentados no bar do Paulinho, o mais próximo da redação. Eu descrevia, a duas estagiárias de jornalismo, como funcionava o esquema das máfias da Baixada, geralmente controladas por oficiais graduados da polícia militar ou figurões da política local. Uma das mais poderosas era a Máfia do Capote, que atuava nos complexos da Maré e do Alemão, e que era chefiada, dizia-se, por um major da Polícia.
Era uma máfia extremamente violenta, que tinha convênio com traficantes, que pagavam tributos. Policiais fora do esquema não podiam extorquir os bandidos, que já pagavam uma bolada à Máfia. De certa forma, era um sistema que organizava e disciplinava o mercado de propinas do Rio de Janeiro.
As garotas estavam fascinadas com o mundo obscuro do crime organizado. Uma delas, Regina, era de São José, cidadezinha depois de Nova Friburgo, no norte fluminense. A outra, Tatiana, era uma "patricinha" da zona sul. Meu sonho era levar as duas pra cama, de preferência ao mesmo tempo, e nada como uma boas histórias de terror para excitar uma mulher... ou duas.
Pois então, estava eu no bar, conversando com as duas, quando entra Josias, o fotógrafo, esbaforido, como todo gordo quando fica agitado.
"Tem um crime na Riachuelo, Zé. Parece que é coisa forte. O Antunes mandou a gente ir lá imediatamente. Vai ser capa".
Despedi-me das meninas com ar de grande soldado diante de perigosa batalha. Elas me olhavam embevecidas. Empertiguei-me, embrigado pelo olhar admirado das moças e caminhei em direção ao carro. Sentei-me ao volante, Josias instalou-se no carona, com a usual dificuldade de seus cento e vinte quilos, e seguimos até o endereço indicado.
Estávamos no inverno e uma frente fria acabara de chegar à cidade, vinda do Sul. Havia nas ruas um ar londrino, lúgubre e triste. Em dez minutos, chegamos a prédio número 217. Meia dúzia de moradores fofocavam sobre o crime na portaria. Era um prédio sóbrio, simples, construído aparentemente nos anos 60, onze andares, atualmente ocupado por famílias de classe média baixa.
Conversamos rapidamente com o zelador e subimos pelo elevador até o sétimo andar. O elevador, com as tradicionais portas pantográficas, estava todo pichado com frases estranhas. Uma delas ficou gravada em minha mente:
"Esqueçam o que viu!"
Atravessando o corredor, eu sentia a desagradável sensação de estar sendo observado através de todos os olhos mágicos das portas fechadas. O apartamento, número 710, estava com a porta somente encostada. Toquei a campainha, ouvi alguém resmungar lá dentro, entrei.
Eu conhecia o investigador Carlos Mesa, da Polícia Civil, de longa data. Observei-o primeiramente pelo espelho da sala. Ele era alto, forte, com mandíbulas quadradas e um grande nariz perfeitamente aquilino, semelhando um detetive de estórias em quadrinhos, e não pude evitar um certo sentimento de inferioridade ao ver-me também ao espelho, baixo, muito magro, olhos esbugalhados e um pequeno e horrível nariz de batata.
"Oi Zé", ele cumprimentou-me, altivo, com uma forte voz de barítono que me fez, inconscientemente, engrossar também a voz, ao respondê-lo.
"E aí, Mesa, tudo certo? Que aconteceu?", perguntei, passeando os olhos pelo apartamento de dois cômodos, tipo kitnet, a cozinha americana dentro da sala, apenas uma pia e um espaço para o fogãozinho de duas bocas. Na parede, uma cortiça com fotos de grupos de amigos em lugares turísticos.
"Cara, nunca vi nada parecido", disse Mesa, com um brilho sinistro nos olhos. Aquilo me assustou. Mesa estava há mais de dez anos no setor de crimes hediondos e tinha visto de tudo: chacinas, mutilações, gente queimada, estripada, enfim, tudo. Ele baixou a vista, como que vergado sob o peso de imagens fortes demais, e apontou para o banheiro.
"Não toque em nada, por favor, os peritos ainda não chegaram", acrescentou, com voz fraca.
Aproximei-me da porta do banheiro sentindo a respiração rápida de Josias em meu cangote. Abri lentamente a porta e espiei para dentro.
Era um banheiro pequeno, aproximadamente dois metros quadrados, com um vaso, uma pia e uma banheira. O espaço livre no centro era apenas o suficiente para uma pessoa ficar de pé, parada. Havia ainda uma máquina de lavar entre o vaso e a banheira, de modo que a pessoa, para sentar no vaso, precisava pôr uma das pernas na banheira.
O tamanho do espaço, porém, não era proporcional ao tamanho do horror. Poucas vezes na história dos crimes urbanos, um espaço tão exíguo comportou, em quantidade e intensidade, um volume tão grande de crueldade e morte.
Dentro da banheira, empilhados, estavam os corpos de duas mulheres jovens. Sentado no vaso, a cabeça inclinada para trás, encostada à parede, pernas e mãos amarradas, boca amordaçada, um homem de cerca de cinquenta anos, olhos muito abertos e expressão de pavor congelada no rosto.
A presença do horror não estava somente nos sinais de tortura nos corpos e na morte. Alguma coisa dentro daquele banheiro era totalmente incompreensível, absurda. Mais que diabólica: era um desafio moral, um chamado de guerra contra os poderes de Deus. Ou pelo menos esses foram os primeiros pensamentos que me ocorreram naqueles instantes horríveis.
Fechei a porta do banheiro e fui conversar com Mesa, que fumava um cigarro na janela, olhando para o vale semeado de edifícios, morros e favelas. Dois PMs riam junto à porta, falando qualquer coisa sobre futebol, mas o riso deles era meio nervoso.
"Que cena horrível, Mesa! Que aconteceu aqui?", perguntei.
Acho que era porque sempre nutri o desejo de ser detetive, investigador, qualquer coisa assim, mas não tinha o perfil psicológico afirmativo, firme, estruturado que se exigia dos homens da lei.
Claro que me enganei redondamente, sendo que meu caso é mais grave pelo fato do jornal onde trabalho possuir uma linha editorial voltada para o sensacionalismo escatológico. Somos orientados, para não dizer coagidos, a bater as fotos mais infames...
Não há câmera fotográfica, contudo, por mais moderna e possante que seja, que consiga captar o horror da morte de maneira tão profunda, tão intensa, como a íris humana, que conta com o auxílio do olfato - o aroma de carnes putrefatas é coisa que não atinge leitores, apesar da marca indelével que deixa no espírito do observador. Isso sem falar das paisagens adjacentes, em geral decoradas com toda espécie de lixo, esgoto, ratos e coisas nojentas e sujas.
Existe uma diferença significativa entre folhear um jornal vagabundo bebericando uma cerveja depois do almoço, como quem se diverte vendo um filme de ação, e rodar oitenta quilômetros do centro até algum extremo da periferia, axilas úmidas de suor, atravessando lixões, favelas, valas podres, para fotografar e descrever a morte de um jovem de vinte cinco anos, o rosto destruído por uma bala de fuzil AR 15, larvinhas brancas se mexendo pelas feridas múltiplas do corpo moreno...
A única coisa boa, no meu caso, é que finalmente havia encontrado um bom motivo para me tornar um inveterado, incorrigível e orgulhoso alcóolatra. Nos últimos tempos, começava com uma cervejinha no café da manhã, que tomava por volta das dez horas num botequim perto de casa, junto com um ou dois pastéis de queijo. Era o melhor momento do dia, em que a consciência, esvaziada pela bebedeira e pela noite de sono, permitia-me alguns minutos de poesia. Os raios de sol, filtrando-se pelos galhos de uma velha amendoeira da calçada, riscavam o chão do bar e faziam o copo de cerveja resplandecer com um luz especial, alegre e libertadora.
Na hora do almoço, às três da tarde, mandava ver mais algumas cervejas para abrir o apetite, no mesmo bar onde às vezes íamos ao final do dia, enquanto esperávamos algum marido ciumento esfaquear a mulher, ou um desempregado estuprar a enteada, matá-la e enterrá-la no quintal de casa.
Ao final do expediente, lá pelas onze ou meia-noite, saíamos pela Lapa, eu e mais uns pinguços do jornal, bebendo todas e cheirando umas carreiras. Também eram momentos felizes, em que ríamos, enlouquecidos, de tudo, de todos, do mundo inteiro.
Voltava para casa guiado apenas pelo instinto animal, já que nunca me lembrava como conseguira fazê-lo. Certa vez acordei fedendo a urina e vômito, ao lado de dois mendigos, perto do Passeio Público, o que me levou a frequentar reuniões do AA por dois meses.
Aquele serviço estava me fazendo mal, me afundando cada vez mais. O editor, porém, gostava do meu trabalho e me dava bônus e folgas sempre que pressentia que eu estava a ponto de abandonar o barco. Assim eu ia levando.
Apesar da maioria dos crimes mais horríveis acontecerem na Baixada Fluminense, as partes mais nobres da cidade também ofereciam palco para espetáculos macabros. Aliás, foi no centro da cidade, ironicamente na mesma rua onde eu morava, que registrei a cena mais terrível da minha carreira como repórter policial do Jornal O Povo.
Estávamos sentados no bar do Paulinho, o mais próximo da redação. Eu descrevia, a duas estagiárias de jornalismo, como funcionava o esquema das máfias da Baixada, geralmente controladas por oficiais graduados da polícia militar ou figurões da política local. Uma das mais poderosas era a Máfia do Capote, que atuava nos complexos da Maré e do Alemão, e que era chefiada, dizia-se, por um major da Polícia.
Era uma máfia extremamente violenta, que tinha convênio com traficantes, que pagavam tributos. Policiais fora do esquema não podiam extorquir os bandidos, que já pagavam uma bolada à Máfia. De certa forma, era um sistema que organizava e disciplinava o mercado de propinas do Rio de Janeiro.
As garotas estavam fascinadas com o mundo obscuro do crime organizado. Uma delas, Regina, era de São José, cidadezinha depois de Nova Friburgo, no norte fluminense. A outra, Tatiana, era uma "patricinha" da zona sul. Meu sonho era levar as duas pra cama, de preferência ao mesmo tempo, e nada como uma boas histórias de terror para excitar uma mulher... ou duas.
Pois então, estava eu no bar, conversando com as duas, quando entra Josias, o fotógrafo, esbaforido, como todo gordo quando fica agitado.
"Tem um crime na Riachuelo, Zé. Parece que é coisa forte. O Antunes mandou a gente ir lá imediatamente. Vai ser capa".
Despedi-me das meninas com ar de grande soldado diante de perigosa batalha. Elas me olhavam embevecidas. Empertiguei-me, embrigado pelo olhar admirado das moças e caminhei em direção ao carro. Sentei-me ao volante, Josias instalou-se no carona, com a usual dificuldade de seus cento e vinte quilos, e seguimos até o endereço indicado.
Estávamos no inverno e uma frente fria acabara de chegar à cidade, vinda do Sul. Havia nas ruas um ar londrino, lúgubre e triste. Em dez minutos, chegamos a prédio número 217. Meia dúzia de moradores fofocavam sobre o crime na portaria. Era um prédio sóbrio, simples, construído aparentemente nos anos 60, onze andares, atualmente ocupado por famílias de classe média baixa.
Conversamos rapidamente com o zelador e subimos pelo elevador até o sétimo andar. O elevador, com as tradicionais portas pantográficas, estava todo pichado com frases estranhas. Uma delas ficou gravada em minha mente:
"Esqueçam o que viu!"
Atravessando o corredor, eu sentia a desagradável sensação de estar sendo observado através de todos os olhos mágicos das portas fechadas. O apartamento, número 710, estava com a porta somente encostada. Toquei a campainha, ouvi alguém resmungar lá dentro, entrei.
Eu conhecia o investigador Carlos Mesa, da Polícia Civil, de longa data. Observei-o primeiramente pelo espelho da sala. Ele era alto, forte, com mandíbulas quadradas e um grande nariz perfeitamente aquilino, semelhando um detetive de estórias em quadrinhos, e não pude evitar um certo sentimento de inferioridade ao ver-me também ao espelho, baixo, muito magro, olhos esbugalhados e um pequeno e horrível nariz de batata.
"Oi Zé", ele cumprimentou-me, altivo, com uma forte voz de barítono que me fez, inconscientemente, engrossar também a voz, ao respondê-lo.
"E aí, Mesa, tudo certo? Que aconteceu?", perguntei, passeando os olhos pelo apartamento de dois cômodos, tipo kitnet, a cozinha americana dentro da sala, apenas uma pia e um espaço para o fogãozinho de duas bocas. Na parede, uma cortiça com fotos de grupos de amigos em lugares turísticos.
"Cara, nunca vi nada parecido", disse Mesa, com um brilho sinistro nos olhos. Aquilo me assustou. Mesa estava há mais de dez anos no setor de crimes hediondos e tinha visto de tudo: chacinas, mutilações, gente queimada, estripada, enfim, tudo. Ele baixou a vista, como que vergado sob o peso de imagens fortes demais, e apontou para o banheiro.
"Não toque em nada, por favor, os peritos ainda não chegaram", acrescentou, com voz fraca.
Aproximei-me da porta do banheiro sentindo a respiração rápida de Josias em meu cangote. Abri lentamente a porta e espiei para dentro.
Era um banheiro pequeno, aproximadamente dois metros quadrados, com um vaso, uma pia e uma banheira. O espaço livre no centro era apenas o suficiente para uma pessoa ficar de pé, parada. Havia ainda uma máquina de lavar entre o vaso e a banheira, de modo que a pessoa, para sentar no vaso, precisava pôr uma das pernas na banheira.
O tamanho do espaço, porém, não era proporcional ao tamanho do horror. Poucas vezes na história dos crimes urbanos, um espaço tão exíguo comportou, em quantidade e intensidade, um volume tão grande de crueldade e morte.
Dentro da banheira, empilhados, estavam os corpos de duas mulheres jovens. Sentado no vaso, a cabeça inclinada para trás, encostada à parede, pernas e mãos amarradas, boca amordaçada, um homem de cerca de cinquenta anos, olhos muito abertos e expressão de pavor congelada no rosto.
A presença do horror não estava somente nos sinais de tortura nos corpos e na morte. Alguma coisa dentro daquele banheiro era totalmente incompreensível, absurda. Mais que diabólica: era um desafio moral, um chamado de guerra contra os poderes de Deus. Ou pelo menos esses foram os primeiros pensamentos que me ocorreram naqueles instantes horríveis.
Fechei a porta do banheiro e fui conversar com Mesa, que fumava um cigarro na janela, olhando para o vale semeado de edifícios, morros e favelas. Dois PMs riam junto à porta, falando qualquer coisa sobre futebol, mas o riso deles era meio nervoso.
"Que cena horrível, Mesa! Que aconteceu aqui?", perguntei.
Entrevista com Marcelo Mirisola (para o extinto Arte & Política)
Mirisola nasceu em 1966, em São Paulo. Publicou romances (Azul do Filho Morto, Bangalô e Joana a contra-gosto – este último concorrendo ao Jabuti 2006), livros de contos (Fátima fez os pés para mostrar na choperia, Herói Devolvido) e crônicas (Notas de Arrebentação). E muitos outros livros.
A&P: Marcelo, em que momento da sua vida - se é que houve esse momento - você sentiu que a sua vocação era mesmo a literatura?
MM: Aos três anos de idade descobri que o ursinho da lata de talco Pom Pom me enganava, que era um canalha.Escrevi sobre esse tema no "Notas da Arrebentação". Dá uma espiada num monólogo cujo título é "Luto".
A&P: Você me contou, um dia, que o Azul do Filho Morto foi o romance em que você conseguiu atingir um grau de liberdade muito importante pra você. Como foi isso?
MM: Eu lhe disse que me libertei ou acertei as contas com minha família e a partir de o "Azul..." as coisas,digo sintaticamente, ficaram mais fáceis. Mas ainda tenho um montão de nós (religiosos, políticos, existenciais, etc) para desatar. Não sei se vou ter fôlego e paciência para tanto.
A&P: Se os EUA declarassem guerra ao Brasil e iniciassem um ataque nuclear ao nosso país e nós todos fôssemos obrigados a nos esconder em abrigos subterrêneos, quais livros você levaria para lá?
MM: Livro nenhum, Miguel. Tô com o saco cheio de livros, escritores, vaidades e futilidades do gênero.Talvez levasse umas bergamotas, caquis e uma foto em que estou em cima de uma Lhama. Eu tinha uns três anos de idade, tenho saudades do que eu poderia ter sido.
A&P: O cinema, música, a tv, exercem influência significativa na sua inspiração?
MM: Nunca tive inspiração, idéias, esses trecos aí. O que me motivava (antes de o meu saco encher) era o sentimento de revanche, vingança e alheamento.
A&P: Quais são as coisas do Brasil que você mais gosta? E do que você não gosta?
MM: Tenho alma portenha,Miguel. Nunca tive afinidade com as coisas do Brasil ... isso não quer dizer que eu desgoste do país. Gosto de churros, por exemplo.
A&P: Como você caracterizaria a cidade de São Paulo, numa palavra?
MM: Caipira.
A&P: E o Rio, qual a impressão que o Rio passa pra você?
MM: Uma cidade que sumiu para mim.
A&P: Quais seus projetos literários para este ano?
MM: Quero voltar às crônicas, Miguel. E ganhar uns trocos com uns prêmios literários.
A&P: Você lê alguma coisa de literatura pela internet? Gosta de ler blogs, por exemplo?
MM: O blogue do Marião, principalmente.
A&P: Quais os aspectos da literatura brasileira que decididamente não lhe agradam?
MM: Os poetas em primeiro lugar. Depois os escritores de maneira geral.
A&P: Qual a função (ou disfunção, se preferir) social da literatura, na sua opinião?
MM: Como diz o Evandro Ferreira, a função da literatura é fechar portas.
A&P: Da turma nova das letras, tem algum que destacaria?
MM: Lísias, Montenegro, Juliano Pessanha... e o Nilo Oliveira que - imagino - deve estar aprontando algo nesse momento.
A&P: Marcelo, em que momento da sua vida - se é que houve esse momento - você sentiu que a sua vocação era mesmo a literatura?
MM: Aos três anos de idade descobri que o ursinho da lata de talco Pom Pom me enganava, que era um canalha.Escrevi sobre esse tema no "Notas da Arrebentação". Dá uma espiada num monólogo cujo título é "Luto".
A&P: Você me contou, um dia, que o Azul do Filho Morto foi o romance em que você conseguiu atingir um grau de liberdade muito importante pra você. Como foi isso?
MM: Eu lhe disse que me libertei ou acertei as contas com minha família e a partir de o "Azul..." as coisas,digo sintaticamente, ficaram mais fáceis. Mas ainda tenho um montão de nós (religiosos, políticos, existenciais, etc) para desatar. Não sei se vou ter fôlego e paciência para tanto.
A&P: Se os EUA declarassem guerra ao Brasil e iniciassem um ataque nuclear ao nosso país e nós todos fôssemos obrigados a nos esconder em abrigos subterrêneos, quais livros você levaria para lá?
MM: Livro nenhum, Miguel. Tô com o saco cheio de livros, escritores, vaidades e futilidades do gênero.Talvez levasse umas bergamotas, caquis e uma foto em que estou em cima de uma Lhama. Eu tinha uns três anos de idade, tenho saudades do que eu poderia ter sido.
A&P: O cinema, música, a tv, exercem influência significativa na sua inspiração?
MM: Nunca tive inspiração, idéias, esses trecos aí. O que me motivava (antes de o meu saco encher) era o sentimento de revanche, vingança e alheamento.
A&P: Quais são as coisas do Brasil que você mais gosta? E do que você não gosta?
MM: Tenho alma portenha,Miguel. Nunca tive afinidade com as coisas do Brasil ... isso não quer dizer que eu desgoste do país. Gosto de churros, por exemplo.
A&P: Como você caracterizaria a cidade de São Paulo, numa palavra?
MM: Caipira.
A&P: E o Rio, qual a impressão que o Rio passa pra você?
MM: Uma cidade que sumiu para mim.
A&P: Quais seus projetos literários para este ano?
MM: Quero voltar às crônicas, Miguel. E ganhar uns trocos com uns prêmios literários.
A&P: Você lê alguma coisa de literatura pela internet? Gosta de ler blogs, por exemplo?
MM: O blogue do Marião, principalmente.
A&P: Quais os aspectos da literatura brasileira que decididamente não lhe agradam?
MM: Os poetas em primeiro lugar. Depois os escritores de maneira geral.
A&P: Qual a função (ou disfunção, se preferir) social da literatura, na sua opinião?
MM: Como diz o Evandro Ferreira, a função da literatura é fechar portas.
A&P: Da turma nova das letras, tem algum que destacaria?
MM: Lísias, Montenegro, Juliano Pessanha... e o Nilo Oliveira que - imagino - deve estar aprontando algo nesse momento.
Ta com preguiça?
Sobre o silêncio
Meus queridos amigos, peço desculpas pelo silêncio prolongado deste blog. Conforme já adiantei em posts anteriores, estou em viagem, numa longa viagem, externa e interna, com os pensamentos tão embaralhados que tem sido realmente difícil escrever qualquer coisa.
Além disso, nesta minha nova vida nômade, usar a internet ficou, naturalmente, um pouco mais caro e mais complicado. Estou me esforçando para romper este gelo, todavia.
Para isso, começo simplificando as coisas e unificando meus escritos num só blog, o Óleo do Diabo, espaço já conhecido dos meus amigos mais antigos, e para o qual convido todos vocês.
oleododiabo.blogspot.com
Além disso, nesta minha nova vida nômade, usar a internet ficou, naturalmente, um pouco mais caro e mais complicado. Estou me esforçando para romper este gelo, todavia.
Para isso, começo simplificando as coisas e unificando meus escritos num só blog, o Óleo do Diabo, espaço já conhecido dos meus amigos mais antigos, e para o qual convido todos vocês.
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Show do Mundo Livre na Ilha da Reunião

Confesso que, até pouco tempo, nunca tinha ouvido falar dessa ilha, um pedacinho da Europa incrustrado no Oceano Indico. Agora ca estou, digitando em misteriosos teclados franceses e assistindo shows diarios de samba, capoeira e Mundo Livre SA.
Oui, Mundo Livre. Ontem, 2 de novembro, a banda pernambucana fez um showzaço para uma plateia atonita, que do Brasil conhece apenas samba de carnaval, mulatas bundudas, futebol e Gilberto Gil, que tocou na Ilha em julho deste ano.
Ao final do show, subiram ao palco duas deslumbrantes e legitimas mulatas, vestidas à carater: sumarios biquinis cintilantes, paetes imodestos e adereços dourados.
Breve mais informações sobre esta exotica experiencia.
Novo desenho de Emerson Wiscow

Singela homenagem a John Fante, feita para a editora Spectro.
*
Terei muitas dificuldades para atualizar este blog nas próximas semanas, até o final de novembro. Estou agitando e vivendo business trips no período. Depois conto mais. Abraço em todos.
*
Com todo respeito aos amigos tucanos, continuo minha cruzada anti-Alckmin. Se não quiserem Lula, tudo bem. Votem nulo. O bom, velho e consciente voto nulo. Mas Alckmin não! Enquanto a corrupção do governo Lula se mede em milhões, a do PSDB se mede em TRILHÕES! E eles não só desconhecem (o famoso não sei de nada), como se orgulham do que fazem! E com beneplácito dos meios de comunicação, que querem voltar a mamar nas tetas adiposas dos financiamentos públicos!
*
Diálogo de mestres
ele disse: “Eu estava trabalhando em Hollywood
na mesma época em que
Faulkner também estava lá
Faulkner também estava lá
e ele era o pior de todos
estava sempre bêbado demais para ficar de pé
estava sempre bêbado demais para ficar de pé
e ao final da tarde
eu tinha que ajudar a colocá-lo num táxi
dia após dia após dia”
“mas quando ele deixou Hollywood,
eu tinha que ajudar a colocá-lo num táxi
dia após dia após dia”
“mas quando ele deixou Hollywood,
eu fiquei
e não bebi como talvez devesse ter feito
para ter o culhão de segui-lo
e não bebi como talvez devesse ter feito
para ter o culhão de segui-lo
e dar um basta naquela merda”
eu disse a ele: “você escreve
eu disse a ele: “você escreve
tão bem quanto Faulkner”
“você acha mesmo?”,
“você acha mesmo?”,
ele perguntou, de sua cama
no hospital, sorrindo
no hospital, sorrindo
Charles Bukowski
Tradução: Miguel do Rosário
Ler no original.
Ela entendia das coisas
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.
*
E bebendo, Vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.
*
Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.
Hilda Hilst
(Alcoólicas)
Resgatando um comentário
Bem, tô publicando só para divulgar o comentário abaixo do escritor baiano Antônio Diamantino, apagado (o comentário, não ele) sem querer, junto com um post meu que era só um aviso sobre problemas técnicos, e por isso deletado. Valeu pela idéia, Diamantino. Concordo contigo que é preciso tomar cuidado com os teóricos. Eles esterilizam a poesia. Gostei da maneira apaixonada como Bloom escreve, mas não concordo com ele em várias coisas. Sobretudo, estou atento ao caráter místico, psicológico e dionisíaco da poesia. Fique tranquilo, não serei iludido tão facilmente. Grande abraço.
Comentário
Cuidado com o papo de teóricos como Bloom. Essas pessoas são como vampiros capazes de extirpar toda a vida do texto literário. São esses seres que transformariam os poemas repletos de alma de Miguel do Rosário em resenhas esdruxulas seguindo os padrões técnicos e científicos de entendimento na esfera academicista. Eles matam o poema em busca de um título.
--
Posted by Antonio Diamantino Neto to Hell Bar at 10/17/2006 12:17:04 PM
Comentário
Cuidado com o papo de teóricos como Bloom. Essas pessoas são como vampiros capazes de extirpar toda a vida do texto literário. São esses seres que transformariam os poemas repletos de alma de Miguel do Rosário em resenhas esdruxulas seguindo os padrões técnicos e científicos de entendimento na esfera academicista. Eles matam o poema em busca de um título.
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Posted by Antonio Diamantino Neto to Hell Bar at 10/17/2006 12:17:04 PM
Bagunça de luxo em Sampa

E aconteceu esta semana uma tremenda pândega literária na indefectível praça Roosevelt. Foi o lançamento de Atire no Dramaturgo, novo livro do brother Mario Bortolotto. Ainda tenho muito a falar sobre o tema. Ele está tentando achar um local de lançamento no Rio.
Harold Bloom com vista para o morro da Mangueira
Ontem passei algumas horas na varanda da biblioteca da Uerj, local que frequento há muitos anos. A vista dá para o morro da Mangueira, imponente e cheio de personalidade, o metrô, o trem, ao fundo a baía de guanabara e a ponte rio-niterói.
Fiquei lendo O Cânone Ocidental, de Harold Bloom, famoso crítico literário norte-americano. Bloom defende uma visão eminentemente estética da arte, ou seja, que contemple a arte sem falsos moralismos ou viciados sociologismos.
Interessante notar que Bloom, a despeito de sua erudição, procura dismistificar qualquer suposta superioridade do homen "intelectual" frente aos demais cidadãos. O estudo dos clássicos, ou cânone, não nos tornaria pessoas melhores. Pelo contrário, se baseássemos nossa moral apenas no estudo dos clássicos nos tornaríamos monstros de egoísmo, diz ele.
A afirmação de Bloom me fez lembrar de inúmeros "intelectuais" brasileiros metidos a besta e a publicistas políticos, que se gabam tanto de seus conhecimentos literários, apesar do péssimo uso que fazem deles. A ideologia é burra, é um dos lemas da nova direita, omitindo de si mesma que a máxima vale tanto para a esquerda quanto para a direita.
Bloom não se ocupa de que forma os homens podem se tornar melhores. Seu campo é a estética, e para operar livremente ele afasta qualquer inferência moral ou política da análise literária.
Antônio Cândido, o famoso crítico brasileiro, não é tão peremptório quanto Bloom. Cândido tentará realizar uma síntese dialética entre a análise literária puramente estética, defendida por Bloom e a sociológica, defendida por outros autores.
Confesso que me inclino mais para a posição de Bloom, embora reconheça a coerência lógica do entendimento de Cândido, cuja estrutura teórica, inclusive, me parece melhor indicada para dar conta das transformações inerentes ao uso da internet como veículo de comunicação literária.
A grande novidade da internet, no terreno da literatura, a meu ver, é a interação, que transforma a maneira como lemos e, consequentemente, também irá mudar a forma como escrevemos um texto.
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Frases interessantes pescadas no livro de Bloom:
"Resenhar livros ruins, observou certa vez W.H.Auden, faz mal ao caráter".
"Ler os melhores escritores, digamos, Homero, Dante, Shakespeare, Tosltói, não nos tornará melhores cidadãos".
"A arte é inteiramente inútil, segundo Oscar Wilde, que geralmente tinha razão a respeito de tudo".
"Toda má poesia é sincera".
"O Cânone Ocidental, seja lá o que for, não é um programa de salvação social".
"A gente só entra no cânone pela força poética, que se constitui basicamente de um amálgama : domínio da linguagem figurativa, originalidade, poder cognitivo, conhecimento, dicção exuberante".
"Se lermos o Cânone Ocidental para formar nossos valores morais, sociais, políticos ou pessoais, creio firmemente que nos tornaremos monstros de egoísmo e exploração".
"Ler a serviço de qualquer ideologia é, em minha opinião, não ler de modo algum". (essa vale para certo jornalista político que acha que Dante e Robert Musil escreviam para defender o PSDB)
"Ler a fundo o cânone não nos fará uma pessoa melhor ou pior, um cidadão mais útil ou nocivo".
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O romance Assunção de Salviano, de Antônio Callado, é uma sucessão de clichês. A escrita de Callado é elegante, como sempre, mas a história em si é fraca. Além disso, há um artificialismo visível no texto, como se pudéssemos enxergar suas engrenagens íntimas. O romance conta as aventuras de uma célula comunista em Juazeiro, Bahia, que trabalha para produzir um foco revolucionário no Nordeste. Um dos "quadros" simula uma conversão religiosa e torna-se um "profeta", uma espécie de Antonio Conselheiro, pregando a fé e a revolução social. Ocorre que Manuel Salviano acaba assumindo de verdade o papel que lhe cabia apenas representar e passa a acreditar em Deus, pregando cada vez menos a revolução e mais a salvação da alma. As multidões passam a venerá-lo e até milagres acontecem. O enredo em si não é mal, apesar de ser um tanto forçado (o autor queria incluir luta de classes, comunismo, revolução, na história, certamente por serem, na época, temas polêmicos). Os defeitos são muitos, mas pode-se resumi-los por: diálogos banais, dicção pobre, trama medíocre e inverossímil e personagens simplórios, maniqueístas, previsíveis.
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