Uma aparição inusitada

Aconteceu uma coisa tão incrível comigo esta noite que sinto necessidade de compartilhar com os milhares de leitores deste blog, na esperança de que alguém possa me fornecer explicações razoáveis sobre o fato, ou trazer-me o alívio de confessar que também já passou por experiência semelhante. É notório que as pessoas, quando vivenciam uma experiência demasiadamente insólita, ficam constrangidas de relatar o que viveram por temerem a fama de falastronas ou pior, doidas.

Sem mais delongas, vamos ao que interessa. Deitei-me na cama para dormir ontem mais cedo que o habitual, meita-noite. Havia terminado meu trabalho no meio da tarde e gastara o resto do dia num barzinho das redondezas, lendo jornais e o livro A Outra Volta do Parafuso, de Henry James, adquirido por mim, no mesmo dia, pela inacreditável bagatela de 1 real, num sebo de rua ali perto.

À noitinha, vim pra casa, tomei um banho, assisti os jornais da tv, naveguei um pouco pela internet e logo comecei a sentir muito sono, efeito natural das cervejas ingeridas à tarde.

A Priscila estava fora, com um grupo de turistas franceses. Chegou por volta da meia noite e já me encontrou dormindo. Ela me contou que ficou viajando na internet algumas horas e depois foi se deitar a meu lado.

De madrugada, eu acordei com o ruído de teclado, quer dizer, de alguém digitando num teclado, muito rápido. Pelo silêncio absoluto que vinha da rua, constatei que devia ser muito tarde, quase de manhã, e estranhei o fato da Priscila ainda estar acordada. Ia voltar a dormir quando, horrorizado, verifiquei que a Pri estava ali, na cama, dormindo profundamente.

Então, quem estava ao teclado? Eu moro num conjugado, ou kitchennette, dividido ao meio por uma cortina vermelha. Na salinha de entrada, temos uma cozinha americana, a geladeira e a mesa do computador. Do outro lado da cortina, o sofá cama, onde dormimos, a tv e o armário de roupas.

Fiquei paralisado por muitos segundos, procurando em vão acordar do que eu achava fosse um pesadelo. O ruído prosseguia. Às vezes paráva, como se a pessoa tivesse usando apenas o mouse. Dava pra ouvir os clicks.

A essa altura eu sentia um enorme frio na barriga. Passando mal de medo. Mas aí lembrei que podia ser uma amiga da Pri, que ela trouxera sem me avisar, e que agora estava escrevendo em nosso computador. Aliviado com essa hipótese, única explicação plausível, perguntei:

- Ei, quem está aí?

Minha voz soou estranha, trêmula, nitidamente nervosa, por mais que eu tivesse tentado disfarçar o mal estar. Não houve resposta. O ruído do teclado não foi interrompido. Perguntei de novo, num tom mais calmo, procurando afetar o máximo de tranquilidade:

- Ei, quem tá aí na sala?

Nada. Levantei-me. Não conseguia pensar em nada. Sentia-me fraco. Fui até a sala e deparei com uma figura absolutamente desconhecida. Era um homem da minha altura, um metro e oitenta, nem gordo nem magro, pele morena e cabelos pretos, um verdadeiro mestiço brasileiro, como eu. Aparentava ter uns trinta anos e vestia jeans e uma camisa preta de botão. Não fosse um intruso, pareceria inofensivo.

- Quem é você? - indaguei, indo na direção da cozinha pra pegar uma faca.

Ele me olhou de lado com um sorrisinho irônico, deu uns cliks no mouse e voltou a escrever.

Tonto de confusão e medo, alcancei a pia e peguei a faca, que escondi atrás de mim. Observei sua cintura e mãos, à procura de alguma arma, mas não vi nada. Encorajado por isso, falei mais alto:

- Saia já da minha casa, seu... seu... maluco!

O sorrisinho irônico dele dissipou-se; rodou a cadeira giratória pro meu lado e me encarou. Eu senti um calafrio perpassando todo meu corpo: conhecia aquele cara de algum lugar.

- Te conheço? - perguntei.

Ele me olhou de alto a baixo e falou pela primeira vez:

- Nunca pensei que você fosse assim. Patético.

A voz era grossa, aveludada, um pouco rouca; não sei se foi o tom sarcástico... mas aquelas palavras calaram fundo em mim, irritando-me fortemente. Quem era esse sujeitinho que invadia minha casa para me ofender? Mostrei a faca.

- Guarda essa faca, Miguel. Não sabe que eu sou, cara? Eu sou a tua persona literária. Não acredita? Ué, por tanto tempo você implorou para que eu surgisse... Um dia até chorou... Disse que nunca seria um escritor de verdade senão encontrasse sua persona literária.

Minhas pernas amoleceram. Aquilo só podia ser loucura. Tenho histórico na família. Um tio esquizofrênico. Quando moleque, fui visitá-lo várias vezes no hospício. Sempre temi que acontecesse comigo, mas nunca pensei que a coisa viesse assim, de forma tão direta, tão...

- Sei o que você está pensando. Que está louco. É o que todos pensariam, meu caro, numa situação dessa. Mas não é o caso. Acredite em mim. Você está completamente normal. Eu sou a sua persona literária. E mais, já comecei a escrever o seu romance. Olhe aqui, já temos dez páginas escritas.

Ele apontou para o monitor e, com o mouse, fez rolar as páginas escritas no editor de texto.

- Eu tinha que vir em pessoa, Miguel. Não dava mais para esperar você me "incorporar". Você é muito preguiçoso. Várias vezes, quando eu achava que seria o meu momento, você calçava os chinelos e ia pro botequim, beber cerveja ou coisa que o valha. Quantas vezes! Cansei. Eu tenho que viver porra!

De tão nervoso, eu senti vontade de rir e, de fato, soltei uma risada que mais parecia uma tosse. O frio na barriga tinha aumentado. Eu não sabia o que fazer. Apenas olhava, estupidamente, aquela aparição esdrúxula. Aquele demônio.

- Não fique assim, irmão, tudo vai dar certo. Eu simplesmente vou escrever o seu romance, assim como fizeram as personas literárias de John Fante, de Bukóswski, do Mirisola, depois vou embora. Você terá seu livro. Possivelmente, poderá até ganhar prêmios. Com certeza, seu prestígio social vai aumentar exponencialmente. Agora sim, você poderá conversar de igual para igual com todos os escritores brasileiros com a segurança de quem escreveu uma grande obra literária!

Eu estava meio em transe. Não sei bem porque eu fiz aquilo. Alguma coisa naquela persona me desagradou profundamente. Aproximei-me dela e enfiei-lhe a faca no peito, no lugar que eu supunha ser o coração. Enterrei a faca bem fundo e a deixei lá.

A persona me lançou um olhar de perplexidade. Eu sabia o que ela pensava. Ela não compreendia a razão de um escritor matar a própria persona literária. Eu também não entendia. Só sei que me sentia profundamente aliviado. Livre.

Conforme o sangue vazava de seu corpo, ela ia desaparecendo, ficando cada vez mais transparente, até sumir de vez. Eu me sentei na cadeira e, sem me dar ao trabalho de olhar o que estava escrito na tela, apaguei o texto. Depois apaguei o arquivo, inclusive da lixeira.

Quero que as personas literárias se danem, pensei, antes de voltar a dormir.

5 comentários:

Anônimo disse...

Calma Miguel, na maioria das vezes as coisas são exatamente o que elas parecem ser. Não tem nada escondido detrás das aparências não.

Miguel do Rosário disse...

who's that? the persona again?

Camilla Lopes disse...

Não sei mas sempre tive a impressão de que era você mesmo o seu maior carrasco. A medida que vamos lendo, lendo e lendo, e sendo curiosos, como somos nós, esse grau de exigência aumenta. Mas você é muito perfecionista Miguel... Precisa apertar mais o botão do foda-se, ou você esqueceu das merda´s, as inúmeras merdas que nós lemos por aí? Aquele beabá de analfabeto que dizem ser literatura? Esquece tudo, mata a tua persona literária, ou melhor, faça com que tua persona seja um traveco de copacabana, muito melhor do que os pomposos pé no saco. E esse texto está muito bom.

eduardo disse...

Eu ainda não tenho uma persona literária, que pena!!.
Muito bom texto,
Insólito e bem escrito.

alyda disse...

Bem matada Miguel, aposto que o texto dela, da persona invasora, com seus botões, era medíocre. O seu está ótimo, li com muito prazer. ;)

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