Noite no Mineiro, conversando sobre artes plásticas


Sábado chuvoso no Rio. Juliano Guilherme passou aqui em casa para eu ajudá-lo a fazer seu novo Book de pinturas. Depois, fomos bater um papo no Mineiro, em Santa Teresa. Acima, O Torso, uma de suas telas mais interessantes. A Priscila e uma amiga estão estudando uma possível exposição de Juliano em Paris, em junho do ano que vem, patrocinada por um empresário francês.

O ouro de Moscou

A última diabrite da Veja confirma a imoralidade de parcela da mídia nacional. O afã de derrubar Lula tem levado Veja, Estadão, Primeira Leitura, às raias do absurdo. A reportagem da Veja é baseada no vago depoimento de dois sujeitos, que por sua vez ouviram a história de uma outra testemunha, já falecida. Um dos sujeitos é Rogério Buratti, aquele desafeto do Palocci que não merece a mínima credibilidade; o outro já negou a história. Sem nenhuma prova, da mesma forma que acusou o PT de receber dinheiro das Farcs, a revista afirma categoricamente que houve tal absurda operação. Ô revistinha! O trenzinho da direita, naturalmente, foi todo atrás: as já citadas mídias logo reproduziram a denúncia de Veja, com os devidos acréscimos editoriais.

O lado positivo é que o PT, com uma diretoria novinha em folha, está recuperando sua capacidade de luta, seu espírito de combate, sempre necessário na política. O PCdo B, recém-saído de um Congresso em que confirmou sua diretoria, também está fortalecido. As CPIs não encontraram, até agora, nenhuma prova de "maior corrupção de todos os tempos". Com a queda de Eduardo Azeredo, presidente do PSDB, em função de seu envolvimento com o esquema de Marcos Valério, com participação do mesmo Duda Mendonça, o tucanato entrou em parafuso. Isso sem falar na matéria da Carta Capital desta semana, denunciando a corrupção pefelista na Bahia.

Está cada vez mais explícito que setores reacionários estão patrocinando uma guerra sem lei, escrúpulos ou limites contra o presidente eleito com 53 milhões votos. É o desespero. Mas a história não é burra. A reportagem serviu para a Embaixada de Cuba, negando veementente qualquer interferência no processo eleitoral brasileiro, manifestasse apoio à Lula e repúdio às forças reacionárias que operam ao longo de toda América Latina, visando desestabilizar governos não-alinhados à política direitista de Washington.

Jam Session reúne poetas cariocas



A Rio Jam Session, ocorrida na última quinta-feira, reuniu vários poetas e colaboradores do nosso site Arte & Política, e outros que atuam em outros territórios. Estavam lá os poetas Brasil Barreto, Guilherme Lessa, Jean (versos da meia noite), Planchet, além do artista plástico Juliano Guilherme, autor da pintura acima.

A festa, como sempre, começa a esquentar bem tarde e foi até quase de manhã. Eu tive que me retirar mais cedo, por razões soporíferas e financeiras, mas voltei feliz com a sinuca jogada no primeiro andar da casa e em saber que mais um lugar de resistência cultural ganha vida no Rio de Janeiro.

O Alfândega 7, no endereço do mesmo nome, terá eventos de quarta a sexta. Lembrando: fica quase em frente ao Centro Cultural Banco do Brasil, num prédio de esquina da rua da alfandega com a primeiro de março. Os ingressos estão sempre na faixa dos R$ 5. A Rio Jam Session vai rolar toda quinta-feira.

Jam Session na Alfandega 7

Nesta quinta-feira 27, grande noite de reinauguração da Jam Session, com shows, recitais, exposição de arte, sebo, festa. Tudo por R$ 5,00.

Será a oportunidade de ver o poeta Miguel do Rosário recitando o famoso poema Fantasma da Puta, além de outras produções mais recentes.

Mais informações no site do Arte & Política, que aliás, está com edição nova.

A vida imita Nelson Rodrigues

Saí de casa por volta da meia-noite. Objetivo: comer um contra-filé no Nova Capela. Há alguns anos que não me concedia esse pequeno luxo... Na rua do Riachuelo, vazia e iluminada, um casal chama minha atenção. O homem caminha dois passos à frente, evitando encarar a mulher, que lhe aplica, intermitentemente, enérgicos empurrões no ombro.

- Você bebe e fica assim... ridículo.
- Eu não passei a mão em ninguém não.
- Cala a boca. Eu vi. Quero só ver se eu te botar um chifre. Na tua frente.
- Não fiz nada.
- ME RESPEITA! ME RESPEITA! Não sou nenhuma vagabunda! Se continuar assim, vou ficar com um amigo teu na tua frente. Vou beijar na boca na tua frente.

O homem não consegue caminhar em linha reta. Cambaleia para direita, para esquerda, e não tem coragem de encarar a mulher. Limita-se a dizer:

- Fala baixo. Fala baixo.
- Fala baixo nada! ME RESPEITA! ME RESPEITA! Não sou vagabunda.

A mulher já começa a ficar repetitiva. O homem também.

- Fala baixo.
- Vou botar um chifre em você, na tua frente. Beijar na boca dum amigo seu na tua frente.
- Fala baixo.
- ME RESPEITA, SEU MERDA!

Eu apresso o passo, não por falta de curiosidade, mas por compaixão pelo pobre homem, cuja maior angústia era que o mínimo de pessoas testemunhasse aquele vexame.

Lição da história: todo homem é bêbado, toda mulher é histérica, e a vida imita Nelson Rodrigues.

Entrevista com Luis Eduardo Matta

Há muitas semanas que venho querendo fazer uma entrevista com o escritor carioca Luis Eduardo Matta. Entrei em contato com ele, mas disso resultou antes um artigo, de minha autoria, sobre a Literatura Popular Brasileira, uma bandeira teórica defendida pelo jovem autor. Agora, vejo que o site Cortiça, saiu na minha frente e fez a entrevista. Publico abaixo um trecho da mesma.


É idealizador de um movimento batizado como LPB – Literatura Popular Brasileira, que defende o desenvolvimento de uma literatura de entretenimento brasileira. Fale um pouco disso.

Esse é um tema complexo. Eu sempre me perguntei por que o Brasil, que tem uma literatura tão extraordinária, um povo criativo e, ao mesmo tempo, um enorme déficit de leitura, nunca viu surgir uma corrente de escritores cujos trabalhos fossem destinados ao simples entretenimento do público leitor. Leio desde garoto, desde os dez, onze anos. A leitura para mim sempre foi um ato de lazer, equivalente ao que é, para muitas pessoas, ligar a TV à noite para assistir às telenovelas. E o que me despertou para a leitura, foi a literatura de entretenimento, mais especialmente, a literatura policial. Gosto dos clássicos, gosto da chamada “alta literatura”, mas sou também um grande leitor de best-sellers. Há muito preconceito por parte dos formadores de opinião em relação aos best-sellers. Isso ajuda a reforçar um estereótipo de que literatura é coisa apenas para intelectuais. Não acredito que o surgimento de uma literatura de entretenimento brasileira iria aumentar o número de leitores. Jamais atribuiria a ela esse caráter messiânico, redentor... Mas é preciso acabar com essa deferência que existe em torno do livro no Brasil. As pessoas só terão a leitura como hábito, quando a encararem como uma atividade lúdica, prazerosa, um momento diário de lazer e não como uma obrigação ou, pomposamente, como um instrumento indizível de busca pelo conhecimento e pela sabedoria. É preciso dessacralizar a leitura no Brasil. Só assim ela será democratizada. E se estamos falando da dessacralização da leitura, por que não falar também da dessacralização da escrita? Por que o escritor precisa, necessariamente, ter uma proposta ao fazer o seu livro? Por que ele não pode se limitar ao papel de contar despretensiosamente uma história de começo meio e fim? A LPB abriria um caminho a mais na literatura brasileira, não competiria de modo algum com a tradição já existente. Os livros seriam escritos, publicados e vendidos a quem se dispusesse a comprar. O que há de errado nisso? Ou será que a nossa intelectualidade é tão arrogante a ponto de querer determinar o que as pessoas devem ou não ler?

Qual é a sua opinião do motivo de existir uma escassez de escritores nesse gênero literário?

A literatura de entretenimento, em geral, não só a de suspense, nunca foi valorizada no Brasil. Quem diagnosticou isso muito bem foi o crítico José Paulo Paes, que afirmava que o panorama literário nacional sempre foi muito mais propício ao surgimento de literatos que poderiam prescindir da venda dos seus livros e ficariam satisfeitos com o prestígio que a sua obra lhe traria. A verdade é que a literatura de entretenimento, por si só, não traz prestígio ao seu autor. Ela necessita de uma resposta maciça de um público, digamos, mais amplo e isso é complicado num país como o nosso onde os índices de leitura são baixos, as tiragens mínimas, os canais de distribuição ineficientes e a mídia cultural muito reduzida se comparada ao volume mensal de lançamentos. Do mesmo modo, o ambiente literário brasileiro sempre foi dominado por intelectuais e pseudo-intelectuais, por vanguardistas e pretensos vanguardistas, alguns com muito estilo e pouco conteúdo. Quase todos querendo desconstruir a linguagem e reinventar, cada qual a seu modo, a literatura. Num ambiente assim, é difícil uma literatura modesta como a de entretenimento vicejar, pois ela não é, necessariamente feita por intelectuais e muito menos para intelectuais.

Além disso, existe um terceiro problema: os autores brasileiros não têm muita noção de como escrever literatura de entretenimento. Pensam que por ser uma leitura mais simples, sua concepção é fácil, o que é um engano fatal. Isso é particularmente evidente na nossa ficção policial, que, salvo algumas honrosíssimas exceções, é muito ruim, de uma inconsistência quase infantil. Os autores que se aventuram pelo gênero pensam que basta colocar um crime no início da história, um detetive destemido, algumas cenas de sexo, outras de ação, a solução do crime no final e bingo: está pronto o livro. Os resultados costumam ser sofríveis e estão aí; basta ir a qualquer livraria para ver. Os grandes autores internacionais de entretenimento, incluindo os de livros policiais, costumam reescrever suas histórias sucessivas vezes, dando-lhes um acabamento que seria improvável na primeira versão. Os escritores brasileiros, infelizmente, ainda não aprenderam isso. Eles não se deram conta ainda de que a concepção de um livro de entretenimento é extremamente complexa, até para que a sua leitura seja simples, fluente e estimulante.

Um mal com raízes profundas

Terminei de reler, há poucos dias, o livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, e estou traçando agora o Casa Grande & Senzala, de Gilberto Freyre. É sempre impressionante verificar como problemas tão antigos conseguiram estender sua herança até nossos dias.

Freyre explica, em linguagem exuberante, as origens culturais, sexuais, econômicas, psicológicas, patológicas, do caráter brasileiro.

O antropólogo pernambucano lança por terra muitas teorias ufanistas sobre as riquezas do país. O solo brasileiro sempre foi pobre, o clima tropical antes dificultou que ajudou no cultivo de plantas nutritivas e o sistema implantado, de monocultura, terminou por trazer enormes limitações para a alimentação nacional. Esta deficiência, afirma Freyre, senão foi fundamental, como acreditam extremistas, foi importante, ou antes, nociva ao desenvolvimento saudável da economia brasileira.

A divisão de classe ente senhor e escravo também deixou marcas profundas na sociedade.

Interessante ainda a afirmação de Freyre, com base em abundante material bibliográfico, sobre a disseminação do sangue negro em todo país, incluindo os sertões. Os negros aquilombados nos sertões foram muito mais numerosos do que conta certa historiografia oficial. Eles raptavam as moças-índias nas aldeias e daí produziu-se uma vasta população mestiça pelo país.

O livro de Sérgio Buarque de Holanda, por sua vez, aprofunda-se sobre a influência da cultura ibérica sobre a nascente cultura brasileira, e as diferenças entre o rigor acadêmico dos espanhóis e a lassidão esperta dos portugueses.

Nos dois livros, fica claro que os portugueses se diferenciaram de outros povos colonizadores pela ausência de preconceito sexual. Os lusitanos compensaram a reduzida população pela generosidade com que doaram seus espermatozóides às lindas mulheres que aqui encontravam, entregando-se fácil em troca de qualquer bugiganga européia.

O vale dos posts perdidos

Passei uma hora escrevendo nesse blog, cliquei em Postar e apareceu na tela: Houve Erros. Resultado, trabalho perdido. Para me consolar, penso que foi uma intervenção divina. Deus é o grande editor, e quando não gosta de um post, ele intervém e produz erros nos provedores de blogs.

Mas sou persistente, e lá vai mais uma abrobrinha literária. Um conto, de minha autoria, intitulado:

Diário de um escritor bêbado, anônimo e fracassado

Não tenho computador, e descobri somente há poucos dias o que é um blog. Um amigo, artista plástico antenado com o mundo moderno, e que sempre paga umas cervejas em troca de meus trocadilhos, foi persistente e conseguiu me transmitir alguns conceitos importantes sobre o universo virtual.

Ele me prometeu publicar essa crônica em seu blog. Então vamos lá. Apesar de ele ter me explicado que hoje em dia existem milhões de blogs, tenho esperança de que, com a publicação desse meu primeiro texto, o sucesso finalmente baterá a minha porta.

Tenho trinta e cinco anos, sou solteiro e moro na Lapa, centro do Rio. Há dez anos que estou desempregado, ou melhor, que faço questão de não trabalhar. Minha renda é uma modesta mesada que recebo de minha mãe, professora aposentada que concluiu, talvez com razão, que tenho uma espécie de doença mental e portanto incapacidade para qualquer tipo de trabalho. Minhas veleidades literárias, para ela, apenas confirmam essa teoria.

Dedico-me exclusivamente à literatura. Digo: à literatura, o que não é o mesmo que dizer: à escrita, ou à leitura. Recebo 800 reais de mesada, gasto 350 com a pensão, que inclui a comida, e o resto é destinado ao consumo de cachaça e cerveja. E mesmo assim sou obrigado a recorrer, sistematicamente, a meus amigos-mecenas, o artista plástico já mencionado e um jornalista, também apreciador de meus geniais trocadilhos.

Mesmo sem ler quase nada, no máximo alguns minutos de poesia antiga, uma passada de olhos no velho Guimarães, e escrevendo também com uma parcimônia que beira a inércia total, sinto que me dedico integralmente à literatura. Costumo pensar: estou esperando, acumulando forças para escrever os grandes poemas do século XXI.

Tudo bem, sou um bêbado, um escritor ignorante, fracassado em todos os sentidos, e mesmo assim, ou antes justamente por isso, continuo a acreditar nas possiblidades de êxito que o futuro me reserva.

Enquanto escrevo, observo meu dedão do pé esquerdo, que está sangrando e doendo muito. Pisei num caco de vidro agora pouco, quando voltava da cozinha com uma latinha de cerveja na mão.

Impressionante como o sangue pode ser tão literário...

Bem, já estou cansado. Há meses que não escrevia tanto. Espero que esse texto me traga todo o sucesso que mereço.

A sollydão sem freios de um chevrolet vermelho

meus olhos estão vermelhos
por causa do vento empoeirado
que invade a janela do carro
que dirijo em alta velocidade
pela avenida brasil
fugindo do Rio
e sua burocracia
cosmopolita

meus olhos estão azuis
de felicidade rural
porque eu vou direto
para a cidadezinha
linda que tem em Minas

nem sei ainda pra onde vou
só sei que vou
para cidadezinha linda
que tem em Minas

minha sollydão sem freios
não pára no posto
o chevrolet vermelho
não foi revisado
o caminhão da frente
não me avisou
de sua manobra intempestiva

minhas férias do mundo
tornaram-se vazias
e eternas
como flores de plástico
num cemitério

E o Não vai ganhar... (ou não?)

Sinto-me com dívida comigo mesmo e com a sociedade brasileira (ou pelo menos com os três ou quatro que acompanham meus artigos), por não ter escrito nada sobre o referendo de domingo.

Nos últimos dias, tenho procurado ler artigos sobre o tema, buscando uma visão mais organizada do problema, de forma a sentir-me capaz de produzir argumentos consistentes, que tivessem o poder de mudar percepções.

Também já tive discussões, apaixonadas e serenas, com pessoas que defendem o Não. Tenho amigos que defendem o Não e amigos que defendem o Sim.

O fato é que, dessa vez, não me senti capaz de escrever nada de contundente sobre o tema. O único recado que gostaria de deixar, é que o referendo, independente do resultado, será um excelente ensaio de democracia direta.

Reclama-se dos gastos com o referendo, mas dinheiro gasto com democracia é o melhor investimento que podemos fazer em nosso futuro político.

Deixo claro aqui, que sou a favor do Sim, porque sou contra as armas. Sou contra a defesa armada. Quem tem que proteger o cidadão é a Polícia, a Justiça, o Estado.

Sei que nem sempre essas instituições são os mais confiáveis, mas é o que temos. A luta é para aperfeiçoá-las, e não desprezá-las e tratar de fazer justiça com as próprias mãos.

O referendo mexe com interesses poderosos, preconceitos secularmente enrustidos no espírito brasileiro, influências culturais advindas de tantos filmes americanos, onde a arma de fogo é sempre o elemento estético preferido.

Enquanto isso, a Miriam Leitão recebe prêmio de jornalismo nos EUA, o mesmo prêmio que deram à Carlos Lacerda, aquele fantoche de paladino da democracia que, a todo momento, planejava golpes militares. É claro que dão o prêmio à Miriam Leitão, ela é uma ótima jornalista econômica, além de ter se tornado uma das mais ilustres próceres da direita nacional.

Reinaldo de Azevedo é o sucessor de Olavo de Carvalho na edição de sábado, no Globo. Interessante que o tenham escolhido, não? Domingo, tem a coluna do FHC...

Azevedo parece ter aprendido algumas técnicas de "colunagem marrom" com o Olavo e com o Mainardi. Por exemplo, construir raciocínios baseado em premissas falsas, duvidosas, preconceituosas, sempre usando um tom jocoso, sarcástico, de maneira a não se definir como jornalismo sério e sim como opinião livre e democrática. Assim pode-se escrever merda à vontade, com a eterna desculpa da "opinião livre".

Esse tipo de estratégia dá resultados curiosos: os ingênuos acreditam em tudo que esses colunistas escrevem; os cínicos apreciam o estilo "literário" do texto e dão risadinhas de prazer; os cidadãos honestos ficam confusos com toda aquela salada de "verdades", "mentiras", "piadas" e "denúncias"; os politizados aprovam euforicamente ou têm ataques apopléticos de ódio contra esse tipo de estelionato jornalístico.

Os direitos da comunicação vêm sendo objeto de intenso debate entre estudiosos, cidadãos comuns, jornalistas, autoridades e mesmo escritores. Um dos últimos romances de Saramago fala do poder da mídia nas democracias modernas.

Acho esse tipo de debate muito saudável, e particularmente sou contra essa liberdade "moleque" exercida por uma mídia concentrada e oligárquica. Necessário democratizar a comunicação social no país e criar serviços obrigatórios de Umbudsman dentro das redações, que sejam críticos em relação ao próprio jornal, de forma a manter a respeitabilidade futura da imprensa brasileira.

Azevedo foi apadrinhado pelo Globo, Miriam recebeu seu trofeuzinho. Mais dois cavaleiros do Apocalipse estão prontos para marchar em 2006...

Alfandega 7



O Ale Gabeira, grande amigo meu, está à frente de um novo centro cultural quase em frente ao Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB). Sexta-feira agora (21/10) vai rolar o primeiro evento da casa, uma festa a partir das 22:00. É lá ainda que o Gabeira vai reinaugurar, a partir da proxima quinta-feira (27/10), a famosa Rio Jam Session.

O endereço do local é rua da Alfândega 7, centro, Rio de Janeiro. Fica na esquina da Rua Primeiro de Março e Alfandega e, reiterando, quase em frente ao CCBB. Os ingressos saem a R$ 5 (com filipeta) e a cerveja fica por R$ 2.

Estarei lá.

O problema é a falta de saco

Naturalmente, não se trata de ausência efetiva dos acessórios genitais, mas a falta de saco constitui o problema principal da alienação do homem contemporâneo.

AP fora do ar, mas voltará logo

O AP ficou fora do ar hoje, por vacilo nosso. Atrasamos o pagamento. Nada com que se preocupar. Ele volta ao final da tarde ou à noite.

Poesia em São Gonçalo

Ontem eu e o Laurent Gabriel declamamos poemas para uma eclética platéia do Sesc São Gonçalo. O recital está dentro do projeto Noites na Taverna, organizado pelo Rodrigo Santos e Rômulo Narducci, dois poetas são-gonçalenses de nobre estirpe.

Depois fomos a um bar-show em São Gonça, escutamos muito rock'n roll com a banda Láudano, bebemos cerveja, cuba libre e atravessamos a ponte Rio-Niterói com o dia nascendo. Nos acompanhava um americano da Florida, amigo da namorada do Laurent, que ficou deslumbrando com o Daybreak (aurora) sobre a cidade maravilhosa.

No evento, recitei poemas de meu próximo livro, com título provisório "As armas da mente".

Só para lembrar, um destes poemas vai abaixo:

os romances que nunca serão escritos

eles continuam escondidos,
nas sombras ansiosas da noite
ou ofuscados por um sol ácido

os romances que nunca serão escritos
permanecem ocultos sob as feridas
que nunca cicatrizam

mas existem, os romances,
embora marginalizados
pela incompetência do artista

e brincam na memória,
como crianças que não fossem à escola

eles brincam de guerra
e, às vezes, roubam as armas de seus pais,
e matam uns aos outros

os romances que nunca serão escritos
são como putas amargas, envelhecidas,
porque venderam seu tempo e seu amor
em troca de férias pagas no inferno

os romances nunca serão escritos
mas estão vivos, podem ser vistos,
nadando nas ondas do Leme ou
enchendo a cara nos bares da lapa

jogam sinuca durante a semana,
odeiam qualquer tipo de trabalho
estão enjoados de literatura
e sonham apenas com a vida,
o amor e a liberdade

os romances não escritos
são o prelúdio trágico,
luxuoso e natural,
dos suicídios
e dos poemas

(miguel do rosário)

Há palavras suficientes para todos nós

Esse texto foi traduzido pelo Douglas Kim, lá de São Paulo. Foi reproduzido no blog do Bortolotto (link ao lado). Merece vir aqui também, afinal ler o Buk é como tomar uma gelada num dia infernal.

MINHA LOUCURA

Por Charles Bukowski

Existem graus de loucura, e por mais louco que você seja, mais óbvio será para as outras pessoas. A maior parte da minha vida eu escondi minha loucura dentro de mim, mas ela está lá. Por exemplo, algumas pessoas falarão para mim sobre isso ou aquilo e enquanto essas pessoas estão me entediando com suas generalidades banais, eu irei imaginá-las com a cabeça, dele ou dela, descansando sob a guilhotina, ou vou imaginá-las em uma enorme frigideira, fritando, enquanto me olham com seus olhos assustados. Em situações reais como essas, eu provavelmente tentaria um resgate, mas enquanto elas estão falando comigo eu não consigo imaginar isso. Ou, com um humor melhor, eu poderia imaginá-las andando de bicicleta longe de mim. Eu simplesmente tenho problemas com seres humanos. Animais, eu amo. Eles não mentem e raramente tentam atacá-lo. Às vezes eles são espertos, mas isso é permitido. Por quê?

A maioria da minha juventude e vida adulta foi em quartos minúsculos, confortável, olhando as paredes, as sombras rasgadas, as maçanetas dos armários. Eu sabia da fêmea e a desejava, mas eu não queria tentar atravessar as dificuldades para consegui-la. Eu sabia do dinheiro, mas de novo, como com a fêmea, eu não queria fazer as coisas necessárias para consegui-lo. Tudo o que eu queria era suficiente para um quarto e para algo para beber. Eu bebia sozinho, geralmente na cama, com todas as persianas fechadas. Às vezes eu ia aos bares checar os tipos, mas os tipos eram os mesmos – não muito e freqüentemente menos do que aquilo.

Em todas as cidades, eu conferi as bibliotecas. Livro depois de livro. Poucos livros disseram algo para mim. Eles eram, na maioria, poeira na minha boca, areia no meu pensamento. Nenhum se relacionava comigo ou com o que sentia: onde estava - nenhum lugar - o que tinha – nada – e o que queria – nada. Os livros do século somente eram feitos do mistério de ter um nome, um corpo, andando, falando, fazendo coisas. Ninguém parecia preso com a minha loucura particular.

Em alguns dos bares eu fiquei violento, havia brigas nos becos, a maioria perdi. Mas eu não estava brigando com ninguém em particular, eu não estava bravo, eu só não entendia as pessoas, o que elas eram, o que faziam, como elas pareciam. Eu ia preso e saía, era despejado dos quartos. Dormia em bancos de praça, em cemitérios. Eu estava confuso, mas não era infeliz. Não era depravado. Só não conseguia entender nada do que existia. Minha violência era contra a óbvia armadilha, eu estava gritando e eles não entendiam. E mesmo nas brigas mais violentas eu olhava para o meu oponente e pensava, por que ele está bravo? Ele quer me matar. Aí eu tinha que socar para tirar a besta de mim. As pessoas não têm senso de humor, elas são tão sérias a respeito de si mesmas.

Em algum lugar, e eu não tenho idéia de onde vem, eu pensava, talvez eu devesse ser um escritor. Talvez eu possa escrever as palavras que eu não li, talvez fazendo isso eu consiga tirar o tigre das minhas costas. E assim comecei e décadas passaram sem muita sorte. Agora, eu era um escritor louco. Mais quartos, mais cidades. Eu afundei e afundei. Congelando uma vez em Atlanta em uma barraca de papelão, vivendo com um dólar e vinte cinco cents a semana. Sem encanamento, sem luz, sem aquecimento. Congelando com minha camisa californiana. Uma manhã eu achei um pedaço de lápis e comecei a escrever poemas nas margens de velhos jornais no chão.

Finalmente, aos 40, meu primeiro livro foi lançado, um pequeno livro de poemas, ‘Flower, Fist and Bestial Wail’. O pacote de livros chegou pelo correio e eu o abri e aqui estavam os livrinhos. Eles se esparramaram na calçada, todos os livrinhos, e eu me ajoelhei sobre eles, estava de joelhos, e peguei um ‘Flower Fist’ e beijei. Isso foi há trinta anos atrás.

Ainda escrevo. Nos primeiros quatro meses deste ano eu escrevi 250 poemas. Eu ainda sinto a loucura me atravessar, mas ainda não tenho a palavra do jeito que a quero, o tigre ainda está nas minhas costas. Eu vou morrer com aquele filho da puta nas minhas costas, mas eu lutei. E se há alguém louco o suficiente para querer ser um escritor, eu diria para continuar, cuspir no olho do sol, acertar o principal, é a melhor loucura, os séculos precisam de ajuda, os tipos gritam por luz e apostam na alegria. Dê isso a eles. Há palavras suficientes para todos nós.

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