Mais fotos do lançamento da Miroir no Cine Odeon


fazendo uma pausa para respirar (priscila, natasha, diana e maria) - para entender essa foto, ver uma das primeiras da sequência abaixo


baronesa Camilla Lopes e barão Mirisola, no pós lançamento

Justo saboreando e eu dando duro como DJ e barman (vida de marido de editora não é mole, rapá!)

Priscila e Natasha, editora e fotógrafa oficial da Miroir


a convidada mais importante da festa, senhora cachaça Magnifíca

a Dira Paes também ficou ligada na Miroir

A festa

as meninas comemorando a chegada da revista

a partir da esquerda: maria, mirisola, natasha, priscila, diana, miguel (eu) e o bortolotto


Lá fomos nós, eu, Diana e o fusquinha branco, para Bonsucesso. Pegamos a perimetral, entramos na Avenida Brasil, prosseguimos uns quilometros e entramos à direita. Bonsucesso é um dos primeiros bairros cortados pela Brasil. Nosso destino: a gráfica Walprint, onde a nova edição da revista Miroir estava sendo finalizada.

A revista não estava pronta. A Diana e o fusquinha voltaram para o Cine Odeon e eu fiquei na gráfica, esperando. Uma hora e meia depois, conseguiu-se aprontar um lote de 175 exemplares e eu entrei no táxi que já estava me esperando na rua, chegando ao Odeon exatamente às 21:45, a tempo de pegar as pessoas aguardando ansiosamente minha aparição.

Foram distribuídas doses de Magnífica ouro e vinho branco. Compareceram diversos amigos, entre eles o nosso querido Mario Bortolotto. Presente ainda o barão da praça Roosevelt, Marcelo Mirisola e sua baronesa, Camilla Lopes, e muitas outras pessoas interessantes.

A revista ficou muito bonita. Não é porque ela é minha esposa, mas a Priscila é realmente uma garota extraordinária. Se eu posso dizer, com orgulho, que muita coisa do que ela sabe eu ensinei, também devo afirmar que, definitivamente, a aluna superou o mestre. Esta nova edição será distribuída no Festival do Rio, e tem um conteúdo que destoa totalmente de qualquer revista do tipo que tem por aí. Tem contos, crônicas, resenhas, matérias, além de magníficos ensaios fotográficos (uma das modelos é a atriz Fernanda D'Umbra).

Depois do Odeon, fomos todos para a Lapa, comer frango a passarinho e molhar mais um pouco as cordas vocais. Quem quiser um exemplar da revista, terá que vir ao Festival do Rio. Ou então enviar um email para editora@miroir.com.br, solicitando um exemplar. Em tempo, estaremos fazendo a cobertura do Festival do Rio, através do site www.miroir.com.br, o qual ainda está em construção. Mas por este blog você se mantém informado.

Tá chegando a hora

"A forma mais ínfima da vida é a ameba. Daí surgiram os grandes homens", Millor Fernandes

O Festival do Rio de cinema está chegando. Hora de começar a azeitar as máquinas. Treinar um pouco a arte de resenhar filmes. Até porque a Revista Miroir, editada pela Priscila, está super-cadastrada para participar do evento. Será lançada uma edição no dia 21 de setembro, junto com a abertura do Festival. Meu objetivo este ano é beber menos e escrever boas críticas, senão profundas e precisas como as da Contracampo, pelo menos suficientemente originais e divertidas para justificarem sua existência.

Comecemos de leve, brincando apenas, para desenferrujar. O título do filme - Fahreinheit 451 - corresponde à temperatura a partir da qual os livros pegam fogo. Bombeiros de um futuro indefinido agem como uma espécie de polícia anti-literatura. Acionados por denúncias anônimas, realizam buscas minunciosas nas casas dos acusados e encontram livros no interior de aparelhos de tv, dentro de torradeiras e em toda espécie de compartimentos secretos. Juntam os livros num bolo e os carbonizam com lança-chamas.

Oskar Werner, que já ficara imortalizado por Truffaut em Jules e Jim, é o protagonista da história, um bombeiro anti-livros que começa a se interessar pelos objetos proibidos. Baseado na obra-prima homônima de um dos maiores nomes da ficção científica norte-americana, Ray Bradbury, o longa de Truffaut foi rodado em 1966. O argumento do filme, apesar de preservar ainda hoje algum valor metafórico, parece meio forçado, inverossímil. Não li o livro, que certamente deve conter muito mais elementos (e portanto mais verossimilhança e coerência) que o filme. Nessa mesma linha, prefiro 1984, de Michael Radford, baseado no livro homônimo de Orwel, protagonizado por Jonh Hurt e Richard Burton.

Aliás (informações atualizadas da bolsa carioca de livros)

Bradbury também possui um livro de contos fabuloso, Remédio para Melancolia, o qual, por uma feliz coincidência, acabo de adquirir num sebo da rua do Catete, por R$ 5. Também comprei hoje, num outro sebo, na Glória, Lições de um Ignorante, de Millôr Fernandes, por R$ 1; e um livrinho de críticas literárias de Machado de Assis, muito instrutivo, por R$ 7.

Em suma, não há suma (como diz Millôr).

Dissidência na Megatongas

Crônica escrita por Antonius Vanquise III, publicada no site Andrômedas do Passado, em 22 de junho de 5.201 DC.


Volto à minha coluna para contar a história da dissidência ocorrida na revista Megatongas, aquela mesma da qual eu falei meses atrás. Aconteceu em meados de 2006, quando os escritores Holgo Benário e Vira Chopes decidiram não mais participar da publicação.

Vira vinha, há algum tempo, enfrentando atritos com o editor de Megatongas, Confrócito, devido à mania deste de implicar com alguns termos usados por ela, e estar sempre posando de grande crítico literário. No início, Vira aceitava as críticas de Confrócito mas, depois de algum tempo, percebeu que se tratava de pura implicância. Por exemplo, ele queria que ela substituísse o termo “idiota” por “bobo”, e coisas do gênero.

Holgo Benário decidiu sair da revista em função de uma súbita tomada de consciência. Com as sobras orçamentárias da primeira edição da revista impressa, a Megatongas havia publicado o romance A Arte de Peidar, de Luiz Inácio Nogueira. Benário não viu problema porque confiava no gosto de Confrócito como editor.

Em São Paulo, onde fizeram o lançamento da revista impressa e do romance, Benário, instado por sua mulher, comprou o livro de Nogueira, pagando vinte reais. No dia seguinte, Benário deu início à leitura, e ficou muito decepcionado com a quantidade de erros encontrada logo nas primeiras páginas. Parou de ler, e foi estudar coisas mais interessantes. Até que lançaram um segundo número da revista impressa, e Benário reparou que o próprio editor, Confrócito, havia assinado e publicado uma resenha sobre o referido livro.

Pôs-se a ler a resenha de Confrócito e ficou estupefato com frases do tipo: “Nogueira é um escritor que tem o talento da escrita” e “Arte de Peidar está aquém e além do gênero policial”. Num primeiro momento, Benário ficou aliviado ao pensar que Nogueira fosse um escritor que tivesse o talento da escrita e não da prática do karatê ou do canibalismo, mas depois um sentimento de perplexidade foi crescendo no espírito de Benário e ele decidiu fazer uma leitura crítica e detalhada do romance em questão.

Foi uma experiência terrificante. O que mais espantou Benário não foram nem os milhares de erros de sintaxe e gramática, e sim a proliferação de clichês baratos, diálogos ridículos, cenas inverossímeis e muitos, muitos, erros e incoerências de estrutura de história e personagem. Abaixo, transcrevo manuscritos de Benário encontrados em seus arquivos, falando sobre o tal livro.



É inacreditável. Um exemplo pra vocês. Leiam esse trecho, faz parte do diário da personagem principal.

“O ar estava imóvel e a falta de ventos aumenta a angústia de quem sente muitas outras faltas. A paz era incômoda, a tranquilidade que antecede as grandes catástrofes”.

Bem, nunca soube que falta de ventos aumenta angústia de ninguém, nem que a paz fosse incômoda, mas isso não vem ao caso. O negócio que é havia falta de ventos, repararam? Pois bem. Logo depois ela continua:

“Otávio havia saído para dar sua caminhada habitual. Levantei-me para aumentar a potência do ar-condicionado central e ao passar pela janela, o parque me chamou a atenção.”

Ã? Não havia falta de ventos? Ah tá. Ela estava dentro de casa, com o ar-condicionado ligado. Até onde eu sei, isso implica em janelas fechadas e... ausência de ventos. Ok.


Saltarei as anotações que fiz para uma série de deficiências. Vamos às piores. Ainda no capítulo em que a viúva escreve em seu diário, ela descreve a cena em que conversa com um vendedor de côco, o Gérson, o homem dos olhos terríveis.

“Eu nunca sei mesmo a hora certa de mostrar minha cultura e falei: Isto me lembra Tchecov, o escritor russo que seria um médico frustrado se não fosse a carta de Grigorovitch, outro escritor, que o encorajou a se entregar à literatura”.

Trata-se de um diálogo totalmente estapafúrdio. Sei que as categorias da verossimilhança, tão defendidas por Aristóteles, já estão meio fora de moda, mas... puta-que-pariu! Tudo tem limite.

Ah, reparem como o autor pontua o diálogo, com ponto, aspas, ponto de novo, ou vírgula. É uma orgia de pontos e vírgulas e aspas. As aspas estão bêbadas, os pontos drogados e as vírgulas se aproveitam para bolinar todo mundo.

“Sim..”,,, lágrimas começaram a rolar pelo rosto da viúva. “Depois de matá-lo, ele levou o seu relógio, sua carteira e os seus sapatos. Ele é frio e cruel. Como uma lebre, encostou o revólver na cabeça do meu marido e fez os disparos. Foi uma execução covarde.”

Como uma lebre? Como uma lebre? Aí é foda!





Benário ficou atônito com tudo isso. Não compreendeu como Confrócito pôde publicar um negócio desses e ainda fazer uma resenha que começa, escandalosamente, chamando Nogueira de “talentoso”.

A resenha tem tantos erros que não ajuda em nada o romance. Benário cita uma frase da resenha: “Um suposto niilismo é evidente na obra”. Ora, se o niilismo é suposto, não poderia ser evidente. Questão de lógica. Mas isso é o de menos, diz Benário. Há outras pérolas. O texto é uma verdadeira bomba escatológica.

Irritado com o que lera, Benário decidiu se desligar do grupo. Alguns anos depois, lançou um livro que, infelizmente, foi ignorado pela crítica. Com trinta e cinco anos, morreu num acidente de carro.

A incrível história do anão

Entrei no bar e Cardan estava sentado à mesa, junto a uma corja brilhante de outros artistas, malucos, bêbados e alguns nobres correspondentes do sexo oposto. Pareciam estar todos bem altos, o que era compreensível, dado o avançado da hora – eram duas da manhã – e o número de garrafas vazias. Alguém me reconheceu e berrou:

“Miguel do Rosário! Sente-se aqui conosco! Ô Clebinho, traz um copo e mais uma cerveja!”

Pedi licença para pegar uma cadeira desocupada numa mesa ao lado, com três rapazes mau humorados, provavelmente desgostosos com a fatalidade de terem estacionado sua boemia discreta ao lado daquele grupo tão silencioso quanto a Regina Casé e Elisa Lucinda recitando poemas eróticos debaixo da sua janela, às quatro da matina.

Cardan enfim me reconheceu e acenou pra mim, lançando-me seu olhar alegre e intrigado de sempre. Micróbio, a seu lado, acompanhou seu olhar e também me acenou, entusiasmado com minha presença.

“E aí Rosário? Que tá fazendo por essas bandas?”, falou Micróbio.
“Vim conferir se a cerveja continua gelada por aqui”, respondi, meio sem graça, sentindo-me deslocado por estar completamente sóbrio numa mesa de ébrios. Não era um problema dos mais complexos, naturalmente, e encaminhei logo uma solução pedindo ao garçom uma dose de Salinas. Melhor, duas doses, por favor.

Depois que bebi as duas doses, fiquei mais à vontade. Cardan e Micróbio riam desbragadamente de uma piada contada por um sujeito cuja aparência por si só parecia justificar as risadas. Aí Micróbio – um baixinho de olhos espertos que possuía um sebo em frente a um badalado teatro da praça Roosevelt – virou-se pra mim e perguntou:

“Aí Miguel, contaí sua versão da briga de Cardan com o anão. O Cardan disse que o cara era um mala insuperável, e que por pouco não estraçalhou o sujeito ali mesmo. Como foi a coisa? Cê tava lá?”

Eu sabia que teria que contar aquela história de novo. Aliás, por isso mesmo é que eu estava já na terceira dose de cachaça, fora os golões na cerveja. É público e notório que minha língua enrola nesse estágio intermediário – mais adiante ela desenrolava, embora aí as idéias é que perdessem grande parte de sua consistência e objetividade originais. Resolvi contar enrolando a língua mesmo, até porque o público ouvinte não me parecia capaz de perceber se eu tinha língua ou não.

“Foi uma merda, Micróbio. Encontrei uns amigos num outro bar e ficamos bebendo chops. Era dia da promoção Terça em Dobro, em que você bebe dois chops e paga um, o que nos levava a beber duas vezes mais que o normal. Como normalmente a gente bebia duas vezes mais que a maioria das pessoas, pode-se dizer que, com esta promoção, a gente bebia quatro vezes mais que o normal. Tinha umas dez pessoas na mesa, inclusive o Anão, um artista plástico com ateliê ali pela Lapa. A gente fechou a conta e eu disse que ia para outro bar encontrar um amigo de São Paulo, diretor de teatro, dramaturgo, escritor, ator. A maioria estava cansada e resolveu ir embora, à exceção de Débora e Aline, minha consorte e minha melhor amiga, respectivamente. Levantamo-nos e fomos pra rua. Resolvi dar uma passada no ateliê do Nilson para pegar um livro emprestado e falei pras meninas irem na frente. Quando atravessei a rua, vi o Anão as seguindo, mas não dei muita bola à coisa. Acabei me atrasando um pouco no ateliê e quando cheguei no outro bar, a situação já estava bastante tensa, embora eu, devido a meu estado etílico, não tivesse percebido.”

Cardan interrompeu o meu relato: “Porra Miguel, que jeito de falar é esse? Parece que tá lendo um conto!”

Eu matei um copo de cerveja e retruquei: “Mas isso é um conto caralho! E você é apenas um personagem. Faça o favor de escutar tudo até o fim”.

Cardan olhou para Micróbio, como quem diz: esse cara tá piroca das idéias, mas levou na boa, balançou a cabeça e levantou seu copo de cerveja na minha direção, num sinal para que eu prosseguisse.

“Bem, como eu ia dizendo, quando eu cheguei lá havia nitroglicerina no ar. Mais tarde, conversando com Débora e Alice, elas disseram que o Anão, de fato, encheu o saco. Foi até meio agressivo com o casal que acompanhava Cardan. Era um casal de atores, muito educados, que estavam jantando sossegadamente quando eles chegaram. O Anão iniciou um discurso bem hostil contra o teatro e a TV e sei lá mais o quê. Não era bem o que ele falava, mas a maneira, agressiva, antipática, entende? me disseram elas.

Eu me sentei à mesa um pouco antes do ponto de ebulição. Sinto-me culpado por não ter vindo junto com elas, e evitado que as coisas chegassem nesse ponto, mas não posso me responsabilizar por outro bêbado que não eu.

Foi isso. Cardan explodiu. Começou a falar muito alto, puto da vida, coisas do tipo: FODA-SE A GLOBO, PORRA! VOCÊ SÓ QUER FALAR DE GLOBO! TÔ CAGANDO PRA GLOBO! VOCÊ CONHECE MEU TRABALHO? CONHECE O TRABALHO DELES (apontando para o casal)? ENTÃO?

Depois desse desabafo, ele até se acalmou. O pior veio depois. O Anão quis comprar briga e desatou a praguejar. Cardan olhou pra ele e mandou:

NÃO QUERO SABER TUA OPINIÃO, CARA. TE ACHO CHATO PRA CARALHO. NÃO GOSTO DE VOCÊ.

O Anão se levantou e quis partir pras vias de fato.

OLHA O TEU TAMANHO!, devolveu Cardan, levantando-se também.

Dois garçons já estavam nas proximidades, procurando resolver a questão. Tinham um risinho no canto da boca; devia ser a diversão do mês pra eles.

Nessa hora, consegui superar minha confusão e convoquei o Anão a se retirar. Como ele possuía algum instinto de sobrevivência, aceitou na boa. Acompanhei-o até o bar do outro lado da rua, sentei-me com ele um instante, tomei um copo de cerveja, encontrei um conhecido para fazer companhia (de forma a garantir que ele não voltasse) e retornei ao bar.

Vou confessar a vocês. Eu estava arrasado com aquilo. Não estava nem mais com muita raiva do Anão. Não sou de guardar rancor. Mas é que o Cardan não merecia ter se estressado daquela maneira. Nenhum de nós. Fazer o quê? No resto da noite, quase não consegui falar, tão abalado fiquei com o episódio. Que merda! O pouco tamanho do sujeito revelou-se inversamente proporcional à sua capacidade de atormentar os outros. Eu estava nervoso, deprimido, bebendo num ritmo além do normal..."


“Pára! Pára! Cala essa boca!”

Olhei assustado para onde vinha o grito. Era um senhor sentado na ponta mais afastada da mesa. Sua fisionomia não me era estranha... Hum... Reinaldo de Moraes! O célebre autor de Tanto Faz! A alegria de reconhecê-lo durou apenas um segundo, afinal o cara estava me mandando calar a boca.

“O rapaz, desculpa pedir para você calar a boca assim. Mas é que você não está indo bem. Seu estilo está muito irregular. Uma hora o texto flui legal, com doses de humor inteligente, à lá Chandler, embora um pouco forçado; em outra você cai para um estilo confessional-descritivo barato, vulgar. Além do mais, você tem que criar mais pausas, mais espaços de respiração. A história não é totalmente má. Mas faltou um pouco de suspense, de ação, drogas. Ah, e o Cardan é MEU PERSONAGEM CARALHO!

“Tá certo, Reinaldo. Olha só. Eu não fui nada pegar livro emprestado no ateliê do Nilson. Fui fumar um baseado. Por isso demorei por lá, e cheguei meio aéreo, distraído, sem perceber o curto-circuito iminente."

“Hum, melhorou um pouco. Pode acabar aqui se quiser. Tudo bem, autorizo você a usar o Cardan.”

“Falou Reinaldo, obrigado pela força."

***

Horas mais tarde, na mesma noite, pediram-me para recitar um poema, o qual transcrevo abaixo.

os homens incendeiam esperanças de papel
enquanto esperam o calor das ressacas
que a manhã despeja
na orla suja da praia

excessivos agostos
rompem a pele macia
das crianças que somos
quando pegamos em armas,
ou tomamos uns drinks

luz destruída
pela reluzente merda
das noites tristes
que anunciam
a sublime escuridão
de um futuro sem asas

os erros prosseguem
fermentando em nós mesmos
aleijões sangrentos
que cultivamos
como nossa mais sutil
indignidade

a qual,
a despeito de sua irisada
imperfeição e vergonha
é também o que possuímos
de mais original
- nossa mais fulgurante
contradição, nosso amor
mais secreto e apavorante

o que se oculta
nas dobras da felicidade
perturbando o sono
gerando confusão
é isso, o poeta
é o artífice
da perplexidade

A luz irrompe onde nenhum sol brilha

Esse cara é o Dylan Thomas, poeta britânico nascido em 1914. Não me lembro direito como o conheci. Acho que foi através do conto O Perseguidor, de Cortázar, no qual o personagem principal, o saxofonista Johnny Walker - inspirado no músico realíssimo Charlie Parker - é leitor assíduo de Dylan. Ou então foi através de alguma biografia de Robert Allen Zimmerman, nosso querido Bob Dylan, que homenageou seu ídolo tomando-lhe emprestado o sobrenome. Vale dizer que o músico Dylan fez jus ao empréstimo. Quem sabe um dia eu, enchendo o saco do meu próprio sobrenome, não resolvo me chamar Miguel Dylan? Não, melhor não.

Na época em que eu lia Dylan pela primeira vez, no início dos 90's, aconteceu uma coisa chata. Meu pai teve um infarte e foi hospitalizado. Eu estava fora de casa, acho que em outra cidade. Voltando ao Rio, peguei um ônibus para visitá-lo no CTI. Consegui a proeza de escrever um poema no próprio ônibus. Um poema inspirado em Dylan Thomas, no texto intitulado A morte perderá seu domínio. Lembro que foi uma poesia muito forte, ou pelo menos me pareceu assim (infelizmente, perdi esse poema), que tinha o objetivo bem ambicioso de salvar a vida do meu pai. Minha poesia falava algo como não se deixar levar pelo caminho mais fácil, não se deixar seduzir pelo canto sedutor da morte. Não pude vê-lo naquele dia, mas entreguei o poema ao médico, para que repassasse a meu pai após a operação de safena. Quando retornei ao hospital, no dia seguinte, seus olhos brilhavam, febris, vivíssimos. Disse-me que tinha amado o poema. Aquilo foi importante pra mim. Tive a impressão de que o poema ajudou-lhe num momento difícil. Ele viveu, depois disso, muitos anos. Ainda pôde trabalhar muito e consumir muitos litros de uísque.

José Barbosa do Rosário, meu pai, foi um grande sujeito. Exagerava na bebida, mas sempre foi muito trabalhador e absolutamente íntegro. Chegou do sertão mineiro com 21 anos de idade e algumas notas escondidas na cueca. Nada ver com aquele infeliz assessor do irmão do Genoíno, pego com cem mil dólares no cuecão. Meu pai carregava seus parcos recursos num bolso costurado na roupa de baixo porque minha avó achava - com razão - que o Rio tava cheio de ladrão.

O velho teve dois grandes sofrimentos na vida. Um foi a destruição mental do irmão Cirilo, internado aos vinte anos numa clínica psiquiátrica obscurantista que torrou seus neurônios de tanto choque elétrico. O tio Cirilo ainda está vivo. Eu e meu pai fomos visitá-lo em vários hospícios dos arredores do Rio.

O segundo trauma foi a morte bárbara de seu outro irmão, Francisco, torturado medievalmente por policiais da nona DP do Rio de Janeiro, no finalzinho da ditadura, 1981, o que motivou meu pai a escrever seu único livro, Quando a polícia mata.

Dia desses conto mais histórias do meu pai e dos meus famíliares do Triângulo Mineiro. Adianto só que um tio avô meu era jagunço autônomo, cobrava para matar e colecionava orelhas de suas vítimas numa bolsa de couro que levava sempre consigo, à guisa de curriculum vitae.

É isso, deixo vocês agora, com 2 poemas do Dylan Thomas, tirados de um site com excelentes traduções de Ivan Junqueira e Fernando Guimarães. Para os feras do inglês, pode-se ler originais do poeta por aqui.
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A luz irrompe onde nenhum sol brilha;
onde não se agita qualquer mar, as águas do coração
impelem as suas marés;
e, destruídos fantasmas com o fulgor dos vermes nos cabelos,
os objectos da luz
atravessam a carne onde nenhuma carne reveste os ossos.

Nas coxas, uma candeia
aquece as sementes da juventude e queima as da velhice;
onde não vibra qualquer semente,
arredonda-se com o seu esplendor e junto das estrelas
o fruto do homem;
onde a cera já não existe, apenas vemos o pavio de uma candeia.

A manhã irrompe atrás dos olhos;
e da cabeça aos pés desliza tempestuoso o sangue
como se fosse um mar;
sem ter defesa ou protecção, as nascentes do céu
ultrapassam os seus limites
ao pressagiar num sorriso o óleo das lágrimas.

A noite, como uma lua de asfalto,
cerca na sua órbita os limites dos mundos;
o dia brilha nos ossos;
onde não existe o frio, vem a tempestade desoladora abrir
as vestes do inverno;
a teia da primavera desprende-se nas pálpebras.

A luz irrompe em lugares estranhos,
nos espinhos do pensamento onde o seu aroma paira sob a chuva;
quando a lógica morre,
o segredo da terra cresce em cada olhar
e o sangue precipita-se no sol;
sobre os campos mais desolados, detém-se o amanhecer.

( tradução: Fernando Guimarães)

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E A MORTE PERDERÁ O SEU DOMÍNIO

E a morte perderá o seu domínio.
Nus, os homens mortos irão confundir-se
com o homem no vento e na lua do poente;
quando, descarnados e limpos, desaparecerem os ossos
hão-de nos seus braços e pés brilhar as estrelas.
Mesmo que se tornem loucos permanecerá o espírito lúcido;
mesmo que sejam submersos pelo mar, eles hão-de ressurgir;
mesmo que os amantes se percam, continuará o amor;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Aqueles que há muito repousam sobre as ondas do mar
não morrerão com a chegada do vento;
ainda que, na roda da tortura, comecem
os tendões a ceder, jamais se partirão;
entre as suas mãos será destruída a fé
e, como unicórnios, virá atravessá-los o sofrimento;
embora sejam divididos eles manterão a sua unidade;
e a morte perderá o seu domínio.

E a morte perderá o seu domínio.
Não hão-de gritar mais as gaivotas aos seus ouvidos
nem as vagas romper tumultuosamente nas praias;
onde se abriu uma flor não poderá nenhuma flor
erguer a sua corola em direcção à força das chuvas;
ainda que estejam mortas e loucas, hão-de descer
como pregos as suas cabeças pelas margaridas;
é no sol que irrompem até que o sol se extinga,
e a morte perderá o seu domínio.


( tradução: Fernando Guimarães)



PS: Por último, pero not least, dêem um chego no site do Claudinei, para ler o texto do Mirisola sobre a Flip.

O primeiro

Imagino os seres humanos como milhões de espermatozóides nadando desesperadamente pelos canais uterinos, disputando um lugar dentro do óvulo, conquistar o troféu, atingir a glória, romper a membrana do anonimato, entrar no mundo quentinho e protegido onde serão alimentados, mimados. Onde poderão se desenvolver e se tornar grandes, inteligentes e poderosos.

Quem será o vencedor? O mais rápido, negando a parábola da lebra e da tartaruga, ou o mais paciente, confirmando-a? O mais esperto, o mais culto, o mais criativo?

O tropel de candidatos passa por mim, atropelando, machucando, pisando no meu pé. A gritaria fere meus ouvidos, o cheiro de desodorantes vencidos causa-me náuseas. Há tempos que observo, inquieto, diante de tal tumulto, minha incapacidade de prosseguir. Deixo-me estar, à margem, sem pressa, contemplando o tumulto cada vez maior.

Uma aparição inusitada

Aconteceu uma coisa tão incrível comigo esta noite que sinto necessidade de compartilhar com os milhares de leitores deste blog, na esperança de que alguém possa me fornecer explicações razoáveis sobre o fato, ou trazer-me o alívio de confessar que também já passou por experiência semelhante. É notório que as pessoas, quando vivenciam uma experiência demasiadamente insólita, ficam constrangidas de relatar o que viveram por temerem a fama de falastronas ou pior, doidas.

Sem mais delongas, vamos ao que interessa. Deitei-me na cama para dormir ontem mais cedo que o habitual, meita-noite. Havia terminado meu trabalho no meio da tarde e gastara o resto do dia num barzinho das redondezas, lendo jornais e o livro A Outra Volta do Parafuso, de Henry James, adquirido por mim, no mesmo dia, pela inacreditável bagatela de 1 real, num sebo de rua ali perto.

À noitinha, vim pra casa, tomei um banho, assisti os jornais da tv, naveguei um pouco pela internet e logo comecei a sentir muito sono, efeito natural das cervejas ingeridas à tarde.

A Priscila estava fora, com um grupo de turistas franceses. Chegou por volta da meia noite e já me encontrou dormindo. Ela me contou que ficou viajando na internet algumas horas e depois foi se deitar a meu lado.

De madrugada, eu acordei com o ruído de teclado, quer dizer, de alguém digitando num teclado, muito rápido. Pelo silêncio absoluto que vinha da rua, constatei que devia ser muito tarde, quase de manhã, e estranhei o fato da Priscila ainda estar acordada. Ia voltar a dormir quando, horrorizado, verifiquei que a Pri estava ali, na cama, dormindo profundamente.

Então, quem estava ao teclado? Eu moro num conjugado, ou kitchennette, dividido ao meio por uma cortina vermelha. Na salinha de entrada, temos uma cozinha americana, a geladeira e a mesa do computador. Do outro lado da cortina, o sofá cama, onde dormimos, a tv e o armário de roupas.

Fiquei paralisado por muitos segundos, procurando em vão acordar do que eu achava fosse um pesadelo. O ruído prosseguia. Às vezes paráva, como se a pessoa tivesse usando apenas o mouse. Dava pra ouvir os clicks.

A essa altura eu sentia um enorme frio na barriga. Passando mal de medo. Mas aí lembrei que podia ser uma amiga da Pri, que ela trouxera sem me avisar, e que agora estava escrevendo em nosso computador. Aliviado com essa hipótese, única explicação plausível, perguntei:

- Ei, quem está aí?

Minha voz soou estranha, trêmula, nitidamente nervosa, por mais que eu tivesse tentado disfarçar o mal estar. Não houve resposta. O ruído do teclado não foi interrompido. Perguntei de novo, num tom mais calmo, procurando afetar o máximo de tranquilidade:

- Ei, quem tá aí na sala?

Nada. Levantei-me. Não conseguia pensar em nada. Sentia-me fraco. Fui até a sala e deparei com uma figura absolutamente desconhecida. Era um homem da minha altura, um metro e oitenta, nem gordo nem magro, pele morena e cabelos pretos, um verdadeiro mestiço brasileiro, como eu. Aparentava ter uns trinta anos e vestia jeans e uma camisa preta de botão. Não fosse um intruso, pareceria inofensivo.

- Quem é você? - indaguei, indo na direção da cozinha pra pegar uma faca.

Ele me olhou de lado com um sorrisinho irônico, deu uns cliks no mouse e voltou a escrever.

Tonto de confusão e medo, alcancei a pia e peguei a faca, que escondi atrás de mim. Observei sua cintura e mãos, à procura de alguma arma, mas não vi nada. Encorajado por isso, falei mais alto:

- Saia já da minha casa, seu... seu... maluco!

O sorrisinho irônico dele dissipou-se; rodou a cadeira giratória pro meu lado e me encarou. Eu senti um calafrio perpassando todo meu corpo: conhecia aquele cara de algum lugar.

- Te conheço? - perguntei.

Ele me olhou de alto a baixo e falou pela primeira vez:

- Nunca pensei que você fosse assim. Patético.

A voz era grossa, aveludada, um pouco rouca; não sei se foi o tom sarcástico... mas aquelas palavras calaram fundo em mim, irritando-me fortemente. Quem era esse sujeitinho que invadia minha casa para me ofender? Mostrei a faca.

- Guarda essa faca, Miguel. Não sabe que eu sou, cara? Eu sou a tua persona literária. Não acredita? Ué, por tanto tempo você implorou para que eu surgisse... Um dia até chorou... Disse que nunca seria um escritor de verdade senão encontrasse sua persona literária.

Minhas pernas amoleceram. Aquilo só podia ser loucura. Tenho histórico na família. Um tio esquizofrênico. Quando moleque, fui visitá-lo várias vezes no hospício. Sempre temi que acontecesse comigo, mas nunca pensei que a coisa viesse assim, de forma tão direta, tão...

- Sei o que você está pensando. Que está louco. É o que todos pensariam, meu caro, numa situação dessa. Mas não é o caso. Acredite em mim. Você está completamente normal. Eu sou a sua persona literária. E mais, já comecei a escrever o seu romance. Olhe aqui, já temos dez páginas escritas.

Ele apontou para o monitor e, com o mouse, fez rolar as páginas escritas no editor de texto.

- Eu tinha que vir em pessoa, Miguel. Não dava mais para esperar você me "incorporar". Você é muito preguiçoso. Várias vezes, quando eu achava que seria o meu momento, você calçava os chinelos e ia pro botequim, beber cerveja ou coisa que o valha. Quantas vezes! Cansei. Eu tenho que viver porra!

De tão nervoso, eu senti vontade de rir e, de fato, soltei uma risada que mais parecia uma tosse. O frio na barriga tinha aumentado. Eu não sabia o que fazer. Apenas olhava, estupidamente, aquela aparição esdrúxula. Aquele demônio.

- Não fique assim, irmão, tudo vai dar certo. Eu simplesmente vou escrever o seu romance, assim como fizeram as personas literárias de John Fante, de Bukóswski, do Mirisola, depois vou embora. Você terá seu livro. Possivelmente, poderá até ganhar prêmios. Com certeza, seu prestígio social vai aumentar exponencialmente. Agora sim, você poderá conversar de igual para igual com todos os escritores brasileiros com a segurança de quem escreveu uma grande obra literária!

Eu estava meio em transe. Não sei bem porque eu fiz aquilo. Alguma coisa naquela persona me desagradou profundamente. Aproximei-me dela e enfiei-lhe a faca no peito, no lugar que eu supunha ser o coração. Enterrei a faca bem fundo e a deixei lá.

A persona me lançou um olhar de perplexidade. Eu sabia o que ela pensava. Ela não compreendia a razão de um escritor matar a própria persona literária. Eu também não entendia. Só sei que me sentia profundamente aliviado. Livre.

Conforme o sangue vazava de seu corpo, ela ia desaparecendo, ficando cada vez mais transparente, até sumir de vez. Eu me sentei na cadeira e, sem me dar ao trabalho de olhar o que estava escrito na tela, apaguei o texto. Depois apaguei o arquivo, inclusive da lixeira.

Quero que as personas literárias se danem, pensei, antes de voltar a dormir.

Filosofia do café solúvel (em gerúndios ascendentes)

Queria ser mais honesto comigo, mais cínico em meus delírios. Aliás, honestidade e cinismo tem origem na mesma palavra em aramaico, sabiam? Realizei algumas experiências meio bestas, assimétricas: porres solitários, leitura de clássicos, observação de coelhos esfolados (depois de fodidos). Apud Mirisola, dei para vomitar estrogonoffs em melancólicas tardes de agosto e estrangular crianças. Na esquina da Maria Antônia com a Consolação, pensei em sequestrar uma menina que chorava ao lado da mãe. Não fui ao show dos Stones em Copa e, desesperado, decidi apelar: relembrei antigos casos de amor. Horrível.

Ela andava aborrecida porque eu não escrevia sobre nossa história. Tenho um bloqueio contra isso. A troco de quê conspurcar a relação com meu fracasso literário? O amor, pra mim, tinha muito a ver com café solúvel e pão com manteiga, às três da manhã. Talvez eu explique isso adiante.

Veja só, com vinte anos eu tinha paixões fulminantes por garotas que passavam na rua. Qualquer sorriso, o mínimo gesto de simpatia, me envenenavam de morbidez romântica. E lá ficava eu, apaixonado como um chimpanzé. Esquizóide, totalmente. Eu era louco, cara, um enfant terrible de merda .

Por essas e outras, falar de amor não dá. Amor se vive assim, assim, às escondidas. Assistindo filme francês, fazendo longas caminhadas, tomando chuva, realizando viagens malucas para Arraial do Cabo, dormindo no colchonete durante um ano, degustando miojo com elegância de artista incompreendido.

Droga, essas coisas me atrasaram. O romantismo babaca, a mania de ficar triste, o escapismo da cerveja e, naturalmente, o café solúvel. Maldito café solúvel!

No início dos anos 90, eu queria ser roqueiro. Eu e um chapa criamos a banda Ratos de Bar e compomos vinte músicas, inclusive alguns pequenos sucessos universitários, como Acidente de Moto e Noites de Inverno. Até que um cara-dono de um estúdio no Rio Comprido engatilhou sua opinião na minha testa: cara, você não toca nada. Fiquei calado, ferido de morte, máscara firme no rosto, bebendo a cerveja que ele nos oferecera.

Naquele momento, eu podia dar uma de Robert Jonhson, sumir por uns tempos, fazer um pacto, e voltar gênio, vingativo. Mas decidi que o melhor era desistir da música e escrever. A merda foi o café solúvel, que estragou tudo.

O amor, baby, prefiro vivê-lo, suave e intensamente. Caçando passarinhos e os lambendo, vivos, bem devagar. Bebendo uísque pelo gargalo, com calma de bêbado profissional. Sobre o café, não dou explicações; é o pequeno mistério dessa noite.

Os porres no bairro de Fátima, bem, insistirei neles. Até agora não me inspiraram porra nenhuma, em termos literários; mas valem pelas filosofias que eclodem entre a quarta e a quinta antartica, antes de vazarem pelo ralo do mictório. Triste pra caralho isso, o esquecimento; ou talvez seja necessário.

- O porre é o botão "reset" da alma.

Além disso, nada mais acintosamente humano que o esquecimento e a ressaca. Infelizmente, também é humano ver mulheres atropeladas por caminhões de gás, tendões estraçalhados por bombas clusters, embora, andei pensando, no fim das contas, alguns pirralhos sobrevivem ao tiroteio, pirralhos azuis, lilases, amarelos. Vale o mesmo para velhas desonestas, que roubam gerânios negros e xepa de feira, criam gatos fedidos e neuróticos e bebem - ó deuses do jack daniels - café solúvel.

A história termina sem conclusões, com parasitas rastejando em minhas costas e o autógrafo de Fagner no álbum da família; longe, longe, a gente bebendo - com doses excessivas de gerúndio - caipirinhas, Dylan cantava I shall be released, apenas isso (dinheiro no bolso, claro): nós mesmos, dois loucos brindando ao nosso amor - apenas levemente ferido por clichês - e à existência e maldição do café... ah, do café e seus mistérios...

Todas as histórias já foram contadas? Não necessariamente

Na entrevista para o Globo, a escritora Marcia Denser se alinha com a turma da linguagem pura, ao afirmar que "todas as histórias já foram contadas" e que "o importante na literatura não é o conteúdo". A turma em questão é numerosa e densa. Reúne autores que inclusive não gostariam de ser colocados na mesma sala. Declarações bem parecidas podem ser colhidas em livros e entrevistas de Ruffato e Mirisola, e no mesmo Prosa & Verso que publicou a matéria sobre a autora de Caim (Editora Record), há uma resenha bem interessante de Flávio Izhaki sobre o novo livro de Evandro Affonso Ferreira, Catrâmbias! (Editora 34), na qual o Izhaki comenta justamente a opção de Ferreira pelo experimentalismo sintático.

Essa escola tem representantes de peso na literatura ocidental, a começar por Faulkner e James Joyce. Mesmo quem não gosta desses dois, tem que admitir a importância deles na renovação do romance moderno. Marcia Denser, por exemplo, é admiradora veemente da obra de Faulkner.

Então, será mesmo que "a história" acabou? Que a única literatura que presta, com letra maiúscula, que merece ganhar prêmios e ser estudada em universidades, será a literatura de linguagem?

Ontem estava conversando com um amigo, o artista plástico Hélcio Barros, um pessimista radical assumido e ele respondia nossas perguntas com um sábio: "não necessariamente". Brincamos que essa resposta serviria para todos os questionamentos do mundo. Igual a ela somente o célebre "ou não" de Caetano.

Pois bem, copio a resposta do amigo Hélcio. Não necessariamente.

Em primeiro lugar, nota-se uma profunda (e crescente) clivagem entre a literatura comercial, que vende muito (O caçador de Pipas, Quando Nietzsche Chorou, Código Da Vinci, etc) e a LITERATURA (na qual incluo trabalhos muito bons e ousados, mas também muito lixo pretensioso, de baixíssimo valor artístico) que vende cada vez menos.

Na literatura comercial, também se pode encontrar coisa boa, embora não para pedantes refinados e bêbados como são quase todos os literatos (incluindo eu). O povo gosta, fazer o quê? E olha que esse "povo" não é o mesmo que recebe o Bolsa Família, mas classe média e alta, enfim gente que tem muito mais dinheiro que os próprios "críticos" e "escritores", geralmente, têm - sobretudo se vivem das mixarias que jornais e revistas pagam pelas resenhas.

Sem mais delongas, discordo da opinião da Denser. Eu me considero um dos últimos românticos a acreditar no valor da história e que ela ainda tem e terá uma importante função estética dentro do texto LITERÁRIO. Não será mais soberana, como já foi, mas compartilhará o poder, dentro do texto, com a originalidade e o estilo.

Eu gosto de textos com história. Prefiro Doistoiésvki à Faulkner; Proust à Joyce. Até hoje curto ler Conan Doyle e suas intrigas policiais mirabolantes. Procuro sempre estar atualizado quanto aos novos autores policiais norte-americanos.

Mais que isso, tenho fé de que somente a história, ou enredo, poderá libertar a LITERATURA do gueto. Claro que, para que isso se concretize, será preciso novos autores das letras nacionais. Alguém que crie histórias muito boas e as narre de uma forma genial. Não digo que precisamos de um Messias, mas se for o caso, que pelo menos seja um de acordo com essa lenda aqui.

De novo na Roosevelt

"camisinha usada é ressaca de caralho esclarecido", MM



Neste sábado, o re-lançamento dos livros do Mirisola reuniu uma cambada de escritores na praça Roosevelt. Legal observar o pessoal se encontrando sem objetivo determinado, sem pretensão de criar nenhum "movimento", sem compromissos mútuos, apenas o prazer e a liberdade de estar juntos, tomar umas geladas, e fazer o velho e bom tráfico de idéias - o que alguns também denominam "filosofar", ou simplesmente "falar merda".

Aviso aos amigos que se confundiram: não estou morando em São Paulo. Só estive lá uns dias. Ontem, no evento organizado pelo Claudinei Vieira (que rolará todo último sábado do mês, das 14 às 18), conheci mais uma pá de gente e re-encontrei alguns novíssimos brothers (vejam como meu vocabulário se apaulistou).

O Mirisola, daqui em diante chamado O AUTOR, subiu à sua quitinete de marfim e achou um Buchanan que, generosamente, botou na roda. Não durou muito, mas foi bem degustado, sobretudo pelo Douglas Kim, que pegou a garrafa e saiu correndo para o meio da praça, tentando beber tudo pelo gargalo. Foi perseguido furiosamente por alguns dos presentes, enquanto Marcelo Montenegro recitava belíssimos poemas, ao ritmo místico e onomatopeico da guitarra de Daniel Galera.

Enfim, o uísque foi recuperado e o famigerado coreano amarrado num poste em frente ao bar, de onde passou a vociferar obscenidades (segundo informaram conterrâneos continentais presentes) em sua língua materna.

Camilla Lopes se divertia botando as mirisoletes pra correr e o AUTOR discorria sobre seu ceticismo radical em relação ao elefantinho da Cica e conjecturando, gravemente, sobre quem seria a velhinha da Casa do Pão de Queijo. E perguntava: "onde está aquele filhadaputa do Reinaldo de Moraes?"

De repente, todos os olhares se voltaram para uma das mesas. Diante do público estarrecido, Pindoca e Picunha beijavam-se na boca, um beijo incendiário, nitroglicerina pura. Até Kim parou de berrar em coreano e contemplava a cena em total perplexidade (ciúmes?).

Indignado, Vieirinha foi lá e interrompeu o idílio. "Vocês estão estragando a festa porra!". Os dois sorriram, envergonhados, e concordaram em segurar a tesão (no feminino, como prega o AUTOR) por mais algumas horas.

As coisas foram voltando ao normal. Os berros de Kim haviam alcançado harmonia com a música e a poesia. Alguém teve pena e foi lá dar um pouco de uísque pra ele. Enquanto isso, a Marcia Denser e eu travávamos uma dura discussão, ela defendendo Faulkner e menosprezando Dostoiésvki, eu dizendo que o único livro de Faulkner que prestava era Santuário e que o velho Dosti é que era O CARA. Até que me dei por vencido, beijei-lhe as mãos e concentrei-me no que restava do Buchanan.

O AUTOR continuava falando sobre o elefantinho da Cica e a velhinha da Casa do Pão de Queijo, até que alguém lembrou de lhe perguntar o que faria com o dinheiro do Jabuti, caso fosse o vencedor deste ano. O AUTOR então se ergueu, lentamente, olhou para um lado e outro, olhos brilhando de malícia, como se tivesse esperado anos para dizer aquilo e soltou:

- VOU MANDAR O R., O M., O N. E O P. TODOS ELES PARA A PUTA QUE OS PARIU! É ISSO MESMO, VOU MANDAR TODO MUNDO MANDAR NO CÚ! INCLUSIVE VOCÊS TODOS AQUI.

Todos ficaram muito constrangidos, mas ninguém ousava dizer palavra. Ouviu-se uma voz doce:

- Até eu, amor?

Ao identificar a voz, foi como se O AUTOR tivesse recebido uma descarga elétrica. Voltou-se e viu a sua AMADA, sorrindo carinhosamente. Ele abriu um sorrisão e disse:

- VOCÊ NÃO, VOCÊ NÃO.

Os dois se abraçaram e Camilla levou o AUTOR para seu apartamento, que fica dezessete andares acima do bar. Eu decidi soltar o Kim, que parecia estar bem mais calmo. Pedi, e fui atendido, para que ele não me aplicasse letais golpes de kung-fu. Conversamos sobre literatura - ele me contou que meu problema era levar as coisas a sério demais, a pensar muito, isso prejudicava meu texto e tal. Chegou mesmo a ficar furioso quando ousei falar que o Fome, do Hansum, também ficou conhecido fora dos meios literários pelas descrições precisas e minuciosas dos sofrimentos causados pela falta de comida. Nem pude falar em Josué de Castro. O Vieirinha chegou e acrescentou que o único texto meu do qual ele realmente gostou havia sido A RESENHA (o que não falei é que até A RESENHA, a meu ver, também não era lá essas coisas).

Durante todo o tempo (tirando o episódio do rapto do Buchanan), Bortolotto observou a confusão com serenidade budista, mas sabíamos que torcia para que qualquer um de seus MALAS prediletos chegasse para que pudesse exercitar seus punhos de caminhoneiro. Mais tarde, nos confessou que sua sede de boxe era tão grande que estava aceitando bater até em MALA MULHER, principalmente se fosse uma certa fulana que tentou queimar um amigo seu (e o próprio Bortolotto, por tabela) que trabalha na Folha, só porque o cara tinha assistido a uma peça do B, gostado e escrito uma crítica positiva.

Sentados junto ao balcão, Bactéria e Trovão morriam de rir. Mesmo quando fui lá e falei pro Trovão que eu ia pendurar a conta, o Trovão continuou rindo. Achei legal da parte dele. O Bactéria me cumprimentou pela RESENHA e falou sobre seus planos de montar uma filial no Rio de Janeiro. Enquanto falávamos sobre como os sebistas do Rio, em sua maioria, não tinham noção do valor dos livros que vendiam, ofertando às vezes verdadeiras raridades por preços irrisórios, um vento frio, terrivelmente frio, provocou calafrios em todos nós.

Uma sensação muito estranha pareceu invadir cada um dos presentes. Ninguém mais falava, só nos olhávamos nos olhos um dos outros e víamos uma espécie de pavor irracional. Seria o PCC? Seria o Alckmin? Alguém sussurrou que era o novo prefeito de São Paulo, Kassab, que vinha conhecer o Satyros 2. Felizmente, era só boato. Entretanto, a sensação ruim continuava. Alguém viu um vulto correndo pra cá e pra lá nos escuros da praça Roosevelt. Todos voltaram sua atenção para o local e, de fato, havia algo se movimentando.

- Esquisito, comentou alguém, parece que o vulto é... AZUL!

A frase caiu como uma bomba. Ouviu-se um "uuuhhh" geral. As mulheres começaram a gemer. Alguns, entre eles Picunha e Pindoca, saíram correndo, desabalados, gritando "o horror, o horror". Eu virei a Salinas que estava na mesa, e que nem era minha. O silêncio aterrorizado de todos era o silêncio que sucede a constatação de que algo terrível aconteceu. Enfim ouviu-se a voz de Bortolotto, trêmula, mas numa altura inteligível a todos no bar.

- Meu Deus, não é possível. É...
- Você sabe o que é isso, Bortolotto? - perguntou a Fernanda, olhos arregalados.
- Sei, mas não acredito. Não pode ser.
- Porra, diz logo cara, o que é isso? - eu insisti.

O vulto parecia se aproximar, trazendo um vento frio que gelava a alma... e aquele azul-claro mortiço, doentio, cintilando sinistramente por trás dele.

Enfim, Bortolotto falou, numa voz desconsolada:

- É ele, Jesus! Meu pai, é ele! O FILHO MORTO DA PRAÇA ROOSEVELT!



(essa é uma crônica ficcional, com suaves pinceladas de realidade. A cena do beijo, por exemplo, assim como o são as peripécias de Kim, é fictícia; foi incluída justamente como um toque de absurdo. A única coisa realmente verdadeira na crônica foi a aparição do fantasma azul)

Um Filho Morto na Praça Roosevelt

Não, Mirisola, não vou vender essa resenha por trezentos reais para o Prosa e Verso do Globo. Já bastam os “coelhos despachados a pontapés” da minha vida, oscilando entre o tédio da Fispal e a bebedeira na praça Roosevelt. Até porque eles nunca iriam pagar. Aliás, o que eles publicam ali não é resenha. É informe publicitário.

Tudo porque resolvi reler o livro, e o negócio bateu mais forte que a primeira vez – olhe que já tinha sido foda (eu nunca acreditei em primeiras vezes, as melhores sensações sempre vêm depois). Talvez porque estou em São Paulo, me sentindo às vezes um caipira, prestando muita atenção aos carros que vem de todas as direções. As encruzilhadas de sete pontas.

Sabe, cara, eu sempre achei – o que foi o meu erro capital – que a tristeza poderia me redimir. Ou seja, se eu ficasse muito triste, eu seria perdoado. Da minha covardia, principalmente. Essa mania de pedir desculpas. Fiz isso de novo, há pouco, depois de jurar que eu seria diferente. É foda... mas foda-se. Pra ser livre, a gente tem que brigar um pouco, fazer umas sacanagens, decepcionar os tolinhos e magoar os velhos frustrados.

Um escritor disse que toda literatura nasce da humilhação, ao que não dei muita bola. Me pareceu uma dessas frases de efeito. No entanto, a citação me parece pertinente ao Azul, um livro que, a meu ver, trata basicamente do sentimento de humilhação.

Todavia o escritor “é um bicho que fode”, e também um impotente (sim porque, infelizmente, a literatura nunca será uma foda em si), que se desespera porque vê o amor vencer o sexo e o amor, ah, o amor – o amor é uma merda. Bom mesmo é foder sem amor, mesmo fodendo aquela que você ama.

Eu quero escrever uma resenha do Azul sem falar da classe média e seus temores & vergonhas & podridões e não vou não vou. Foda-se a classe média. Ou antes, viva a classe média. Já chega meus ARTIGOS POLÍTICOS, que transferiram a dor que eu sentia no estômago (úlceras anti-colunismo, que besteira) para os tendões do meu braço direito. Voltei à cerveja.

Aliás, o que a classe média tem a ver com o teu livro, mêu? Nada, nadica, nonada. O teu livro – na visão que eu tive, enquanto descia a rua da consolação, pensando bem rápido, as palavras borbulhando, sem sequer imaginar que, horas mais tarde, tomaria uma surra na sinuca do Bortolotto – o teu livro é uma sinfonia de Stravinsky, ou melhor, um solo de Charlie Parker, e os caras que não perceberam isso são uns boçais. Os caras reconheceram o próprio rabo, isso sim, porque o rosto que emerge do livro não é do autor, é o rosto em si. Ou antes, o próprio cu. O cu em si. Um cu arrombado e sujo de sangue e fezes. O livro é música, cara, música clássica produzida com uma sintaxe louca, apaixonada, uma sintaxe bêbada, impossível, com bolsas embaixo dos olhos.

No dia seguinte, depois que terminei de ler o livro na cama, desci e fiquei na frente do hotel, bestando, olhando a rua, olhando uma garotinha que segurava o braço da mãe e chorava quietinha. Ela tinha trancinhas, a mãe era nordestina, nem ligava pro choro da filha. Tão triste, tão triste, tão humano, mas nem a tristeza me redimia. Não descansaria enquanto não botasse pra fora pelo menos uma parte da caralhada de coisas que pensei, subindo e descendo a rua augusta, bebendo umas cachaças no bar do Trovão, rodopiando, em transe, pelos corredores idiotas do parque de exposições Anhembi, fraudando a sala de imprensa de uma feira de alimentos para falar de literatura (o pior é a bicha que não pára de gritar histericamente do meu lado, não respeita nem a porra de uma sala de imprensa, o escroto).

Você reclamou de uns caras que vinham tentando te imitar. É melhor você se acostumar com isso. Picasso enlouqueceria se fosse implicar com todo mundo que resolveu fazer cubismo depois dele. Vale o mesmo para Chuck Berry. Eu mesmo meio que tô te imitando nessa resenha, sendo que, ao menos, tenho a elegância de assumir publicamente.

Voltando à humilhação. Porra, me senti humilhado. Ainda tô assim. Senti vontade de queimar tudo que escrevi. Começar de novo, sei lá. Talvez ainda haja tempo. Não vou te imitar. Aliás, antes que eu esqueça, vá se fuder (na eventualidade de você ter pensado isso). Contudo, a arte, depois que é publicada, vira patrimônio coletivo. Van Gogh não seria Van Gogh se não estudasse os pintores contemporâneos de Montmartre. O velho Dosty não seria quem foi não fosse um leitor assíduo de Tostói, Gogól e Puschkin, dos quais ele foi o brilhante continuador. A humilhação, disse outro escritor, não advém da vergonha por um erro pessoal, cometido acidentalmente, mas pela constatação de que somos o que somos e não há como mudar isso.

Ah, meu Deus, “que bosta, puta que pariu”, a liberdade sintática, estilística, narrativa do Azul do Filho Morto representa um marco importante na literatura brasileira e sabe porquê?

Antes, uma observação: sei que você não gosta muito do Rosa, e faz bem, mas eu gosto pra caralho daquele sertanejo sabidão, e no entanto achava que o filhodaputa tinha matado boa parte das minhas esperanças. Agora me sinto mais leve, embora humilhado. E triste pelos coelhos capotados, a morte do gente boa, a morte do meu pai, essa dicotomia dilacerante entre uma escrita de merda (às vezes) e uma razoável e firme e cruel intuição literária.

Bem, é um marco porque consolida uma liberdade que vem sendo buscada há tempos pelos escritores, uma liberdade não gratuita, um surrealismo refletido, existencial, realista mesmo. É melhor que (com perdão aos que gostam) as bobeiras holliwoodianas dum Agripino de Paula. Mais verdadeira (ô palavrinha besta, mas aqui vem com um sentido de autenticidade, força, verossimilhança) que os delírios non-sense do Campos de Carvalho. Sobretudo ajuda a libertar o meio literário da influência (não me incluo entre as vítimas dessa influência) dos analfabetos auto-promocionais e dos burocratas da pirotecnia virtual.

“Eu devo ser uma ameaça pra vida saudável”, diz você no livro. Bem, isso é mentira. Ou melhor, um paradoxo, um daqueles antigos e deliciososo paradoxos da literatura. Tão antigos quanto a maçã (uma vaga num puteiro, pois sim; ou seria um livro?) que a serpente & cafetina & tutora ofereceu à Eva.

Afinal, não é o tipo de saúde que eu quero. Saúde de hamsters de laboratório. Porra, o Azul é a celebração da doença! Nascemos mongolóides. Um bando de retardadinhos empilhando cubos e “lambendo azulejos”. Só depois aprendemos a queimar a bunda das putas e atropelar mendigos - isso sem perder a aura santa dos estetas canalhas. Aí começa a verdadeira merda.


PS técnico: Azul do Filho Morto, de Marcelo Mirisola, foi relançado há pouco pela Editora 34. Está disponível nas principais livrarias do país, porém o mais honesto é comprar no Sebo do Bactéria, na praça Roosevelt.

glória bêbada

a morte, a ressaca, o tédio
chegam assim, embebidos
na angústia inesperada (ou nem tanto)
das tardes em São Paulo
e no entusiasmo inútil
dos sonhos mortos
(crianças acéfalas que apodrecem
na porta das casas dos "homens de bem")

não, definitivamente
não é apenas a cerveja
que me resolve metafisicamente
alguns tipos de cachaça (salinas, por exemplo)
também me concedem
minutos decisivos
de glória bêbada

a glória anônima
insensata
incoerente
dos bêbados

mas enfim, o que é o bêbado
senão metáfora
do homem livre?

Livro tratado

Dei um trato no meu livro de poemas virtual. Mudei o título, cortei uns poemas, alterei versos. Quem tiver interessado numa poesia contemporânea clica aqui e lê. Ou então, vai na livraria virtual, aí do lado direito, e escolhe o livro de poemas Ao sol da minha crise.

PS: o link do livro não está mais disponivel. Qq coisa entre em contato comigo pelo email.

Agenda cultural

A Lapa continua surpreendendo. Quando eu achava que não tinha mais novidade na área, eis que ressurge o Beco do Rato, com atividades de quarta à sábado. Minha dica é a quinta-feira, quando rola um chorinho das oito às onze, e depois exibição de curtas num telão instalado aos fundos do beco. É um lugar antigo, escuro, com o cheiro dos séculos passados, as ruas estreitas, de pedras, quase não têm circulação de carros. O Beco fica ali no final da Joaquim Silva (na saída da Glória, perto das Termas Rio Antigo). A frequência tem sido nobre, músicos, poetas, escritores, cineastas, mulheres bonitas, entremeados, é claro, com vagabundos e malandros de toda espécie, conforme a milenar tradição lapiana.

Quarta sim quarta não tem evento de poesia. Nessa próxima quarta, 5 de julho, não vai ter. Mas na próxima semana tem. O único senão é o preço da cerveja, 3,50 todas as marcas. Uma espécie de couvert artístico embutido. Nada é perfeito. Estive lá na quinta-feira passada, junto com meu amigo Juliano Guilherme, o pintor da tela aí ao lado, mais um colega dele, além da minha amável secretária (patroa nas horas vagas). Depois apareceram dezenas de amigos e conhecidos, entre eles muitos representantes da marginália ilustre das letras e das artes cariocas.

Como já disse, o Beco fica próximo da esquina onde está a famosa Termas Rio Antigo. Nessa mesma esquina, do outro lado da rua, há um bar onde eu fui beber duas cervejas com um amigo, pagando menos. Assistimos o fim do expediente das prostitutas, algumas de bom humor outras nem tanto. Teve uma morena de olhos verdes que tocou meu colega, solteiro. A única, pra falar a verdade, que justificava o preço de R$ 150 a R$ 200 que, segundo ouvimos falar, cobra a casa pela entrada.

Lá pelas tantas, um carro estacionado ao lado da Termas teve o alarme disparado. O som chegava ao Beco, incomodando, principalmente eu, que odeio visceralmente o som de alarme de carro. Pra mim, devia ser proibido. Foda-se que é para a proteção da propriedade. É uma poluição absurda. Que se inventem outra, mais racional, não um esporro federal que acaba com o humor de qualquer cidadão dotado de um tímpano; quanto mais de dois tímpanos, como é o meu caso.

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