Uma aparição inusitada

Aconteceu uma coisa tão incrível comigo esta noite que sinto necessidade de compartilhar com os milhares de leitores deste blog, na esperança de que alguém possa me fornecer explicações razoáveis sobre o fato, ou trazer-me o alívio de confessar que também já passou por experiência semelhante. É notório que as pessoas, quando vivenciam uma experiência demasiadamente insólita, ficam constrangidas de relatar o que viveram por temerem a fama de falastronas ou pior, doidas.

Sem mais delongas, vamos ao que interessa. Deitei-me na cama para dormir ontem mais cedo que o habitual, meita-noite. Havia terminado meu trabalho no meio da tarde e gastara o resto do dia num barzinho das redondezas, lendo jornais e o livro A Outra Volta do Parafuso, de Henry James, adquirido por mim, no mesmo dia, pela inacreditável bagatela de 1 real, num sebo de rua ali perto.

À noitinha, vim pra casa, tomei um banho, assisti os jornais da tv, naveguei um pouco pela internet e logo comecei a sentir muito sono, efeito natural das cervejas ingeridas à tarde.

A Priscila estava fora, com um grupo de turistas franceses. Chegou por volta da meia noite e já me encontrou dormindo. Ela me contou que ficou viajando na internet algumas horas e depois foi se deitar a meu lado.

De madrugada, eu acordei com o ruído de teclado, quer dizer, de alguém digitando num teclado, muito rápido. Pelo silêncio absoluto que vinha da rua, constatei que devia ser muito tarde, quase de manhã, e estranhei o fato da Priscila ainda estar acordada. Ia voltar a dormir quando, horrorizado, verifiquei que a Pri estava ali, na cama, dormindo profundamente.

Então, quem estava ao teclado? Eu moro num conjugado, ou kitchennette, dividido ao meio por uma cortina vermelha. Na salinha de entrada, temos uma cozinha americana, a geladeira e a mesa do computador. Do outro lado da cortina, o sofá cama, onde dormimos, a tv e o armário de roupas.

Fiquei paralisado por muitos segundos, procurando em vão acordar do que eu achava fosse um pesadelo. O ruído prosseguia. Às vezes paráva, como se a pessoa tivesse usando apenas o mouse. Dava pra ouvir os clicks.

A essa altura eu sentia um enorme frio na barriga. Passando mal de medo. Mas aí lembrei que podia ser uma amiga da Pri, que ela trouxera sem me avisar, e que agora estava escrevendo em nosso computador. Aliviado com essa hipótese, única explicação plausível, perguntei:

- Ei, quem está aí?

Minha voz soou estranha, trêmula, nitidamente nervosa, por mais que eu tivesse tentado disfarçar o mal estar. Não houve resposta. O ruído do teclado não foi interrompido. Perguntei de novo, num tom mais calmo, procurando afetar o máximo de tranquilidade:

- Ei, quem tá aí na sala?

Nada. Levantei-me. Não conseguia pensar em nada. Sentia-me fraco. Fui até a sala e deparei com uma figura absolutamente desconhecida. Era um homem da minha altura, um metro e oitenta, nem gordo nem magro, pele morena e cabelos pretos, um verdadeiro mestiço brasileiro, como eu. Aparentava ter uns trinta anos e vestia jeans e uma camisa preta de botão. Não fosse um intruso, pareceria inofensivo.

- Quem é você? - indaguei, indo na direção da cozinha pra pegar uma faca.

Ele me olhou de lado com um sorrisinho irônico, deu uns cliks no mouse e voltou a escrever.

Tonto de confusão e medo, alcancei a pia e peguei a faca, que escondi atrás de mim. Observei sua cintura e mãos, à procura de alguma arma, mas não vi nada. Encorajado por isso, falei mais alto:

- Saia já da minha casa, seu... seu... maluco!

O sorrisinho irônico dele dissipou-se; rodou a cadeira giratória pro meu lado e me encarou. Eu senti um calafrio perpassando todo meu corpo: conhecia aquele cara de algum lugar.

- Te conheço? - perguntei.

Ele me olhou de alto a baixo e falou pela primeira vez:

- Nunca pensei que você fosse assim. Patético.

A voz era grossa, aveludada, um pouco rouca; não sei se foi o tom sarcástico... mas aquelas palavras calaram fundo em mim, irritando-me fortemente. Quem era esse sujeitinho que invadia minha casa para me ofender? Mostrei a faca.

- Guarda essa faca, Miguel. Não sabe que eu sou, cara? Eu sou a tua persona literária. Não acredita? Ué, por tanto tempo você implorou para que eu surgisse... Um dia até chorou... Disse que nunca seria um escritor de verdade senão encontrasse sua persona literária.

Minhas pernas amoleceram. Aquilo só podia ser loucura. Tenho histórico na família. Um tio esquizofrênico. Quando moleque, fui visitá-lo várias vezes no hospício. Sempre temi que acontecesse comigo, mas nunca pensei que a coisa viesse assim, de forma tão direta, tão...

- Sei o que você está pensando. Que está louco. É o que todos pensariam, meu caro, numa situação dessa. Mas não é o caso. Acredite em mim. Você está completamente normal. Eu sou a sua persona literária. E mais, já comecei a escrever o seu romance. Olhe aqui, já temos dez páginas escritas.

Ele apontou para o monitor e, com o mouse, fez rolar as páginas escritas no editor de texto.

- Eu tinha que vir em pessoa, Miguel. Não dava mais para esperar você me "incorporar". Você é muito preguiçoso. Várias vezes, quando eu achava que seria o meu momento, você calçava os chinelos e ia pro botequim, beber cerveja ou coisa que o valha. Quantas vezes! Cansei. Eu tenho que viver porra!

De tão nervoso, eu senti vontade de rir e, de fato, soltei uma risada que mais parecia uma tosse. O frio na barriga tinha aumentado. Eu não sabia o que fazer. Apenas olhava, estupidamente, aquela aparição esdrúxula. Aquele demônio.

- Não fique assim, irmão, tudo vai dar certo. Eu simplesmente vou escrever o seu romance, assim como fizeram as personas literárias de John Fante, de Bukóswski, do Mirisola, depois vou embora. Você terá seu livro. Possivelmente, poderá até ganhar prêmios. Com certeza, seu prestígio social vai aumentar exponencialmente. Agora sim, você poderá conversar de igual para igual com todos os escritores brasileiros com a segurança de quem escreveu uma grande obra literária!

Eu estava meio em transe. Não sei bem porque eu fiz aquilo. Alguma coisa naquela persona me desagradou profundamente. Aproximei-me dela e enfiei-lhe a faca no peito, no lugar que eu supunha ser o coração. Enterrei a faca bem fundo e a deixei lá.

A persona me lançou um olhar de perplexidade. Eu sabia o que ela pensava. Ela não compreendia a razão de um escritor matar a própria persona literária. Eu também não entendia. Só sei que me sentia profundamente aliviado. Livre.

Conforme o sangue vazava de seu corpo, ela ia desaparecendo, ficando cada vez mais transparente, até sumir de vez. Eu me sentei na cadeira e, sem me dar ao trabalho de olhar o que estava escrito na tela, apaguei o texto. Depois apaguei o arquivo, inclusive da lixeira.

Quero que as personas literárias se danem, pensei, antes de voltar a dormir.

Filosofia do café solúvel (em gerúndios ascendentes)

Queria ser mais honesto comigo, mais cínico em meus delírios. Aliás, honestidade e cinismo tem origem na mesma palavra em aramaico, sabiam? Realizei algumas experiências meio bestas, assimétricas: porres solitários, leitura de clássicos, observação de coelhos esfolados (depois de fodidos). Apud Mirisola, dei para vomitar estrogonoffs em melancólicas tardes de agosto e estrangular crianças. Na esquina da Maria Antônia com a Consolação, pensei em sequestrar uma menina que chorava ao lado da mãe. Não fui ao show dos Stones em Copa e, desesperado, decidi apelar: relembrei antigos casos de amor. Horrível.

Ela andava aborrecida porque eu não escrevia sobre nossa história. Tenho um bloqueio contra isso. A troco de quê conspurcar a relação com meu fracasso literário? O amor, pra mim, tinha muito a ver com café solúvel e pão com manteiga, às três da manhã. Talvez eu explique isso adiante.

Veja só, com vinte anos eu tinha paixões fulminantes por garotas que passavam na rua. Qualquer sorriso, o mínimo gesto de simpatia, me envenenavam de morbidez romântica. E lá ficava eu, apaixonado como um chimpanzé. Esquizóide, totalmente. Eu era louco, cara, um enfant terrible de merda .

Por essas e outras, falar de amor não dá. Amor se vive assim, assim, às escondidas. Assistindo filme francês, fazendo longas caminhadas, tomando chuva, realizando viagens malucas para Arraial do Cabo, dormindo no colchonete durante um ano, degustando miojo com elegância de artista incompreendido.

Droga, essas coisas me atrasaram. O romantismo babaca, a mania de ficar triste, o escapismo da cerveja e, naturalmente, o café solúvel. Maldito café solúvel!

No início dos anos 90, eu queria ser roqueiro. Eu e um chapa criamos a banda Ratos de Bar e compomos vinte músicas, inclusive alguns pequenos sucessos universitários, como Acidente de Moto e Noites de Inverno. Até que um cara-dono de um estúdio no Rio Comprido engatilhou sua opinião na minha testa: cara, você não toca nada. Fiquei calado, ferido de morte, máscara firme no rosto, bebendo a cerveja que ele nos oferecera.

Naquele momento, eu podia dar uma de Robert Jonhson, sumir por uns tempos, fazer um pacto, e voltar gênio, vingativo. Mas decidi que o melhor era desistir da música e escrever. A merda foi o café solúvel, que estragou tudo.

O amor, baby, prefiro vivê-lo, suave e intensamente. Caçando passarinhos e os lambendo, vivos, bem devagar. Bebendo uísque pelo gargalo, com calma de bêbado profissional. Sobre o café, não dou explicações; é o pequeno mistério dessa noite.

Os porres no bairro de Fátima, bem, insistirei neles. Até agora não me inspiraram porra nenhuma, em termos literários; mas valem pelas filosofias que eclodem entre a quarta e a quinta antartica, antes de vazarem pelo ralo do mictório. Triste pra caralho isso, o esquecimento; ou talvez seja necessário.

- O porre é o botão "reset" da alma.

Além disso, nada mais acintosamente humano que o esquecimento e a ressaca. Infelizmente, também é humano ver mulheres atropeladas por caminhões de gás, tendões estraçalhados por bombas clusters, embora, andei pensando, no fim das contas, alguns pirralhos sobrevivem ao tiroteio, pirralhos azuis, lilases, amarelos. Vale o mesmo para velhas desonestas, que roubam gerânios negros e xepa de feira, criam gatos fedidos e neuróticos e bebem - ó deuses do jack daniels - café solúvel.

A história termina sem conclusões, com parasitas rastejando em minhas costas e o autógrafo de Fagner no álbum da família; longe, longe, a gente bebendo - com doses excessivas de gerúndio - caipirinhas, Dylan cantava I shall be released, apenas isso (dinheiro no bolso, claro): nós mesmos, dois loucos brindando ao nosso amor - apenas levemente ferido por clichês - e à existência e maldição do café... ah, do café e seus mistérios...

Todas as histórias já foram contadas? Não necessariamente

Na entrevista para o Globo, a escritora Marcia Denser se alinha com a turma da linguagem pura, ao afirmar que "todas as histórias já foram contadas" e que "o importante na literatura não é o conteúdo". A turma em questão é numerosa e densa. Reúne autores que inclusive não gostariam de ser colocados na mesma sala. Declarações bem parecidas podem ser colhidas em livros e entrevistas de Ruffato e Mirisola, e no mesmo Prosa & Verso que publicou a matéria sobre a autora de Caim (Editora Record), há uma resenha bem interessante de Flávio Izhaki sobre o novo livro de Evandro Affonso Ferreira, Catrâmbias! (Editora 34), na qual o Izhaki comenta justamente a opção de Ferreira pelo experimentalismo sintático.

Essa escola tem representantes de peso na literatura ocidental, a começar por Faulkner e James Joyce. Mesmo quem não gosta desses dois, tem que admitir a importância deles na renovação do romance moderno. Marcia Denser, por exemplo, é admiradora veemente da obra de Faulkner.

Então, será mesmo que "a história" acabou? Que a única literatura que presta, com letra maiúscula, que merece ganhar prêmios e ser estudada em universidades, será a literatura de linguagem?

Ontem estava conversando com um amigo, o artista plástico Hélcio Barros, um pessimista radical assumido e ele respondia nossas perguntas com um sábio: "não necessariamente". Brincamos que essa resposta serviria para todos os questionamentos do mundo. Igual a ela somente o célebre "ou não" de Caetano.

Pois bem, copio a resposta do amigo Hélcio. Não necessariamente.

Em primeiro lugar, nota-se uma profunda (e crescente) clivagem entre a literatura comercial, que vende muito (O caçador de Pipas, Quando Nietzsche Chorou, Código Da Vinci, etc) e a LITERATURA (na qual incluo trabalhos muito bons e ousados, mas também muito lixo pretensioso, de baixíssimo valor artístico) que vende cada vez menos.

Na literatura comercial, também se pode encontrar coisa boa, embora não para pedantes refinados e bêbados como são quase todos os literatos (incluindo eu). O povo gosta, fazer o quê? E olha que esse "povo" não é o mesmo que recebe o Bolsa Família, mas classe média e alta, enfim gente que tem muito mais dinheiro que os próprios "críticos" e "escritores", geralmente, têm - sobretudo se vivem das mixarias que jornais e revistas pagam pelas resenhas.

Sem mais delongas, discordo da opinião da Denser. Eu me considero um dos últimos românticos a acreditar no valor da história e que ela ainda tem e terá uma importante função estética dentro do texto LITERÁRIO. Não será mais soberana, como já foi, mas compartilhará o poder, dentro do texto, com a originalidade e o estilo.

Eu gosto de textos com história. Prefiro Doistoiésvki à Faulkner; Proust à Joyce. Até hoje curto ler Conan Doyle e suas intrigas policiais mirabolantes. Procuro sempre estar atualizado quanto aos novos autores policiais norte-americanos.

Mais que isso, tenho fé de que somente a história, ou enredo, poderá libertar a LITERATURA do gueto. Claro que, para que isso se concretize, será preciso novos autores das letras nacionais. Alguém que crie histórias muito boas e as narre de uma forma genial. Não digo que precisamos de um Messias, mas se for o caso, que pelo menos seja um de acordo com essa lenda aqui.

De novo na Roosevelt

"camisinha usada é ressaca de caralho esclarecido", MM



Neste sábado, o re-lançamento dos livros do Mirisola reuniu uma cambada de escritores na praça Roosevelt. Legal observar o pessoal se encontrando sem objetivo determinado, sem pretensão de criar nenhum "movimento", sem compromissos mútuos, apenas o prazer e a liberdade de estar juntos, tomar umas geladas, e fazer o velho e bom tráfico de idéias - o que alguns também denominam "filosofar", ou simplesmente "falar merda".

Aviso aos amigos que se confundiram: não estou morando em São Paulo. Só estive lá uns dias. Ontem, no evento organizado pelo Claudinei Vieira (que rolará todo último sábado do mês, das 14 às 18), conheci mais uma pá de gente e re-encontrei alguns novíssimos brothers (vejam como meu vocabulário se apaulistou).

O Mirisola, daqui em diante chamado O AUTOR, subiu à sua quitinete de marfim e achou um Buchanan que, generosamente, botou na roda. Não durou muito, mas foi bem degustado, sobretudo pelo Douglas Kim, que pegou a garrafa e saiu correndo para o meio da praça, tentando beber tudo pelo gargalo. Foi perseguido furiosamente por alguns dos presentes, enquanto Marcelo Montenegro recitava belíssimos poemas, ao ritmo místico e onomatopeico da guitarra de Daniel Galera.

Enfim, o uísque foi recuperado e o famigerado coreano amarrado num poste em frente ao bar, de onde passou a vociferar obscenidades (segundo informaram conterrâneos continentais presentes) em sua língua materna.

Camilla Lopes se divertia botando as mirisoletes pra correr e o AUTOR discorria sobre seu ceticismo radical em relação ao elefantinho da Cica e conjecturando, gravemente, sobre quem seria a velhinha da Casa do Pão de Queijo. E perguntava: "onde está aquele filhadaputa do Reinaldo de Moraes?"

De repente, todos os olhares se voltaram para uma das mesas. Diante do público estarrecido, Pindoca e Picunha beijavam-se na boca, um beijo incendiário, nitroglicerina pura. Até Kim parou de berrar em coreano e contemplava a cena em total perplexidade (ciúmes?).

Indignado, Vieirinha foi lá e interrompeu o idílio. "Vocês estão estragando a festa porra!". Os dois sorriram, envergonhados, e concordaram em segurar a tesão (no feminino, como prega o AUTOR) por mais algumas horas.

As coisas foram voltando ao normal. Os berros de Kim haviam alcançado harmonia com a música e a poesia. Alguém teve pena e foi lá dar um pouco de uísque pra ele. Enquanto isso, a Marcia Denser e eu travávamos uma dura discussão, ela defendendo Faulkner e menosprezando Dostoiésvki, eu dizendo que o único livro de Faulkner que prestava era Santuário e que o velho Dosti é que era O CARA. Até que me dei por vencido, beijei-lhe as mãos e concentrei-me no que restava do Buchanan.

O AUTOR continuava falando sobre o elefantinho da Cica e a velhinha da Casa do Pão de Queijo, até que alguém lembrou de lhe perguntar o que faria com o dinheiro do Jabuti, caso fosse o vencedor deste ano. O AUTOR então se ergueu, lentamente, olhou para um lado e outro, olhos brilhando de malícia, como se tivesse esperado anos para dizer aquilo e soltou:

- VOU MANDAR O R., O M., O N. E O P. TODOS ELES PARA A PUTA QUE OS PARIU! É ISSO MESMO, VOU MANDAR TODO MUNDO MANDAR NO CÚ! INCLUSIVE VOCÊS TODOS AQUI.

Todos ficaram muito constrangidos, mas ninguém ousava dizer palavra. Ouviu-se uma voz doce:

- Até eu, amor?

Ao identificar a voz, foi como se O AUTOR tivesse recebido uma descarga elétrica. Voltou-se e viu a sua AMADA, sorrindo carinhosamente. Ele abriu um sorrisão e disse:

- VOCÊ NÃO, VOCÊ NÃO.

Os dois se abraçaram e Camilla levou o AUTOR para seu apartamento, que fica dezessete andares acima do bar. Eu decidi soltar o Kim, que parecia estar bem mais calmo. Pedi, e fui atendido, para que ele não me aplicasse letais golpes de kung-fu. Conversamos sobre literatura - ele me contou que meu problema era levar as coisas a sério demais, a pensar muito, isso prejudicava meu texto e tal. Chegou mesmo a ficar furioso quando ousei falar que o Fome, do Hansum, também ficou conhecido fora dos meios literários pelas descrições precisas e minuciosas dos sofrimentos causados pela falta de comida. Nem pude falar em Josué de Castro. O Vieirinha chegou e acrescentou que o único texto meu do qual ele realmente gostou havia sido A RESENHA (o que não falei é que até A RESENHA, a meu ver, também não era lá essas coisas).

Durante todo o tempo (tirando o episódio do rapto do Buchanan), Bortolotto observou a confusão com serenidade budista, mas sabíamos que torcia para que qualquer um de seus MALAS prediletos chegasse para que pudesse exercitar seus punhos de caminhoneiro. Mais tarde, nos confessou que sua sede de boxe era tão grande que estava aceitando bater até em MALA MULHER, principalmente se fosse uma certa fulana que tentou queimar um amigo seu (e o próprio Bortolotto, por tabela) que trabalha na Folha, só porque o cara tinha assistido a uma peça do B, gostado e escrito uma crítica positiva.

Sentados junto ao balcão, Bactéria e Trovão morriam de rir. Mesmo quando fui lá e falei pro Trovão que eu ia pendurar a conta, o Trovão continuou rindo. Achei legal da parte dele. O Bactéria me cumprimentou pela RESENHA e falou sobre seus planos de montar uma filial no Rio de Janeiro. Enquanto falávamos sobre como os sebistas do Rio, em sua maioria, não tinham noção do valor dos livros que vendiam, ofertando às vezes verdadeiras raridades por preços irrisórios, um vento frio, terrivelmente frio, provocou calafrios em todos nós.

Uma sensação muito estranha pareceu invadir cada um dos presentes. Ninguém mais falava, só nos olhávamos nos olhos um dos outros e víamos uma espécie de pavor irracional. Seria o PCC? Seria o Alckmin? Alguém sussurrou que era o novo prefeito de São Paulo, Kassab, que vinha conhecer o Satyros 2. Felizmente, era só boato. Entretanto, a sensação ruim continuava. Alguém viu um vulto correndo pra cá e pra lá nos escuros da praça Roosevelt. Todos voltaram sua atenção para o local e, de fato, havia algo se movimentando.

- Esquisito, comentou alguém, parece que o vulto é... AZUL!

A frase caiu como uma bomba. Ouviu-se um "uuuhhh" geral. As mulheres começaram a gemer. Alguns, entre eles Picunha e Pindoca, saíram correndo, desabalados, gritando "o horror, o horror". Eu virei a Salinas que estava na mesa, e que nem era minha. O silêncio aterrorizado de todos era o silêncio que sucede a constatação de que algo terrível aconteceu. Enfim ouviu-se a voz de Bortolotto, trêmula, mas numa altura inteligível a todos no bar.

- Meu Deus, não é possível. É...
- Você sabe o que é isso, Bortolotto? - perguntou a Fernanda, olhos arregalados.
- Sei, mas não acredito. Não pode ser.
- Porra, diz logo cara, o que é isso? - eu insisti.

O vulto parecia se aproximar, trazendo um vento frio que gelava a alma... e aquele azul-claro mortiço, doentio, cintilando sinistramente por trás dele.

Enfim, Bortolotto falou, numa voz desconsolada:

- É ele, Jesus! Meu pai, é ele! O FILHO MORTO DA PRAÇA ROOSEVELT!



(essa é uma crônica ficcional, com suaves pinceladas de realidade. A cena do beijo, por exemplo, assim como o são as peripécias de Kim, é fictícia; foi incluída justamente como um toque de absurdo. A única coisa realmente verdadeira na crônica foi a aparição do fantasma azul)

Um Filho Morto na Praça Roosevelt

Não, Mirisola, não vou vender essa resenha por trezentos reais para o Prosa e Verso do Globo. Já bastam os “coelhos despachados a pontapés” da minha vida, oscilando entre o tédio da Fispal e a bebedeira na praça Roosevelt. Até porque eles nunca iriam pagar. Aliás, o que eles publicam ali não é resenha. É informe publicitário.

Tudo porque resolvi reler o livro, e o negócio bateu mais forte que a primeira vez – olhe que já tinha sido foda (eu nunca acreditei em primeiras vezes, as melhores sensações sempre vêm depois). Talvez porque estou em São Paulo, me sentindo às vezes um caipira, prestando muita atenção aos carros que vem de todas as direções. As encruzilhadas de sete pontas.

Sabe, cara, eu sempre achei – o que foi o meu erro capital – que a tristeza poderia me redimir. Ou seja, se eu ficasse muito triste, eu seria perdoado. Da minha covardia, principalmente. Essa mania de pedir desculpas. Fiz isso de novo, há pouco, depois de jurar que eu seria diferente. É foda... mas foda-se. Pra ser livre, a gente tem que brigar um pouco, fazer umas sacanagens, decepcionar os tolinhos e magoar os velhos frustrados.

Um escritor disse que toda literatura nasce da humilhação, ao que não dei muita bola. Me pareceu uma dessas frases de efeito. No entanto, a citação me parece pertinente ao Azul, um livro que, a meu ver, trata basicamente do sentimento de humilhação.

Todavia o escritor “é um bicho que fode”, e também um impotente (sim porque, infelizmente, a literatura nunca será uma foda em si), que se desespera porque vê o amor vencer o sexo e o amor, ah, o amor – o amor é uma merda. Bom mesmo é foder sem amor, mesmo fodendo aquela que você ama.

Eu quero escrever uma resenha do Azul sem falar da classe média e seus temores & vergonhas & podridões e não vou não vou. Foda-se a classe média. Ou antes, viva a classe média. Já chega meus ARTIGOS POLÍTICOS, que transferiram a dor que eu sentia no estômago (úlceras anti-colunismo, que besteira) para os tendões do meu braço direito. Voltei à cerveja.

Aliás, o que a classe média tem a ver com o teu livro, mêu? Nada, nadica, nonada. O teu livro – na visão que eu tive, enquanto descia a rua da consolação, pensando bem rápido, as palavras borbulhando, sem sequer imaginar que, horas mais tarde, tomaria uma surra na sinuca do Bortolotto – o teu livro é uma sinfonia de Stravinsky, ou melhor, um solo de Charlie Parker, e os caras que não perceberam isso são uns boçais. Os caras reconheceram o próprio rabo, isso sim, porque o rosto que emerge do livro não é do autor, é o rosto em si. Ou antes, o próprio cu. O cu em si. Um cu arrombado e sujo de sangue e fezes. O livro é música, cara, música clássica produzida com uma sintaxe louca, apaixonada, uma sintaxe bêbada, impossível, com bolsas embaixo dos olhos.

No dia seguinte, depois que terminei de ler o livro na cama, desci e fiquei na frente do hotel, bestando, olhando a rua, olhando uma garotinha que segurava o braço da mãe e chorava quietinha. Ela tinha trancinhas, a mãe era nordestina, nem ligava pro choro da filha. Tão triste, tão triste, tão humano, mas nem a tristeza me redimia. Não descansaria enquanto não botasse pra fora pelo menos uma parte da caralhada de coisas que pensei, subindo e descendo a rua augusta, bebendo umas cachaças no bar do Trovão, rodopiando, em transe, pelos corredores idiotas do parque de exposições Anhembi, fraudando a sala de imprensa de uma feira de alimentos para falar de literatura (o pior é a bicha que não pára de gritar histericamente do meu lado, não respeita nem a porra de uma sala de imprensa, o escroto).

Você reclamou de uns caras que vinham tentando te imitar. É melhor você se acostumar com isso. Picasso enlouqueceria se fosse implicar com todo mundo que resolveu fazer cubismo depois dele. Vale o mesmo para Chuck Berry. Eu mesmo meio que tô te imitando nessa resenha, sendo que, ao menos, tenho a elegância de assumir publicamente.

Voltando à humilhação. Porra, me senti humilhado. Ainda tô assim. Senti vontade de queimar tudo que escrevi. Começar de novo, sei lá. Talvez ainda haja tempo. Não vou te imitar. Aliás, antes que eu esqueça, vá se fuder (na eventualidade de você ter pensado isso). Contudo, a arte, depois que é publicada, vira patrimônio coletivo. Van Gogh não seria Van Gogh se não estudasse os pintores contemporâneos de Montmartre. O velho Dosty não seria quem foi não fosse um leitor assíduo de Tostói, Gogól e Puschkin, dos quais ele foi o brilhante continuador. A humilhação, disse outro escritor, não advém da vergonha por um erro pessoal, cometido acidentalmente, mas pela constatação de que somos o que somos e não há como mudar isso.

Ah, meu Deus, “que bosta, puta que pariu”, a liberdade sintática, estilística, narrativa do Azul do Filho Morto representa um marco importante na literatura brasileira e sabe porquê?

Antes, uma observação: sei que você não gosta muito do Rosa, e faz bem, mas eu gosto pra caralho daquele sertanejo sabidão, e no entanto achava que o filhodaputa tinha matado boa parte das minhas esperanças. Agora me sinto mais leve, embora humilhado. E triste pelos coelhos capotados, a morte do gente boa, a morte do meu pai, essa dicotomia dilacerante entre uma escrita de merda (às vezes) e uma razoável e firme e cruel intuição literária.

Bem, é um marco porque consolida uma liberdade que vem sendo buscada há tempos pelos escritores, uma liberdade não gratuita, um surrealismo refletido, existencial, realista mesmo. É melhor que (com perdão aos que gostam) as bobeiras holliwoodianas dum Agripino de Paula. Mais verdadeira (ô palavrinha besta, mas aqui vem com um sentido de autenticidade, força, verossimilhança) que os delírios non-sense do Campos de Carvalho. Sobretudo ajuda a libertar o meio literário da influência (não me incluo entre as vítimas dessa influência) dos analfabetos auto-promocionais e dos burocratas da pirotecnia virtual.

“Eu devo ser uma ameaça pra vida saudável”, diz você no livro. Bem, isso é mentira. Ou melhor, um paradoxo, um daqueles antigos e deliciososo paradoxos da literatura. Tão antigos quanto a maçã (uma vaga num puteiro, pois sim; ou seria um livro?) que a serpente & cafetina & tutora ofereceu à Eva.

Afinal, não é o tipo de saúde que eu quero. Saúde de hamsters de laboratório. Porra, o Azul é a celebração da doença! Nascemos mongolóides. Um bando de retardadinhos empilhando cubos e “lambendo azulejos”. Só depois aprendemos a queimar a bunda das putas e atropelar mendigos - isso sem perder a aura santa dos estetas canalhas. Aí começa a verdadeira merda.


PS técnico: Azul do Filho Morto, de Marcelo Mirisola, foi relançado há pouco pela Editora 34. Está disponível nas principais livrarias do país, porém o mais honesto é comprar no Sebo do Bactéria, na praça Roosevelt.

glória bêbada

a morte, a ressaca, o tédio
chegam assim, embebidos
na angústia inesperada (ou nem tanto)
das tardes em São Paulo
e no entusiasmo inútil
dos sonhos mortos
(crianças acéfalas que apodrecem
na porta das casas dos "homens de bem")

não, definitivamente
não é apenas a cerveja
que me resolve metafisicamente
alguns tipos de cachaça (salinas, por exemplo)
também me concedem
minutos decisivos
de glória bêbada

a glória anônima
insensata
incoerente
dos bêbados

mas enfim, o que é o bêbado
senão metáfora
do homem livre?

Livro tratado

Dei um trato no meu livro de poemas virtual. Mudei o título, cortei uns poemas, alterei versos. Quem tiver interessado numa poesia contemporânea clica aqui e lê. Ou então, vai na livraria virtual, aí do lado direito, e escolhe o livro de poemas Ao sol da minha crise.

PS: o link do livro não está mais disponivel. Qq coisa entre em contato comigo pelo email.

Agenda cultural

A Lapa continua surpreendendo. Quando eu achava que não tinha mais novidade na área, eis que ressurge o Beco do Rato, com atividades de quarta à sábado. Minha dica é a quinta-feira, quando rola um chorinho das oito às onze, e depois exibição de curtas num telão instalado aos fundos do beco. É um lugar antigo, escuro, com o cheiro dos séculos passados, as ruas estreitas, de pedras, quase não têm circulação de carros. O Beco fica ali no final da Joaquim Silva (na saída da Glória, perto das Termas Rio Antigo). A frequência tem sido nobre, músicos, poetas, escritores, cineastas, mulheres bonitas, entremeados, é claro, com vagabundos e malandros de toda espécie, conforme a milenar tradição lapiana.

Quarta sim quarta não tem evento de poesia. Nessa próxima quarta, 5 de julho, não vai ter. Mas na próxima semana tem. O único senão é o preço da cerveja, 3,50 todas as marcas. Uma espécie de couvert artístico embutido. Nada é perfeito. Estive lá na quinta-feira passada, junto com meu amigo Juliano Guilherme, o pintor da tela aí ao lado, mais um colega dele, além da minha amável secretária (patroa nas horas vagas). Depois apareceram dezenas de amigos e conhecidos, entre eles muitos representantes da marginália ilustre das letras e das artes cariocas.

Como já disse, o Beco fica próximo da esquina onde está a famosa Termas Rio Antigo. Nessa mesma esquina, do outro lado da rua, há um bar onde eu fui beber duas cervejas com um amigo, pagando menos. Assistimos o fim do expediente das prostitutas, algumas de bom humor outras nem tanto. Teve uma morena de olhos verdes que tocou meu colega, solteiro. A única, pra falar a verdade, que justificava o preço de R$ 150 a R$ 200 que, segundo ouvimos falar, cobra a casa pela entrada.

Lá pelas tantas, um carro estacionado ao lado da Termas teve o alarme disparado. O som chegava ao Beco, incomodando, principalmente eu, que odeio visceralmente o som de alarme de carro. Pra mim, devia ser proibido. Foda-se que é para a proteção da propriedade. É uma poluição absurda. Que se inventem outra, mais racional, não um esporro federal que acaba com o humor de qualquer cidadão dotado de um tímpano; quanto mais de dois tímpanos, como é o meu caso.

Marginal Blues 1980

Imaginar que se passaram vinte anos... Pois digo a vocês, quando o sujeito não morre num lugar desses, ele se transforma. Afinal, é preciso sobreviver. No meu caso, não só me transformei como virei transformista. Claro que já tinha um DNA gay antes disso, porque esse tipo de coisa, creio eu, já nasce com a pessoa. Mas compartilhar uma cela com outros vinte e sete homens foi, talvez, o fator decisivo para a metamorfose completa. Da sexual, naturalmente, porque a mudança mental que se operou em mim se deve, essencialmente, ao ilustre senhor Dráuzio Varela e seu trabalho social aqui na prisão. Ele foi o idealizador da primeira biblioteca do Carandiru e eu era seu assistente no projeto. Depois fui encarregado pela organização de tudo, o empréstimo dos livros, a coleta das doações vindas de empresas, editoras, livrarias e até de escritores, empolgados com a perspectiva de criar uma ilha de cultura dentro daquele inferno dantesco – o projeto incluía aulas de literatura, português, história, filosofia, de tudo que pudesse facilitar ao preso a assimilação dos livros, que chegavam aos milhares.

Agora estou livre, quarenta anos de idade e uma experiência que nunca imaginei que possuiria há vinte anos. Eu, que era um garoto mimado, criado pela avó corujona, ignorante tanto em relação ao meu próprio sexo quanto à vida em geral, hoje contemplo o mundo do alto dessa colina, onde vim me esconder da polícia (sim, infelizmente, fui obrigado a fazer um último crime), sem ódio, sem rancor de espécie alguma, tranquilo, compreensivo. Nem da polícia tenho raiva. Pelo menos não enquanto eles não puserem a mão em mim novamente - e acho difícil que eles consigam porque esse é o meu melhor esconderijo. Se tivesse vindo pra cá em 1980 não teria sido preso. Mas aí também não teria me transformado, não teria chegado onde cheguei.

Hoje posso dizer que sou escritor. Embora não tenha livro publicado, sinto a paixão da escrita queimar dentro de mim. Por isso, tive que cometer esse derradeiro assalto, precisava garantir o futuro. Não posso simplesmente me empregar como office-boy e esquecer todos os sonhos. Ou montar uma banquinha de camelô e passar o dia vendendo biscoito enquanto qualquer idiotinha filhinho de bacana tá aí lendo os clássicos, estudando inglês e alemão, viajando à Paris, montando panelinha de literatura, com tempo sobrando pra pensar, escrever e coçar o saco, não necessariamente nessa ordem. Mais tarde tenho meus planos para com eles. Por enquanto, precisava apenas de uma coisa: dinheiro.

Alguns dirão que sou imoral, e por isso não tenho direito à glória literária, que nunca a sociedade irá aceitar um monstro (me chamaram disso nos jornais, acreditam?) que assassina a própria avó que lhe criou com tanto carinho e dedicação. Mas eu sei o que sou. Nietzsche me ensinou que a única moral que vale é a moral do forte.

Entretanto, não pensem, ao ler essa carta que envio para os jornais, que sou um desses psicopatas de filme americano, revoltado contra o sistema capitalista e disposto a explodir tudo. Não. Tenho meus planos, que infelizmente não posso contar, para que eles sejam bem sucedidos. Mas eles não incluem nenhum atentado terrorista, nem outros crimes de espécie alguma. O último foi esse mesmo, que fui obrigado a cometer em vista das circunstâncais. Minha avó, que sempre foi muito boa comigo quando eu era criança, tornou-se uma megera avarenta após minha prisão. Guardava jóias no quarto enquanto eu quase morria de fome no xadrez – é, porque não é fácil engolir a gororoba nojenta que eles nos serviam por lá. A rapaziada mais aprumada mandava trazer comida de fora.

Gostaria de adiantar somente isso: vou sumir do mapa por uns tempos, mas não esqueçam meu nome: Virgulino Candeias de Araújo, ou simplesmente Virgulino Araújo, como pretendo assinar meus livros de agora em diante. De vez em quando, enviarei uns textos por email para revistas, sites, jornais. Meu ser físico continuará ausente por alguns anos, quiçá por toda a vida.

Mudei muito. Naquela noite quente de 1980, quando fui preso, eu era apenas um garoto inconsequente escutando blues no toca-fita de um fusquinha velho - cujos donos eu havia matado a facadas. Hoje sou um homem maduro, consciente dos fatos sociais e históricos que marcaram o país e o mundo. Hoje tenho cultura e experiência, não serei pego com tanta facilidade.

Aguardem, meu amigos, em breve mandarei notícias.

Factotum

Fui assistir Factotum, o filme de Bent Hammer, baseado no romance homônimo de Bukowski. Que me perdoem, mas não achei tudo isso. Achei a trilha sonora fraca, e as cenas muito repartidas, sem uma linha narrativa que as conectassem melhor. Tal conexão poderia ser feita através justamente da música e da fotografia, que poderiam dar uma densidade mais poética ao filme, e mais condizente à atmosfera bukoswkiana. Também faltou, a meu ver, um certo toque de humor e sarcasmo característicos do velho bêbado. O filme é melancólico o tempo todo. Com musiquinha triste e tudo. Tá certo que Factotum é meio triste, se comparado a outros livros do Buk, mas também tem humor, e no filme esse item deveria estar presente.

Para completar minha chatice, também não gostei dos atores. Matt Dillon não convence como Buk. Falta-lhe poesia, personalidade e humor. A Jan é romântica e boazinha demais - no próprio filme é sugerida a sua infidelidade e problemática, mas não é mostrado. A Laura não convence como bêbada e me parece bonitinha em demasia, assim, excessivamente bem tratada para uma mulher "de botequim". Não digo que deviam usar uma atriz feia, mas podiam usar um figurino e maquiagem um pouco decadentes. Ficaria mais verossímil.

Os episódios são fiéis ao livro. Fiéis demais, a ponto de algumas cenas parecerem totalmente desnecessárias, porque tinham algum sentido no livro, mas não na telona. Dá a impressão de uma repetição mau feita do texto literário. Sei lá, fica meio artificial.

Bem, é o que achei. Me amarro no Buk e acho que o Bar Fly (sofrivelmente traduzido para Condenados pelo Vìcio) é melhor filme sobre o velho. Cronica de um amor louco também é muito bom, com um toque mais poético, mais lírico.

Factotum, no entanto, não é de se jogar fora. Para quem gosta da obra do Buk, vale a pena assistir. Talvez eu esteja sendo chato demais, confiram vocês mesmos. Pretendo ver esse filme mais uma vez, em dvd, bebendo um uisquinho vagabundo (ou caro, a depender do destino), e quiçá terei uma melhor impressão.

O café da minha casa & matricídio em São Paulo

Voltei em casa para tomar um café. Não vou beber café de botequim. Queria ir ao banheiro também, mas é melhor não falarmos nisso. Não é elegante falar de nossas anti-estéticas necessidades fisiológicas. O fato é que fiquei excitado e sempre que isso acontece o meu intestino funciona mais rápido. Talvez seja uma coisa saudável. A excitação gera um desejo instintivo de auto-limpeza. Enfim, voltei em casa para tomar um café e fazer aquilo que todos fazem. O motivo da excitação é que, finalmente, encontrei uma saída para um problema que vinha me atazanando há tempos.

Não consigo mais escrever em casa, por vários motivos. Escrever literatura. O ambiente doméstico obstrui-me a inspiração, principalmente porque trabalho em casa. Sou jornalista especializado em agribusiness. Passo horas pesquisando notícias e estatísticas na internet, que compilo, sumarizo e publico no site-jornal para o qual trabalho. Quando termino o batente, ainda tenho a mente cheia de números e informações. O computador à minha frente não me desperta aquele sentimento de mistério e felicidade que considero tão importantes para a inspiração. A sala bagunçada, a mesa cheia de anotações, o chão empoeirado, a mal organizada estante de livros, a cozinha americana - uma pia embutida na parede - são as mesmas imagens de sempre e, por algum motivo, ajudam na paralisia e torpor aos quais meu espírito parece estar preso.

A saída é escrever nesta lan house, que oferece preços promocionais - duas horas por cinco reais. Já disse ao atendente desligar o som alto, explicando-lhe que, apesar da maioria vir aqui só para entrar em orkut e conversar em msn, alguns vêm para escrever e precisam se concentrar.

Pedi um computador com headfone e achei uma boa rádio online, no site da TVcultura. Ainda não é a ideal, queria mesmo uma rádio com blues antigos, mas não quero perder minhas duas horas procurando. Mandem-me sugestões, por favor.

Devidamente instalado, posso dar livre curso às minhas divagações. Gostaria de comentar o recente caso do professor Geraldo Barbosa, que assassinou a própria mãe, num bairro de classe média da capital de São Paulo. A vítima, Zilda Barbosa, tinha sessenta e três anos, morava no mesmo prédio e vinha, diariamente, à residência do filho cuidar dos afazeres domésticos. Era assim desde que Geraldo separou-se de sua esposa, que foi morar em outra cidade.

Nesse dia, Geraldo acordou por volta de meio dia e encontrou sua mãe na cozinha. Por alguma razão, a presença dela irritou-o profundamente. Houve discussão, ela chamou-lhe fraco, incapaz de ter uma mulher. A senhora dizia isso de costas, enquanto cortava legumes. Geraldo nem aparentava tanta fúria; tinha uma expressão fria, ódio contido. Pegou a faca numa mesinha e atacou-a por trás. Repetiu o gesto três vezes. Ficou parado alguns minutos, contemplando o espetáculo sangrento. Aí resolveu fazer uma coisa ainda mais monstruosa. Abriu o armário, pegou um frasco de álcool e despejou sobre a vítima, que caíra no chão, gemendo e contorcendo-se. Riscou um fósforo e pôs fogo.

Sentiu sono. Chegara em casa pela manhã, depois de passar a noite numa festa, com seus alunos. Geraldo tinha quarenta e dois anos, mas sentia-se com trinta. Desde antes do divórcio, estava sempre namorando uma de suas alunas.

Interfonou para o porteiro, pediu que chamasse o bombeiro. Voltou ao quarto, indiferente aos gritos da velha, deitou-se na cama e dormiu. Teve um sonho agitado, no qual abria uma porta e saía para um jardim ensolarado, muito bonito, com flores de todos os tipos e cores. No entanto, havia algo de maligno e violento, pois era guardado por homens armados com metralhadoras. Sentia uma alegria enorme, e medo também. Apesar da luz que banhava o jardim, o sol, quando olhou para cima, era negro. Um astro negro no meio de um céu azul, que, no entanto, irradiava luz amarela, solar. Uma menina negra, de uma magreza cadavérica, saiu de trás de uma árvore e aproximou-se dele, sorrindo. Por alguma razão, ele tentou fugir, mas não conseguiu mover nenhum músculo do corpo. A negrinha correu até ele, olhos fixos no pênis do homem, que só agora conscientizou-se de que estava nu. Ela abocanhou-lhe o órgão, chupando-o sofregamente, gemendo. De início com nojo, ele não pôde evitar, contudo, a ereção. Ela continuou chupando até ele gozar. Quando terminou, a garota encarou-o e ele viu, aterrorizado, o rosto de sua filha!

Alguém sacudia-lhe o corpo, ordenando que acordasse. Abriu os olhos e viu um homem corpulento, de calça jeans, camisa social e gravata.

- Senhor, acorde! É a polícia!

Urubus não têm lei

Segue abaixo a minha última participação na revista Bagatelas, da qual não faço mais parte por uma decisão pessoal. Minha coluna não existe mais, portanto o texto abaixo só pode ser lido aqui. Desejo toda sorte e sucesso à revista e convido meus leitores a virem me visitar sempre por estas bandas.

Sou absolutamente contra o oba-oba. Claro que me aborreço muito com certo predomínio do pós-modernismo-joyciano-pilantra. Consequentemente, tenho me alegrado em ver as bases deste movimento ruírem aos poucos, de forma mais lenta do que eu gostaria, mas irreversivelmente. Pelo menos, prefiro acreditar nisso.

Literatura virou festinha? Agora tão criando uma faculdade de escritor lá no sul que vão ensinar até como dar entrevista... O mais preocupante é que, no fundo, a proposta é absolutamente coerente com os rumos que o segmento vem seguindo nos últimos tempos. Enfim, o problema no Brasil, blá blá, é a falta de leitores. Daí que ficamos reféns de meia-dúzia de intelectualóides e da ditadura dos concursos marmelada.

Ah, reclamar não adianta nada. A gente sabe que a vida é dura, e talvez as coisas devam ser assim mesmo. Quer moleza, dizia Chacrinha, senta no pudim. O fato é que eu fico chateado em ver que alguns dos que estão ingressando no mundo da literatura, inclusive amigos meus, começaram a deixar a discussão estética em segundo plano.

Em nome de uma suposta busca da profissionalização do escritor, estão esquecendo que isso só faz sentido se a literatura for o interesse central de suas vidas. Isso implica, naturalmente, em ler. Discutir o que leu. Perguntar. Pesquisar. Informar-se constantemente sobre o que vem sendo feito de novo no país e no exterior. Respeitar os que estão há mais tempo na luta, não pela idade avançada, mas pela extensão e repercussão de suas obras. Se não for assim, então não vale a pena.

Ganhar dinheiro com literatura? Ah, não me façam rir. Ser escritor é praticamente assinar atestado de pobreza. Conformem-se. Arrumem empregos que lhes permitam algum tipo de liberdade. Negociem com a mamãe uma mesada vitalícia. Encarando a literatura desta maneira leviana, vocês não somente não contribuem em nada para a profissionalização do escritor; pelo contrário, desmoralizam a literatura.

Querem que eu seja humilde? Então tá: parodiando o Veríssimo, eu sou o cara mais humilde do mundo. Me acuso, peço desculpas. Faço merda. Quem não faz? Quem atirará a primeira pedra? Um escritor deve ser leal apenas a si mesmo, e isso já é muita coisa. Elogio depois xingo, entro em contradição. Sou dialético, porra! O fato de ser simpático com as pessoas nem sempre é uma qualidade. No meu caso, é uma espécie de covardia congênita. Herdei essa merda. Tenho medo de cachorro e de magoar os outros, e a impressão de que meu talento existe à revelia da simpatia. Um dia ainda me livro disso, como já me livrei de tanta coisa em minha vida. Serei um filho-da-puta franco, cruel, mas de consciência tranquila.

Literatura é compromisso. Com a leitura, sobretudo. O escritor compete com dois-três mil anos de intensa produção literária. Como poderia ter a mínima pretensão de ser escritor se não procurasse dialogar com todo esse patrimônio? Evidentemente, isso será possível apenas se eu ler, reler e discutir todo maldito clássico, toda maldita obra contemporânea. Se um escritor não pensa assim, se acha que literatura é frequentar Flip, Flap e tomar umas cervas na Mercearia São Pedro, então, meu caro, definitivamente... boa sorte. O segredo é ler e sofrer, disse Dostoiésvki, respondendo ao jovem aspirante a escritor, que lhe pedira a fórmula de como escrever bem.

Cara, literatura não é um sonho bom. É barra pesada. Sofrimento, renúncia. Ser escritor, no início, é aguentar no lombo a consciência de ser um fraco que escreve mal pra caralho e não possuir nada além de uma ambição desmesurada e um ego doente. E trabalhar, trabalhar. Sondar as profundezas de seu próprio desespero. Aceitar a dor enquanto condição obrigatória para uma incerta evolução. Um dia, aprende-se a escrever, de forma singular e universal, e percebe-se que o sofrimento não diminuiu, pelo contrário. Não ganhamos dinheiro. O ego continua doente, a ambição cresceu. Que ganhamos? Satisfação íntima? Um pouco de dignidade?

Paneros & De Haro

Seguindo a tradição blogueira, faço esse post influenciado pelo blog do Douglas Kim, em cujos comentários se citou um dos poetas homenageados neste bar virtual. Ao fim, transcrevo poesia do Rodrigo De Haro, grande poeta catarinense, cujo livro Amigo da Labareda me foi enviado pelo ex-carioca e presentíssimo poeta e amigo Silvio Barros. Por fim, reservo-me o prazer de fazer a introdução léxica, com todo respeito, como diria o Anselmo Góes, da sulíssima (ia dizer gauchíssima, mas não quero causar conflitos diplomáticos com os catarinas) palavra "vasca".

LA POESÍA DESTRUYE AL HOMBRE...

La poesía destruye al hombre
mientras los monos saltan de rama en rama
buscándose en vano a sí mismos
en el sacrílego bosque de la vida
las palabras destruyen al hombre
¡y las mujeres devoran cráneos con tanta hambre
de vida!

Sólo es hermoso el pájaro cuando muere
destruído por la poesía.

"El último hombre" 1984


*


A poesia destrói o homem

A poesia destrói o homem
macacos pulam de galho em galho
buscando em vão a si mesmos
no sacrílego bosque da vida

as palavras destróem o homem
e as mulheres devoram crâneos com tanta fome
de vida!

Só é belo o pássaro quando morre
destruido pela poesia

"El último hombre" 1984

Leopoldo María Panero
Tradução livre por Miguel do Rosário


*


Festa

A comida dos santos
levo num barco
faço parte do hieróglifo.

Levo a comida dos santos
coberta por linho puro
destroços para caranguejos
Assim o poema
é comido na vasca.

A ilusão é bela
porém a pedra
ainda é mais.

Com a ferramenta parca
construo meu barco.
O rio escuro
fica pintado no muro.


(Rodrigo De Haro, Amigo da Labareda, 1991, Massao Ohno Editor)


*
Aurélio
vasca
[De or. incerta.]
Substantivo feminino.

1.Grande convulsão:
“Quem minha angústia suportar, prefira / A morte, redentora, à desventura / De não poder, nas vascas da loucura, / Distinguir a verdade da mentira.” (Martins Fontes, Verão, p. 119).

2.Ânsia excessiva; estertor:
“uma bala vara o peito de Juanillo que cai e, nas vascas da agonia, rolando no chão, aproxima-se da defunta” (Érico Veríssimo, México, p. 128).

O que é bom a gente prestigia



É isso mesmo, o que é bom a gente tem que dar valor e prestigiar. A Mercearia São Pedro tem se tornado, cada vez mais, um espaço importante de encontro e divulgação de literatura contemporânea. Mais que isso, se tornou um foco irradiador de arte, amizades, boas idéias, antigos sonhos e, sobretudo, muita alegria (no bom sentido, é claro, o que envolve inteligentes pitadas, nem sempre calculadas, inevitáveis diria, de melancolia e pessimismo. Afinal, arte não é comédia ou comitê eleitoral do partido republicano).

Enfim, tudo isso pra dizer que estou feliz com o lançamento da Revista da Mercearia, iniciativa, ao que parece, do Marquinhos, dono da famosa birosca, e do Joca, frequentador assíduo que, pelo jeito, está encontrando alternativas para pagar sua dívida no bar (preciso dizer que é brincadeira?).

A galera aqui do Rio tem prestigiado a Mercearia. O lançamento da segunda edição da Bagatelas, nossa revista de contos, será feito por lá, no dia 15 de julho. No início do ano, estivemos por lá e fizemos nossos contatos iniciais.

Sabe porque eu fico tão feliz com a iniciativa merceárica? Eu moro num bairro que tem tanto bar, birosca, botequim, pé sujo, fim de noite, que, se cada um deles disponibilizasse um espacinho para um sebo, uma estante de livros, isso aqui seria o local mais literário do planeta. Por enquanto, infelizmente (ou felizmente, por um outro ângulo), somente a Mercearia concilia o fogo da literatura ultra-contemporânea com o gelo das louras meretrizes - aquelas nas quais todos passam a mão e põem na boca.

Não poderei estar presente, fisicamente, na festa de lançamento da revista, marcada para hoje, dia 7 de junho, na própria Mercearia. Mas devo projetar meu espírito, que poderá, portanto, ser entrevisto vagando por entre as estantes e bebericando no copo dos outros.

O segredo do Homem

"Os que estavam à mesa começaram a dizer então: Quem é este homem que até perdoa pecados? ", Lucas 7, 49



Dentre as inúmeras lendas que cercam a vida de Jesus, uma das mais escondidas pela Igreja é a de que o Filho de Deus teria sido um grande boêmio. Não é polemismo barato. Não se trata somente do hábito de beber diariamente quatro ou cinco garrafas de vinho. Cristo seria também um poeta, um bon vivant, um artista! Essa ladainha do Dan Brow sobre Cristo transar com Madalena e ter um filho, que hoje horroriza setores reacionários da Igreja, é uma versão infantil da verdadeira história. Como disse a francesa, antes de baixar a calcinha: prepare-se, le chose é bem mais cabeluda do que imaginas.

Na China, essa história é conhecida e encarada com naturalidade. Afinal, Buda foi, em sua juventude, o maior playboy de todos os tempos. No Ocidente, porém, o judaísmo moralista tratou de distorcer o significado profundamente libertário da vida de Cristo, erguendo em torno de sua biografia um muro de castidade e inocência. A idéia da gravidez sem sexo de Maria é uma das lendas mais carolas e inverossímeis da mitologia mundial. Daí para a virgindade de Jesus foi um passo natural, apesar do absurdo da coisa. Incrível é como a humanidade tem sido engambelada há mais de dois mil anos.

A lenda diz que Jesus barbarizava as noites de Jerusalém, cantando, bebendo e dançando, participando de festas e orgias... Numa dessas, conheceu Madalena, a mais bela prostituta da Palestina, que apaixonou-se perdidamente pelo jovem de longas melenas, olhos brilhantes e lábios sempre coloridos pelo vinho.

O amor de Madalena, apesar do bem que proporcionou à alma inconstante de Jesus, trouxe-lhe também a sífilis. Tal fato é que teria motivado a tentativa de apedrejamento da meretriz, por parte de pretensos "amigos de Jesus". Madalena foi salva pelo corajoso amante, que enfrentou os atacantes gritando-lhes a famosa frase sobre a primeira pedra (conta-se que um engraçadinho, neste momento, lançou um pedra que atingiu o abdômem de Jesus; e que este revidou furiosamente, esmagando-lhe o crânio com uma pesada tora de madeira).

Jesus tinha trinta anos quando contraiu a doença, e os médicos lhe deram poucos meses de vida. Diante da proximidade da morte e proibido de fazer sexo ou exceder-se no vinho, Jesus aproxima-se da religião e decide tornar-se um profeta.

Consultando os sábios de sua Seita, Cristo descobre que havia uma planta que poderia curar-lhe a terrível doença. Era um derivado da papoula, ou da cannabis, coisa assim, muito popular entre os jovens da elite judaica. Não tendo dinheiro para adquirir regularmente o produto, Cristo começa a fazer tráfico da planta para bancar seu próprio consumo.

A atividade rendeu-lhe gordos lucros; em pouco tempo, estruturou uma poderosa organização. Patrocinava projetos sociais e religiosos, que lhe renderam a fama de Santo, além de úteis para comprar o silêncio da comunidade.

Os supostos milagres de Cristo seriam nada mais que o resultado de seus conhecimentos científicos. Aprendera como curar doenças com seu pai, José, membro da Seita dos Essênios, uma espécie de Maçonaria, cujos integrantes estudavam literatura, ciências, religião e medicina.

Os romanos haviam proibido expressamente o consumo da referida erva entre os judeus, pois queria-os dóceis, alienados e submissos, e a planta induzia seus usuários à reflexão, provocando debates filosóficos e políticos que, invariavelmente, produziam projetos de rebelião.

Judas Iscariotes era um viciado decadente, que se aproveitava do bom coração de Jesus para adquirir-lhe a droga sem pagar. A dívida de Judas cresceu e Cristo, mesmo sendo o bom cristão que era, ameaçou-lhe dar uma surra caso não a quitasse. Há relatos de que o discurso de Jesus sobre dar a outra face para quem lhe estapeia foi uma tirada sarcástica contra Iscariotes, pronunciada logo após o sonoro ressoar de um tabefe na parte esquerda do rosto do X9 mais famoso do Ocidente.

Até que um safado qualquer (quiçá o próprio Satã) observou a Judas que, delatando Jesus, poderia não só ganhar uma boa recompensa (que usaria para comprar mais drogas) como se livraria de ser espancado pelo Santo Credor, o qual, apesar de Santo, bem sabia aplicar um corretivo num pilantra caloteiro.

Judas gostou da idéia e traiu seu Fornecedor, dedurando-o às autoridades competentes. Jesus ficou sabendo da trairagem e, sem ter como escapar, tratou de fumar grande quantidade de erva, para evitar a dor física nas tradicionais sessões de tortura.

No momento de carregar a cruz, um de seus discípulos conseguiu passar-lhe uma boa dose de outro estimulante, o que lhe permitiu arrastar o peso até o monte Calvário. No momento da crucificação, enquanto alguém distraía os guardas, aplicaram-lhe outra dose, para que não sentisse as dores dos pregos sendo enfiados em seus pés e mãos.

Todo esse coquetel fê-lo entrar em coma, após algum tempo, levando os guardas a pensarem que estava morto e a liberarem o corpo para ser enterrado. Quando o efeito passou, Jesus, como se sabe, saiu do caixão e foi ao encontro de seus amigos.

Conta-se que, nesta ocasião, ele teria combinado com seus discípulos que o mais seguro era que romanos e filisteus acreditassem mesmo em sua morte.

Jesus então partiu para o exílio na Índia, onde terminou o resto de seus dias. Dizem as más línguas que ele teria se convertido ao budismo...


(conto publicado na revista impressa Bagatelas, número 2, lançada esta semana. O conto vem aqui com uma ou duas correções. Portanto, os que não tem acesso à revista impressa, poderão ler o conto com alguma vantagem)

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