(essa é minha última crônica para o Bagatelas - última no sentido de mais recente, é claro, não de derradeira)
Há semanas que estou em crise de inspiração. Todas as histórias me parecem repetitivas. Toda linguagem me parece enfadonha e pouco original. Pra piorar, minha mão direita dói. Tô com tendinite.
Já inventei histórias escalafobéticas sobre mim, escrevi uma crônica sobre a velha (desculpa esfarrapada), interpretei psicodelicamente as aventuras da turma Bagatelas. Agora há pouco, enlouqueci no recém criado grupo de discussão Bagatelas e quase arrumei uma briga verbal com um sujeito chamado Sólon.
Até minhas participações nos comentários estão em crise. "Fóda", foi o máximo que pude dizer sobre o conto da Camilla Lopes. Que fazer, meu Deus? Musas, ó Musas, desçam do Olimpo, se é que estão aí, e venham acudir este aflito escritor carioca.
Humm... Hum..... Não veio nada. Vou fazer um café.
Bem, enquanto a inspiração não chega, a gente continua batendo papo. Tenho uma coisa presa na garganta. Encontrei um escritor numa festa, ano passado, e fui abraçá-lo e cumprimentá-lo pelo seu novo livro. Ele me disse que a gente "nunca vai escrever como Guimarães Rosa". O negócio me atingiu em cheio. Puta que pariu! O cara tá certo. E daí? Foda-se!
Eu adoro Guimarães Rosa, mas sei que ele tem um defeito. Não fala de cidade, de metrópole, e o Brasil hoje é 80% urbano. Portanto, há que surgir o escritor urbano.
O café ficou pronto. Acho que agora vai. Vamos começar assim. Um homem sentado numa praia deserta. Não, deserta não. Uma praia cheia de gente, mas é como se estivesse deserta, porque ele está sozinho e se sente isolado. Ele olha o mar e vê as pessoas entrando na água, pegando onda, as crianças mijando. Ele sabe que muitas entram no mar para mijar, mas todas, naturalmente, disfarçam muito bem. Nosso personagem, então, descobre um passatempo maravilhoso: identificar quem está no mar por puro prazer e quem está por necessidade fisiológica. Em primeiro lugar, é preciso observar as pessoas antes de entrarem na água. Algumas já vem com uma expressão meio aflita no rosto, o que seria um sinal. Bem, não é tão difícil. Como o mar está um pouco agitado, as pessoas que querem mijar são obrigadas a ficar completamente paradas, mais perto do raso, numa postura rígida, uma expressão sempre algo constrangida.
Nosso personagem, que se chama Sherwood Anderson (não me perguntem porque ele tem esse nome, foi seu pai que deu, provavelmente em homenagem ao escritor americano), resolve entrar na água. Não, ele não quer mijar, não agora. Seu objetivo é nadar, até o fundo, até bem longe. Quer se matar? Não, mas de fato ele não me parece muito bem, está se arriscando demais. O mar está agitado. Ele se afasta cada vez mais da praia. Um conhecido seu, que o observava de longe desde o início da história, mas que não lhe dirigira a palavra, olha preocupado para nosso personagem, a esta hora quase invisível.
Ele quer alcançar as Ilhas Cagarras. É, ele estava em Ipanema, no posto 9. Nunca ninguém de suas relações havia tido coragem de fazê-lo. As Cagarras distam uns quatro ou cinco quilômetros da praia. Que eu saiba, somente nadadores profissionais, com apoio técnico, poderiam realizar esta proeza. Ele está louco, o personagem! Sim, está louco. Não nadou nem dois quilômetros e começa a sentir uma forte câimbra na perna direita. Olha pra trás. A praia parece bem mais distante que a ilha. Resolve continuar, mas a perna dói, atrapalhando o desenvolvimento do nado.
Ai, Musas, que fazer? Mato o personagem afogado? Faço vir um deus ex-machina e o salvo? Os céus trovejam e começa a cair uma tempestade. Dessas súbitas e terríveis de verão. O mar se agita, e nosso personagem está engolindo água. Ele chora, a sua vida inteira lhe passa pela mente, como um filme em forward. Grita por socorro, mas o barulho do mar abafa sua voz e a água salgada invade a boca aberta, fazendo-o engasgar e perder o fôlego.
O fim está próximo para o nosso herói. O que ele pensa nesse momento derradeiro? Bem, ele não pensa nada. Sente apenas uma grande e angustiante vontade de mijar e cagar. E ninguém vai reparar! Ele ri. Enquanto caga e mija, as ondas quebrando-lhe por cima, fazendo-o engolir cada vez mais água, ele ri. Debaixo d'água ele ri. "Posso mijar e cagar à vontade, ninguém me verá! Ah Ah Ah!" Nunca se viu alguém realizar suas necessidades com tanta alegria.
É quase uma morte feliz.
Peraí. Antes de morrer afogado, ele põe sua cabeça para fora d'água e olha para o céu. O que vê? Ele me vê! Um grande rosto no firmamento, os olhos gigantescos, monstruosos. O nariz do tamanho da Ponte Rio-Niterói. Sim, ele vê a mim, o Autor, que está rindo mais que ele. Eu digo: "eu estou te vendo, otário! Estou vendo você a cagar a mijar no oceano. Personagem sem-vergonha".
Ele morre enfim, com cara de besta, sem entender nada.
Buk no Rio

Passei a tarde numa biblioteca pública, saboreando Factotum, de Charles Bukoswki, um dos poucos dele que ainda não tinha lido. Devorei quase tudo, tenho que voltar lá para terminar o livro, mas as páginas assimiladas me fizeram refletir sobre as diferenças entre os escritores de lá e os daqui. (nota: tenho que ver o filme Factotum)
Em primeiro lugar, compreendi mais um pouco o carinho que os brasileiros têm pelo velho bêbado. Ele é pobre, fudido e mau pago, como a gente. Esta é a razão da afinidade que sentimos. Outra, ele é humilde, diferente do caráter padrão do norte-americano, arrogante e prepotente.
As semelhanças páram por aí. Um escritor brasuca que se dispusesse a imitar a trajetória etílica do velho não aguentaria quinze dias - o tempo que se leva para uma crise aguda de fome.
Em Factotum, Buk viaja pela América dos anos 40, em plena Guerra. Os EUA haviam se tornado o principal fornecedor de alimentos, insumos e armas para o palco de guerra. Além disso, dezenas de milhares de homens lutavam no front, desafogando o excesso de mão-de-obra no país. Buk vaga por várias cidades, sem emprego, sem dinheiro e mesmo assim dorme em hotéis e passa o dia inteiro bebendo.
O jovem Henry Chinaski, alter-ego de Buk, dá-se ao luxo de passar dias sem folhear os jornais à cata de emprego, e quando o faz arruma um trabalho quase que imediatamente. O trabalho, apesar de pesado e braçal, sempre lhe proporciona grana suficiente para beber uisque, comprar um carro usado e dormir em hotéis baratos.
No tempo livre, entre uma dose e outra, Chinaski escreve. Aí entra outra diferença. Ele envia contos pelo correio para as revistas literárias de sua preferência. São muitas as revistas literárias consagradas nos EUA. E todas, quando aceitam publicar contos dos novos autores, pagam-lhes quantias razoáveis.
A história de Buk em Factotum é muito parecida com a de John Fante em Pergunte ao Pó. Não é outra razão do velho ter se apaixonado pelo livro.
Também li poemas muito bonitos do velho de uma livro recém-publicado, título irrepetível aqui. Sabe, podem falar o que quiserem, gosto cada vez mais desse pinguço filho-da-puta. Não digo isso por deslumbre, nem estou descobrindo Buk agora. Gosto dele bem antes de virar moda, desde o final da década de 80, quando eu era um adolescente desajeitado lendo Cartas na Rua na biblioteca nacional. Desde então, já li quase todos os clássicos, antigos e modernos. Ainda sou um rato de bibliotecas, lendo tudo que me aparece pela frente. Mas são poucos os livros que me dão tanto prazer de ler como os do velho. Por trás de suas histórias, de seu humor corrosivo e calejado, há um humanismo intenso. Uma coisa que acho que faz falta por aqui, um calor humano que o Brasil finge que tem mas que não tem porra nenhuma. Somos um país de pessoas frias, filhas-da-puta no mau sentido, uma burguesia mais cínica e mais burra do que em outros países.
Por isso gosto tanto de ler o velho Buk, para sentir essa fé... não no homem, mas na humanidade, se é que me entendem. Podemos às vezes nos sentir cercados de idiotas, ou mesmo nos sentir idiotas, mas sabemos, pela música, pela literatura, pela arte, que a humanidade é mais que isso. Que a humanidade é surpreendente e que o mundo, por mais que nos dê uns murros de vez em quando, é o mesmo mundo que pode, a qualquer momento, nos oferecer um bom gole de uísque, uma buceta quentinha e um maço de notas, só pra calar nossa boca resmungona, nos fazer olhar a vida nos olhos e dizer: vem cá sua vadia, eu te pago mais uma!
Crônica de uma cidade morta
Rebeliões nos presídios, ataques a policiais, ônibus incendiados, ruas desertas, lojas, bares e shoppings fechados. A rotina da megalópole que disputa com Seul o título de maior cidade do mundo foi severamente abalada pelo crime organizado. Uma leitura isenta e crítica de vários jornais e sites noticiosos permite algumas conclusões sobre o que realmente aconteceu a este município com mais de 10 milhões de habitantes. Hum, não somente à cidade, mas à todo o estado de São Paulo, o mais rico, mais desenvolvido e mais industrializado do país.
Bem, o que aconteceu foi que o PCC, Primeiro Comando da Capital, principal organização criminosa do estado, originado aparentemente dentro dos presídios paulistas, ordenou um ataque sistemático e geral às autoridades. Marcos Willians Herba Camacho, o Marcola, líder do PCC, insatisfeito com o tratamento recebido pelas autoridades penitenciárias, decidiu mandar um aviso à sociedade civil: me respeitem ou eu páro São Paulo.
E parou mesmo. Até conseguir o que queria. A maior cidade do país entrou em pânico, vivendo a maior crise de segurança pública de sua história. Os ataques só cessaram após encontro de autoridades do governo paulista com Marcola e a aceitação de suas exigências, dentre as quais a instalação de 60 televisores de plasma nos principais presídios do estado.
Muitos cidadãos acharam que o pânico foi excessivo. Outros acharam que tudo não passou de boataria. Bem, se você acha que a morte de quase 100 pessoas em apenas 2 dias, 80 ônibus incendiados, ataques a prédios públicos e rebelião em presídios, se você acha que isso não deveria despertar pânico na população, então você está pronto para residir em Bagdá, numa casinha bonita perto de uma base americana, e só para mostrar coragem hastear uma bandeirinha dos EUA no jardim.
O negócio foi feio. O ex-governador do estado, dr.Geraldo Alckmin, soltou mais uma de suas pérolas de sabedoria: "criminalidade é uma coisa séria". Que bom que temos políticos dotados de tanta visão e inteligência! Não fosse ele dizer isso, por quanto tempos ficaríamos iludidos, pensando que a criminalidade não passa de brincadeirinha inocente de garotos mimados! Quando fôssemos assaltados, diríamos aos bandidos: "pára com essa brincadeira, seu bobo, aponta essa arma para lá!". Iluminados pela sabedoria de nossos políticos, podemos tocar nossa vida.
A declaração do governador Claudio Lembo - que não fosse pelo episódio jamais seria tão conhecido nacionalmente - de que a situação estava "sob controle", também foi fundamental para nos tranquilizar. Mesmo aqui no Rio, eu estava preocupado com o que ocorria em São Paulo. Após ouvir Lembro dizer que a situação estava controlada, relaxei e fui dormir tranquilo como um bebê dopado. Ou morto.
O fato é que o PCC matou São Paulo por dois dias e duas noites. As febris madrugadas paulistanas converteram-se em noites vazias e silenciosas. A solução para o problema é complexa. A direita quer endurecer, a esquerda não sabe o que fazer. A classe média quer repressão. Os pobres pagam o pato: a polícia invade as periferias, mata uns pretinhos, diz que são traficantes e sacia a sede de sangue da opinião pública. Intelectuais e artistas voltam a ocupar bares da moda e bebem e cheiram os problemas.
Uns dizem que a melhor saída para o problema da segurança pública nas metrópoles brasileiras continua sendo o aeroporto. Sinceramente, não tenho respostas. Não sou especialista em segurança. Mas tenho uma opinião. Em meio a tantas notícias e declarações sobre o caos paulista, alguém disse que os presidiários têm regalias demais em Sampa. Bem, até onde eu sei, é o contrário. Temos presídios super-lotados, com pessoas vivendo em condições desumanas. Disseram também que é preciso aumentar a pena. Outra besteira, a meu ver. Tem é que transformar os presídios em centros de reciclagem. Investir mais na área de inteligência da polícia e usar menos truculência no trato com as comunidades. Detectar as áreas urbanas mais sensíveis e realizar aí investimentos sociais maciços.
A sociedade civil também precisa participar mais. Em vez das toneladas de teses sobre o homossexualismo de Miguel de Cervantes ou a crise do ser em Heidegger, as universidades podiam contribuir com mais estudos, pesquisas e propostas sobre o tema. Todos os cursos poderiam ajudar, inclusive o de Letras (para ficarmos no terreno literário do exemplo que usei), que poderia elaborar teses sobre o imaginário de violência que prospera na periferia, e como usar a arte e a literatura para convencer crianças e jovens de que o caminho da paz pode ser muito mais corajoso e frutífero do que pegar em armas e lutar uma guerra insana e suicida contra o Estado de direito.
Bem, o que aconteceu foi que o PCC, Primeiro Comando da Capital, principal organização criminosa do estado, originado aparentemente dentro dos presídios paulistas, ordenou um ataque sistemático e geral às autoridades. Marcos Willians Herba Camacho, o Marcola, líder do PCC, insatisfeito com o tratamento recebido pelas autoridades penitenciárias, decidiu mandar um aviso à sociedade civil: me respeitem ou eu páro São Paulo.
E parou mesmo. Até conseguir o que queria. A maior cidade do país entrou em pânico, vivendo a maior crise de segurança pública de sua história. Os ataques só cessaram após encontro de autoridades do governo paulista com Marcola e a aceitação de suas exigências, dentre as quais a instalação de 60 televisores de plasma nos principais presídios do estado.
Muitos cidadãos acharam que o pânico foi excessivo. Outros acharam que tudo não passou de boataria. Bem, se você acha que a morte de quase 100 pessoas em apenas 2 dias, 80 ônibus incendiados, ataques a prédios públicos e rebelião em presídios, se você acha que isso não deveria despertar pânico na população, então você está pronto para residir em Bagdá, numa casinha bonita perto de uma base americana, e só para mostrar coragem hastear uma bandeirinha dos EUA no jardim.
O negócio foi feio. O ex-governador do estado, dr.Geraldo Alckmin, soltou mais uma de suas pérolas de sabedoria: "criminalidade é uma coisa séria". Que bom que temos políticos dotados de tanta visão e inteligência! Não fosse ele dizer isso, por quanto tempos ficaríamos iludidos, pensando que a criminalidade não passa de brincadeirinha inocente de garotos mimados! Quando fôssemos assaltados, diríamos aos bandidos: "pára com essa brincadeira, seu bobo, aponta essa arma para lá!". Iluminados pela sabedoria de nossos políticos, podemos tocar nossa vida.
A declaração do governador Claudio Lembo - que não fosse pelo episódio jamais seria tão conhecido nacionalmente - de que a situação estava "sob controle", também foi fundamental para nos tranquilizar. Mesmo aqui no Rio, eu estava preocupado com o que ocorria em São Paulo. Após ouvir Lembro dizer que a situação estava controlada, relaxei e fui dormir tranquilo como um bebê dopado. Ou morto.
O fato é que o PCC matou São Paulo por dois dias e duas noites. As febris madrugadas paulistanas converteram-se em noites vazias e silenciosas. A solução para o problema é complexa. A direita quer endurecer, a esquerda não sabe o que fazer. A classe média quer repressão. Os pobres pagam o pato: a polícia invade as periferias, mata uns pretinhos, diz que são traficantes e sacia a sede de sangue da opinião pública. Intelectuais e artistas voltam a ocupar bares da moda e bebem e cheiram os problemas.
Uns dizem que a melhor saída para o problema da segurança pública nas metrópoles brasileiras continua sendo o aeroporto. Sinceramente, não tenho respostas. Não sou especialista em segurança. Mas tenho uma opinião. Em meio a tantas notícias e declarações sobre o caos paulista, alguém disse que os presidiários têm regalias demais em Sampa. Bem, até onde eu sei, é o contrário. Temos presídios super-lotados, com pessoas vivendo em condições desumanas. Disseram também que é preciso aumentar a pena. Outra besteira, a meu ver. Tem é que transformar os presídios em centros de reciclagem. Investir mais na área de inteligência da polícia e usar menos truculência no trato com as comunidades. Detectar as áreas urbanas mais sensíveis e realizar aí investimentos sociais maciços.
A sociedade civil também precisa participar mais. Em vez das toneladas de teses sobre o homossexualismo de Miguel de Cervantes ou a crise do ser em Heidegger, as universidades podiam contribuir com mais estudos, pesquisas e propostas sobre o tema. Todos os cursos poderiam ajudar, inclusive o de Letras (para ficarmos no terreno literário do exemplo que usei), que poderia elaborar teses sobre o imaginário de violência que prospera na periferia, e como usar a arte e a literatura para convencer crianças e jovens de que o caminho da paz pode ser muito mais corajoso e frutífero do que pegar em armas e lutar uma guerra insana e suicida contra o Estado de direito.
Crônica de uma tarde bêbada
(Conto publicado na última edição do Paralelos, corrigido)
Tenho feito caminhadas pelos arredores da Cruz Vermelha, esmiuçando antigos casarios, sobrados coloniais, a rica e decadente arquitetura do centro da cidade. Há uma energia misteriosa nas ruas cujo significado procuro decifrar. Saio de casa à tarde, por volta das três ou quatro horas. O céu muito azul. Subo a Riachuelo, passando pelo Hospital Espanhol, a Academia Brasileira de Filosofia, entro pela Marques de Pombal, viro na Irineu Marinho, paro num bar e peço uma cerveja.
A sede do jornal O Globo fica na esquina. Enquanto bebo cerveja, procuro identificar algum jornalista. Não vejo nenhum, apenas algumas moças com pinta de estagiária andando apressadas.
Finalmente aparece um cara com pinta de jornalista. Alto, branco, olhos azuis, óculos de aros vermelhos, a roupa limpa e bem passada, cores claras e alegres. Tem um porte altivo, orgulhoso, deve escrever sobre política. Um desses jornalistas que, apesar de assinarem as matérias, a gente nunca sabe o nome, nem lhes conhece o rosto, porque só os colunistas é que ficam famosos.
Ao passar por mim, ele me olha fixamente, de forma um pouco exagerada. Minutos depois ele retorna, entra no bar. Compra cigarros, me observa de perto. Sustento o olhar. Ele sorri, pede um uísque, não tem, pede um conhaque, bebe, me encarando sorrindo. Eu sorrio, iniciamos uma conversa amena. Ele é jornalista, de fato, de política, na mosca!
Na casa dele, cheiramos umas carreiras, ele pergunta se estou com fome, não estou, ele abre o bar e pega uma garrafa de uísque. Eu vou até o som, escolho um cd, ligo, fico dançando, excitada e feliz no centro da sala.
Enquanto danço, excitada, no centro da sala, olho-me no espelho e vejo um homem. Eu sou agora o jornalista de óculos de aros vermelhos, eu sou alto, branco, de olhos azuis e a mulher, que era eu, está sentada no sofá, beijando outra garota. Vou até o bar, completo meu copo, pego o gelo e lembro do que fiz durante o dia. Conversei, ao telefone, com um senador, que me transmitiu informações explosivas sobre a crise política.
As duas prosseguem a perfomance. Uma é garota de programa. A outra, ex-eu, é meio estranha, mas bonita. Encontrei-a num bar perto do jornal. Disse-me que estava escrevendo uma crônica sobre a Cruz Vermelha e precisava de histórias.
Elas páram de se beijar. Uma delas está sem camisa, tem seios grandes, com mamilos enormes, inchados, respira forte, quer sexo. Chamo-a de peituda, ela ri, tem dentes um pouco cavalados, mas o rosto é harmonioso, olhos castanhos claros, nariz fino e lábios suavemente carnudos. Ela acaricia os próprios seios e roça uma perna na outra.
A outra é a escritora, magra, seios pequenos, olheiras profundas muito sensuais, chamo-a de Sherazade. Ela tem um sorriso giocôndico, está cheirando muito pó, digo para tomar cuidado, esse é puro.
No espelho vejo que continuo sendo o jornalista alto, mas estou um pouco mais gordo, e não tenho mais os olhos azuis. A peituda desapareceu. Há somente eu e a escritora na sala, nós dois dançando, eu beijo seu pescoço, ela estremece. Ela me diz que estuda jornalismo, que está desiludida com a profissão, uns vendidos. Não estico o assunto enjoado, já sei o que ela vai falar, sempre a mesma coisa. Beijo sua boca, ela me morde os lábios.
"Puta que pariu! Você me machucou!"
Ela tem um olhar estranho, me dá calafrios. Me afasto um pouco, olho bem dentro de seus olhos, vejo um brilho de loucura, que merda, não tenho sorte com mulher, quando é bonita é louca, quando é legal é um tribufu. Ela pega a estátua de mármore sobre a mesa e parte pra cima de mim, insana!
No espelho, levo um susto, sou eu quem segura a estátua de mármore, estou no meio de um impulso, acerto a cabeça do jornalista, ouço o som dos ossos partindo. O sangue espirra na minha roupa. Ele cai, desacordado, morto?
Revisto à casa à procura de jóias, dinheiro, carteira, agenda. Encontro a agenda, dou sorte, ele anota as senhas do cartão. Limpo as impressões digitais, apago a luz, saio do prédio chique em Ipanema, tomando cuidado para não ser vista por ninguém. São três e cinquenta da madrugada.
Entro no carro dele, estacionado na rua, disparo pelas avenidas, acelero enlouquecidamente no aterro.
Acordo no dia seguinte, vou ao banco, saco o máximo de dinheiro, compro os jornais, paro num bar perto da Cruz Vermelha para beber uma cerveja. Dali a meia hora, vou ao banheiro fazer xixi, o espelhinho me devolve a imagem de um homem com aproximadamente trinta anos, muito bêbado, tentando organizar os pensamentos: bem, com sete reais dá para beber exatamente três itaipavas e uma cachaça com limão.
Tenho feito caminhadas pelos arredores da Cruz Vermelha, esmiuçando antigos casarios, sobrados coloniais, a rica e decadente arquitetura do centro da cidade. Há uma energia misteriosa nas ruas cujo significado procuro decifrar. Saio de casa à tarde, por volta das três ou quatro horas. O céu muito azul. Subo a Riachuelo, passando pelo Hospital Espanhol, a Academia Brasileira de Filosofia, entro pela Marques de Pombal, viro na Irineu Marinho, paro num bar e peço uma cerveja.
A sede do jornal O Globo fica na esquina. Enquanto bebo cerveja, procuro identificar algum jornalista. Não vejo nenhum, apenas algumas moças com pinta de estagiária andando apressadas.
Finalmente aparece um cara com pinta de jornalista. Alto, branco, olhos azuis, óculos de aros vermelhos, a roupa limpa e bem passada, cores claras e alegres. Tem um porte altivo, orgulhoso, deve escrever sobre política. Um desses jornalistas que, apesar de assinarem as matérias, a gente nunca sabe o nome, nem lhes conhece o rosto, porque só os colunistas é que ficam famosos.
Ao passar por mim, ele me olha fixamente, de forma um pouco exagerada. Minutos depois ele retorna, entra no bar. Compra cigarros, me observa de perto. Sustento o olhar. Ele sorri, pede um uísque, não tem, pede um conhaque, bebe, me encarando sorrindo. Eu sorrio, iniciamos uma conversa amena. Ele é jornalista, de fato, de política, na mosca!
Na casa dele, cheiramos umas carreiras, ele pergunta se estou com fome, não estou, ele abre o bar e pega uma garrafa de uísque. Eu vou até o som, escolho um cd, ligo, fico dançando, excitada e feliz no centro da sala.
Enquanto danço, excitada, no centro da sala, olho-me no espelho e vejo um homem. Eu sou agora o jornalista de óculos de aros vermelhos, eu sou alto, branco, de olhos azuis e a mulher, que era eu, está sentada no sofá, beijando outra garota. Vou até o bar, completo meu copo, pego o gelo e lembro do que fiz durante o dia. Conversei, ao telefone, com um senador, que me transmitiu informações explosivas sobre a crise política.
As duas prosseguem a perfomance. Uma é garota de programa. A outra, ex-eu, é meio estranha, mas bonita. Encontrei-a num bar perto do jornal. Disse-me que estava escrevendo uma crônica sobre a Cruz Vermelha e precisava de histórias.
Elas páram de se beijar. Uma delas está sem camisa, tem seios grandes, com mamilos enormes, inchados, respira forte, quer sexo. Chamo-a de peituda, ela ri, tem dentes um pouco cavalados, mas o rosto é harmonioso, olhos castanhos claros, nariz fino e lábios suavemente carnudos. Ela acaricia os próprios seios e roça uma perna na outra.
A outra é a escritora, magra, seios pequenos, olheiras profundas muito sensuais, chamo-a de Sherazade. Ela tem um sorriso giocôndico, está cheirando muito pó, digo para tomar cuidado, esse é puro.
No espelho vejo que continuo sendo o jornalista alto, mas estou um pouco mais gordo, e não tenho mais os olhos azuis. A peituda desapareceu. Há somente eu e a escritora na sala, nós dois dançando, eu beijo seu pescoço, ela estremece. Ela me diz que estuda jornalismo, que está desiludida com a profissão, uns vendidos. Não estico o assunto enjoado, já sei o que ela vai falar, sempre a mesma coisa. Beijo sua boca, ela me morde os lábios.
"Puta que pariu! Você me machucou!"
Ela tem um olhar estranho, me dá calafrios. Me afasto um pouco, olho bem dentro de seus olhos, vejo um brilho de loucura, que merda, não tenho sorte com mulher, quando é bonita é louca, quando é legal é um tribufu. Ela pega a estátua de mármore sobre a mesa e parte pra cima de mim, insana!
No espelho, levo um susto, sou eu quem segura a estátua de mármore, estou no meio de um impulso, acerto a cabeça do jornalista, ouço o som dos ossos partindo. O sangue espirra na minha roupa. Ele cai, desacordado, morto?
Revisto à casa à procura de jóias, dinheiro, carteira, agenda. Encontro a agenda, dou sorte, ele anota as senhas do cartão. Limpo as impressões digitais, apago a luz, saio do prédio chique em Ipanema, tomando cuidado para não ser vista por ninguém. São três e cinquenta da madrugada.
Entro no carro dele, estacionado na rua, disparo pelas avenidas, acelero enlouquecidamente no aterro.
Acordo no dia seguinte, vou ao banco, saco o máximo de dinheiro, compro os jornais, paro num bar perto da Cruz Vermelha para beber uma cerveja. Dali a meia hora, vou ao banheiro fazer xixi, o espelhinho me devolve a imagem de um homem com aproximadamente trinta anos, muito bêbado, tentando organizar os pensamentos: bem, com sete reais dá para beber exatamente três itaipavas e uma cachaça com limão.
O Crime compensou

O grande mérito de Crime Delicado, o novo filme de Beto Brant, é a ruptura com certos cacoetes televisivos que vinham contaminando o cinema nacional. Era necessário que um diretor do quilate de Brant, consagrado por três longas de sucesso (Matadores, Ação entre Amigos, Invasor), lembrasse ao distinto público que cinema é cinema, tv é tv.
Nada contra a televisão, o meio audivisual mais popular do país. Mas é que a tv está amarrada a uma linguagem padronizada, feita para agradar comerciantes e voltada na maioria das vezes para a quantidade, não para a qualidade.
Crime Delicado é um filme sem pretensões de bater recorde de bilheteria; seu público preferencial deve possuir uma bagagem cultural mínima. O texto do filme, notadamente os monólogos do protagonista, o crítico de teatro Antônio Martins, é complexo, sofisticado, difícil. Brant fez um filme cult.
Não é um filme hermético, porém. A generosidade das imagens, a fotografia voluptuosa de Walter Carvalho e o documentarismo viril de algumas cenas, neutralizam a suposta “intelectualidade” do filme e nos recorda que estamos diante de um trabalho de Brant, o mesmo diretor de vertiginosos filmes de ação.
“Você não ama nada!”, acusa o personagem interpretado por Claudio Assis, dirigindo-se ao crítico. A acusação de Assis atinge também o público, a sociedade, a mídia, a raça humana, constantemente obcecados em negar que é o amor, enquanto paixão e loucura, o motivo capital de nossa breve passagem na Terra...
A própria presença do diretor de Amarelo Manga no filme é uma forma de posicionamento político muito claro de Brant. O cinema, enquanto arte industrial, com necessidades financeiras muito superiores às outras e, no caso do Brasil, sofrendo de uma crônica dependência do Estado como financiador, não pode se furtar ao debate da política cultural. Claudio Assis, Lírio Ferreira e, agora, Beto Brant, já explicitaram, em viva voz e em película, o seu apoio à política de financiamento a filmes de baixo orçamento, no caso 1 a 2 milhões de reais. Essa política tornou possível a produção de dezenas de bons filmes por ano e não de três ou quatro super-produções. Não que a super-produção não seja importante, mas é preciso antes democratizar a produção cinematográfica no país, e para isso é necessário desenvolver a criatividade e aprender a fazer bons filmes com menos dinheiro.
O filme, embora utilize uma linguagem sofisticada, não é conceitual, graças a Deus. Tem ritmo, volúpia, intensidade, texto, enredo. Brant conseguiu unir sua experiência como narrador de histórias ao talento, desconhecido nele até então, como provocador estético e criador de uma linguagem peculiar e original.
O diálogo com o teatro e as artes plásticas foi uma sacação brilhante de Brant, uma idéia tão espantosamente simples, eficaz e elegante, que soa como um novo 11 de setembro para o cinemão bilionário que alguns medalhões ainda reclamam para o audivisual brasileiro.
Se a violência presente nos filmes anteriores nunca foi gratuita, antes sempre um componente estético necessário à narrativa e usado sem apelação, desta fez Brant conseguiu sublimar a violência do mundo real, transformando-a em pura arte. Vale ressaltar ainda que os créditos de Crime Delicado não ficam apenas com Brant, mas com toda sua extraordinária equipe, com destaque para o produtor e amigo-de-guerra Renato Ciasca e para a qualidade plástica dos trabalhos do mexicano Felipe Ehrenberg.
O desempenho dos atores principais, Marcos Ricca e Lilian Taublib, produz o desconforto da verossimilhança bruta. A falta de uma perna em Lilian não é mais um defeito, mas um poderoso recurso estético, um toque desconcertante, uma singularidade dolorosa e, por isso mesmo, prodigiosamente universal.
Música e poesia nas ruas
Recentemente vivenciei dois grandes acontecimentos musicais. O primeiro foi a compra de um aparelho MP3 Player. A segunda foi a passagem do poeta blogueiro Jorge Ferreira pelo Rio de Janeiro, à caminho da Nova Zelândia, deixando um rastro de 400 músicas em meu computador.
Desde então, gravo as músicas no meu MP3 Player e vou caminhar pelas redondezas do meu querido Bairro de Fátima, região central do Rio de Janeiro. Escutando um Tim Maia da fase Racional, subo a escadaria atrás da praça principal, ando um pouco, viro na Costa Bastos e sigo até Santa Teresa. Fiz esse percurso muitas vezes.
Ultimamente, tenho optado por um trajeto distinto, perambulando aleatoriamente pelas adjacências da Cruz Vermelha. As ruas pelas quais passo, nesse caminho, são Riachuelo, Marques de Pombal, Irineu Marinho, Santana, Mem de Sá, Resende, Inválidos. Passo por casarios antigos, prédios decadentes dos anos 30 ou 40, construções coloniais, igrejas góticas. Esse caminho tem a desvantagem de ser mais tentador. São dezenas de botequins pitorescos, clássicos, e eventualmente paro num deles para beber uma cerveja e "sentir" o ambiente.
O mais importante, porém, é que voltei a escutar música com reverência e prazer. Sons que tenho curtido: Erasmo Carlos, fase antiga; Bob Dylan; Jorge Benjor; Led Zeppelin; Raul Seixas; e muitos outros.
Bem, dito isto, vamos a outra parte deste post. Creio que venho perdendo meus já raros leitores pela ausência e pela frieza nas postagens, ultimamente apenas contos, sem nenhuma reportagem cultural ou narrativa boêmia. O cachê do blogueiro, já disse alhures, são os comentários. Se o blogueiro não se esforça, perde o cachê.
Vamos tentar consertar isso, contando como foi a sexta-feira passada. Nilton Pinho, artista plástico e companheiro de copo, futebol e trocadilhos, produziu um breve mas interessante espetáculo em Santa Teresa. Vale adiantar que a Petrobrás patrocinou dezenas de eventos artísticos nesta Semana Santa. Música, artes plásticas, poesia, a programação foi intensa. O evento do Nilton consistiu numa perfomance de Fernando Mendonça, também artista plástico e sua esposa. Fernando desceu uma ruazinha vestido de Jesus Cristo, carregando uma cruz estilizada, obra do Nilton, que prendeu na entrada da padaria. Sentada no meio fio, a mulher do Fernando representava Madalena, trajada como mendiga. Eles conversam, brincam de futebol, depois Madalena entra na padaria e volta com um monte de sacolas com bolas de futebol e pãezinhos, que distribui para o público.
Foi divertido. Isso foi às 14:00, num dia de sol e céu azul do Rio de Janeiro. Pouco antes, tomei umas cervejas no Mineiro com a Priscila e Vincent, um canadense que estava sendo ciceroniado pela gente (ou pela Pri, para ser mais exato). Nesta hora, aparece o escritor Botika, sem camisa e brincalhão como sempre, nos cumprimenta e me convida para recitar poesia em evento que coordenaria mais tarde, no Mineiro.
A Pri queria trocar de roupa, então descemos pela Ladeira do Castro e, lá embaixo, eu e Vincent esperamos num barzinho da Nossa Senhora de Fátima, bebendo umas cervejas. Consegui arranhar um francês sofrível, todo errado, mas ao cabo relativamente eficaz. Neste momento, Vincent quis algumas informações sobre a situação política, assunto que tento evitar a todo custo ultimamente, mas não me omiti e consegui dar minha opinião para o canadense de Quebéc, dono de uma agência de turismo. A Pri chegou e subimos pela escadaria da praça que dá na Monte Alegre, e chegamos ao fim do espetáculo do Céu na Terra. Reencontramos o pessoal, meus amigos artistas plásticos de Santa Teresa, o Nilton Pinho, Juliano Guilherme, Hélcio Barros, entre outros. Fomos pra casa do Hélcio, o Vincent sempre à vontade, depois devoramos uma pizza num restaurante e voltamos ao Largo dos Guimarães. Nesta noite, estavam programados vários espetáculos de poesia. Encontrei o Gean no Largo, apresenteio-o ao Vincent, que comprou um livro de poesia. O Vincent estava fascinado com a concentração de artistas em tão pouco espaço.
Chegamos ao Mineiro, pegamos uma mesa e os trabalhos começaram. Neste momento, eu estava empapuçado de cerveja e passei para o destilado, uísque nacional. Nada da poesia começar. Até que Maurição sobe na mesa ao lado, ocupada por três moçoilas perplexas, e inaugura o Cep 20.000. O Maurição tem perto de 1.90 m de altura e deve pesar mais de cem quilos. Estas medidas e mais o seu comportamento frenético e ostensivamente alcoolizado devem ter contribuido para a perplexidade das moças desavisadas.
Maurição gritou seus versos no gogó, depois veio o Guilherme Zarvos, recitou outros poemas e aí um monte de poetas já estava fazendo fila para recitar. Infelizmente, a acústica do Mineiro não era boa e pouco se compreendia do que se falava. Maurição viu-me na última mesa do bar, soturno como sempre e gritou:
MIGUEL DO ROSÁRIO, VOCÊ PODE! VEM AQUI!
E puxou um dos poetas que insistia em falar antes de mim. Eu estava sem meu novo livro de poemas (Antes que chegue a primavera), pois o tinha emprestado para o Botika mais cedo, pensando que o encontraria à noite, mas ele não apareceu. Cooperativo, não neguei fogo e subi na cadeira. Recitei o início do Fantasma da Puta, um dos poucos que sei de cor, mas minha voz não teve uma impostação legal no ambiente. Acabei errando os versos, entrei em outro poema e percebi que ninguém estava entendendo nada. Para piorar, o Zarvos ficou arrotando do meu lado, não sei se porque não estava gostando ou por excesso de gases. Encerrei minha perfomance um pouco melancolicamente e voltei à mesa.
Chacal também deus as caras e recitou alguma coisa. Ericson Pires apareceu, com seu novo looking surfista. Laurent Gabriel estava do lado de fora, dizendo-me que aceitava a proposta para publicar seu livro de poemas pelo Arte & Política.
Encontrei uns amigos, bebi bastante, depois fizemos uma caminhada insensata até o Largo das Neves atrás de outro ambiente. Mas estava tudo fechado lá, como eu previa e voltamos ao Mineiro, a esta hora já encerrando.
Descemos para Lapa, sempre na companhia do Vincent, passamos pela porta do Estrela da Lapa, do Carioca da Gema e do Rio Scenarium, e terminamos a noite na Pizzaria Encontros Cariocas.
Desde então, gravo as músicas no meu MP3 Player e vou caminhar pelas redondezas do meu querido Bairro de Fátima, região central do Rio de Janeiro. Escutando um Tim Maia da fase Racional, subo a escadaria atrás da praça principal, ando um pouco, viro na Costa Bastos e sigo até Santa Teresa. Fiz esse percurso muitas vezes.
Ultimamente, tenho optado por um trajeto distinto, perambulando aleatoriamente pelas adjacências da Cruz Vermelha. As ruas pelas quais passo, nesse caminho, são Riachuelo, Marques de Pombal, Irineu Marinho, Santana, Mem de Sá, Resende, Inválidos. Passo por casarios antigos, prédios decadentes dos anos 30 ou 40, construções coloniais, igrejas góticas. Esse caminho tem a desvantagem de ser mais tentador. São dezenas de botequins pitorescos, clássicos, e eventualmente paro num deles para beber uma cerveja e "sentir" o ambiente.
O mais importante, porém, é que voltei a escutar música com reverência e prazer. Sons que tenho curtido: Erasmo Carlos, fase antiga; Bob Dylan; Jorge Benjor; Led Zeppelin; Raul Seixas; e muitos outros.
Bem, dito isto, vamos a outra parte deste post. Creio que venho perdendo meus já raros leitores pela ausência e pela frieza nas postagens, ultimamente apenas contos, sem nenhuma reportagem cultural ou narrativa boêmia. O cachê do blogueiro, já disse alhures, são os comentários. Se o blogueiro não se esforça, perde o cachê.
Vamos tentar consertar isso, contando como foi a sexta-feira passada. Nilton Pinho, artista plástico e companheiro de copo, futebol e trocadilhos, produziu um breve mas interessante espetáculo em Santa Teresa. Vale adiantar que a Petrobrás patrocinou dezenas de eventos artísticos nesta Semana Santa. Música, artes plásticas, poesia, a programação foi intensa. O evento do Nilton consistiu numa perfomance de Fernando Mendonça, também artista plástico e sua esposa. Fernando desceu uma ruazinha vestido de Jesus Cristo, carregando uma cruz estilizada, obra do Nilton, que prendeu na entrada da padaria. Sentada no meio fio, a mulher do Fernando representava Madalena, trajada como mendiga. Eles conversam, brincam de futebol, depois Madalena entra na padaria e volta com um monte de sacolas com bolas de futebol e pãezinhos, que distribui para o público.
Foi divertido. Isso foi às 14:00, num dia de sol e céu azul do Rio de Janeiro. Pouco antes, tomei umas cervejas no Mineiro com a Priscila e Vincent, um canadense que estava sendo ciceroniado pela gente (ou pela Pri, para ser mais exato). Nesta hora, aparece o escritor Botika, sem camisa e brincalhão como sempre, nos cumprimenta e me convida para recitar poesia em evento que coordenaria mais tarde, no Mineiro.
A Pri queria trocar de roupa, então descemos pela Ladeira do Castro e, lá embaixo, eu e Vincent esperamos num barzinho da Nossa Senhora de Fátima, bebendo umas cervejas. Consegui arranhar um francês sofrível, todo errado, mas ao cabo relativamente eficaz. Neste momento, Vincent quis algumas informações sobre a situação política, assunto que tento evitar a todo custo ultimamente, mas não me omiti e consegui dar minha opinião para o canadense de Quebéc, dono de uma agência de turismo. A Pri chegou e subimos pela escadaria da praça que dá na Monte Alegre, e chegamos ao fim do espetáculo do Céu na Terra. Reencontramos o pessoal, meus amigos artistas plásticos de Santa Teresa, o Nilton Pinho, Juliano Guilherme, Hélcio Barros, entre outros. Fomos pra casa do Hélcio, o Vincent sempre à vontade, depois devoramos uma pizza num restaurante e voltamos ao Largo dos Guimarães. Nesta noite, estavam programados vários espetáculos de poesia. Encontrei o Gean no Largo, apresenteio-o ao Vincent, que comprou um livro de poesia. O Vincent estava fascinado com a concentração de artistas em tão pouco espaço.
Chegamos ao Mineiro, pegamos uma mesa e os trabalhos começaram. Neste momento, eu estava empapuçado de cerveja e passei para o destilado, uísque nacional. Nada da poesia começar. Até que Maurição sobe na mesa ao lado, ocupada por três moçoilas perplexas, e inaugura o Cep 20.000. O Maurição tem perto de 1.90 m de altura e deve pesar mais de cem quilos. Estas medidas e mais o seu comportamento frenético e ostensivamente alcoolizado devem ter contribuido para a perplexidade das moças desavisadas.
Maurição gritou seus versos no gogó, depois veio o Guilherme Zarvos, recitou outros poemas e aí um monte de poetas já estava fazendo fila para recitar. Infelizmente, a acústica do Mineiro não era boa e pouco se compreendia do que se falava. Maurição viu-me na última mesa do bar, soturno como sempre e gritou:
MIGUEL DO ROSÁRIO, VOCÊ PODE! VEM AQUI!
E puxou um dos poetas que insistia em falar antes de mim. Eu estava sem meu novo livro de poemas (Antes que chegue a primavera), pois o tinha emprestado para o Botika mais cedo, pensando que o encontraria à noite, mas ele não apareceu. Cooperativo, não neguei fogo e subi na cadeira. Recitei o início do Fantasma da Puta, um dos poucos que sei de cor, mas minha voz não teve uma impostação legal no ambiente. Acabei errando os versos, entrei em outro poema e percebi que ninguém estava entendendo nada. Para piorar, o Zarvos ficou arrotando do meu lado, não sei se porque não estava gostando ou por excesso de gases. Encerrei minha perfomance um pouco melancolicamente e voltei à mesa.
Chacal também deus as caras e recitou alguma coisa. Ericson Pires apareceu, com seu novo looking surfista. Laurent Gabriel estava do lado de fora, dizendo-me que aceitava a proposta para publicar seu livro de poemas pelo Arte & Política.
Encontrei uns amigos, bebi bastante, depois fizemos uma caminhada insensata até o Largo das Neves atrás de outro ambiente. Mas estava tudo fechado lá, como eu previa e voltamos ao Mineiro, a esta hora já encerrando.
Descemos para Lapa, sempre na companhia do Vincent, passamos pela porta do Estrela da Lapa, do Carioca da Gema e do Rio Scenarium, e terminamos a noite na Pizzaria Encontros Cariocas.
A filha do bicheiro
Bem que eu tentava aparentar tristeza, mas os garçons não parávam de me servir uísque importado e ela continuava a me sorrir do outro lado da sala. O defunto parecia indiferente ao flerte entre sua filha e eu. Fosse vivo, eu já teria ido embora, evitando confusão, ou melhor, evitando uma morte violenta. Há tempos Danny insinuava-se pra mim. Eu fingia que não reparava. Garota louca, paquerar um cara de quarenta, pobretão, ela com só vinte aninhos e tão rica.
Virgílio de Andrade morrera de crise renal, quem diria. Um sujeito que escapara de mais de vinte tentativas de assassinato, terminar assim, vítima de si próprio, um cadáver de terno e gravata no meio da sala, enquanto seus convidados enchiam a cara e riam de sua lembrança.
Ela veio se aproximando, aos poucos, conversando com as pessoas no trajeto, até que se postou a meu lado, sorrisinho safado.
"Oi! Você vai na festa hoje?"
Olhei para os lados, algumas pessoas nos observavam com malícia. Senti vontade de fumar um cigarro, mas tinha parado de fumar há meses.
"Pô Danny, festa? Seu pai morreu e você dá uma festa?"
"Ah, deixa de ser careta! Quem inventou essas convenções? Morreu morreu! Quem fica tem de comemorar o fato de estar vivo."
Ela olhou-me daquele jeito que me deixava louco, revirando os olhos. Mexeu na blusa, aumentando o decote. Continuou:
"Estou esperando você lá! Vou ficar muuuuito triste se você não for."
E saiu, recebendo os cumprimentos de conhecidos com um ar visivelmente enfastiado. Antes de atravessar a porta da sala do velório, voltou-se e me deu tchauzinho.
Aceitei mais uísque e senti vontade de chorar. De alegria. Aquela garota era meu sonho de consumo. Peitos grandes, coxas grossas, bunda perfeita, cinturinha, cabelos longos pintados de louro, e safadinha que só ela. Quando eu fazia plantão dentro da casa, ela sempre aparecia, exibindo-se. Mergulhava na piscina, estendia-se no quintal, toda gostosa, procurando me excitar. Uma vez ela se deitou na beira da piscina, de biquini, e começou a se masturbar, suavemente. Eu podia ver Seu Virgílio lá dentro, lendo jornal, e não sabia o que fazer para esconder minha ereção. Ela reparou e continuou, olhando-me nos olhos. Gozou com um sorriso que se me fixou na cabeça por meses, torturando-me.
Trabalhar para um bicheiro nunca havia me passado pela cabeça antes de ser expulso da polícia civil, acusado de receber propina. Ah, que piada. Todo mundo fazia isso, mas eu fui escolhido para ser o bode expiatório da tal "nova gestão".
Anoitecia. Despedi-me de quem eu conhecia e saí do velório. Consumia-me pensando em Danny, se valia a pena investir na garota. O filho do bicheiro, Castorzinho, tinha apenas vinte e dois anos, era um playboy total, preocupando-se apenas com carros, mulheres e drogas. Mas não era cego. Não lhe agradaria ver a irmã saindo com um dos seguranças. Seria capaz de mandar me matar com o mesmo sangue frio do pai.
Gastei algumas horas num botequim próximo, bebendo cerveja e tentando não pensar em nada. Faria o que me viesse na telha, na hora certa.
Às dez e meia, estava totalmente bêbado. Chamei um táxi e disse o endereço.
Ela estava linda, com um vestido muito curto, colado ao corpo. Abraçou-me longamente. Disse-lhe que estava bêbado. Ela pegou-me na mão, fez-me sentar num sofá, trouxe água com gás e aconchegou-se em meu colo, fazendo-me carícias no rosto.
Não tinha muita gente na festa, apenas alguns amigos mais chegados. Senti-me melhor após algum tempo. Ela chamou uma de suas amigas, uma morena magrinha, de short. As duas sentaram-se em meu colo e beijaram-se. A morena abaixou a parte de cima do vestido de Danny, fazendo os peitões saltarem. A morena esfregava-se na minha perna e com uma das mãos apertou meu pau por cima da calça. Enfim, ainda a morena, abriu meu flechequer e tirou meu pau pra fora, enorme, duro, latejando. Seus olhos brilharam e atirou-se de boca no mastro, chupando sofregamente. Danny acariciava os próprios seios com uma mão e se masturbava com a outra, não usava calcinha. Sorria-me e dizia-me algo que eu não podia compreender.
"Fui eu."
"O quê?"
"Fui eu."
"Você o quê?"
"Eu matei meu pai."
"O quê?"
"Troquei os remédios dele."
"Ãh?"
Ela não paráva de se masturbar enquanto falava. Fazia caretas como se fosse gozar. A outra continuava me chupando decididamente. Eu estava aprisionado. Enfim, entendi o que ela me dizia.
"Queria ficar com você."
"Danny! Você ficou louca?"
"Não queria ninguém entre nós."
Gozei na boca da morena. Senti Danny estremecer num orgasmo prolongado, seu olhar jorrando carinho e paixão. Pensei algo como: há sempre um pouco de morte em todo grande amor.
Virgílio de Andrade morrera de crise renal, quem diria. Um sujeito que escapara de mais de vinte tentativas de assassinato, terminar assim, vítima de si próprio, um cadáver de terno e gravata no meio da sala, enquanto seus convidados enchiam a cara e riam de sua lembrança.
Ela veio se aproximando, aos poucos, conversando com as pessoas no trajeto, até que se postou a meu lado, sorrisinho safado.
"Oi! Você vai na festa hoje?"
Olhei para os lados, algumas pessoas nos observavam com malícia. Senti vontade de fumar um cigarro, mas tinha parado de fumar há meses.
"Pô Danny, festa? Seu pai morreu e você dá uma festa?"
"Ah, deixa de ser careta! Quem inventou essas convenções? Morreu morreu! Quem fica tem de comemorar o fato de estar vivo."
Ela olhou-me daquele jeito que me deixava louco, revirando os olhos. Mexeu na blusa, aumentando o decote. Continuou:
"Estou esperando você lá! Vou ficar muuuuito triste se você não for."
E saiu, recebendo os cumprimentos de conhecidos com um ar visivelmente enfastiado. Antes de atravessar a porta da sala do velório, voltou-se e me deu tchauzinho.
Aceitei mais uísque e senti vontade de chorar. De alegria. Aquela garota era meu sonho de consumo. Peitos grandes, coxas grossas, bunda perfeita, cinturinha, cabelos longos pintados de louro, e safadinha que só ela. Quando eu fazia plantão dentro da casa, ela sempre aparecia, exibindo-se. Mergulhava na piscina, estendia-se no quintal, toda gostosa, procurando me excitar. Uma vez ela se deitou na beira da piscina, de biquini, e começou a se masturbar, suavemente. Eu podia ver Seu Virgílio lá dentro, lendo jornal, e não sabia o que fazer para esconder minha ereção. Ela reparou e continuou, olhando-me nos olhos. Gozou com um sorriso que se me fixou na cabeça por meses, torturando-me.
Trabalhar para um bicheiro nunca havia me passado pela cabeça antes de ser expulso da polícia civil, acusado de receber propina. Ah, que piada. Todo mundo fazia isso, mas eu fui escolhido para ser o bode expiatório da tal "nova gestão".
Anoitecia. Despedi-me de quem eu conhecia e saí do velório. Consumia-me pensando em Danny, se valia a pena investir na garota. O filho do bicheiro, Castorzinho, tinha apenas vinte e dois anos, era um playboy total, preocupando-se apenas com carros, mulheres e drogas. Mas não era cego. Não lhe agradaria ver a irmã saindo com um dos seguranças. Seria capaz de mandar me matar com o mesmo sangue frio do pai.
Gastei algumas horas num botequim próximo, bebendo cerveja e tentando não pensar em nada. Faria o que me viesse na telha, na hora certa.
Às dez e meia, estava totalmente bêbado. Chamei um táxi e disse o endereço.
Ela estava linda, com um vestido muito curto, colado ao corpo. Abraçou-me longamente. Disse-lhe que estava bêbado. Ela pegou-me na mão, fez-me sentar num sofá, trouxe água com gás e aconchegou-se em meu colo, fazendo-me carícias no rosto.
Não tinha muita gente na festa, apenas alguns amigos mais chegados. Senti-me melhor após algum tempo. Ela chamou uma de suas amigas, uma morena magrinha, de short. As duas sentaram-se em meu colo e beijaram-se. A morena abaixou a parte de cima do vestido de Danny, fazendo os peitões saltarem. A morena esfregava-se na minha perna e com uma das mãos apertou meu pau por cima da calça. Enfim, ainda a morena, abriu meu flechequer e tirou meu pau pra fora, enorme, duro, latejando. Seus olhos brilharam e atirou-se de boca no mastro, chupando sofregamente. Danny acariciava os próprios seios com uma mão e se masturbava com a outra, não usava calcinha. Sorria-me e dizia-me algo que eu não podia compreender.
"Fui eu."
"O quê?"
"Fui eu."
"Você o quê?"
"Eu matei meu pai."
"O quê?"
"Troquei os remédios dele."
"Ãh?"
Ela não paráva de se masturbar enquanto falava. Fazia caretas como se fosse gozar. A outra continuava me chupando decididamente. Eu estava aprisionado. Enfim, entendi o que ela me dizia.
"Queria ficar com você."
"Danny! Você ficou louca?"
"Não queria ninguém entre nós."
Gozei na boca da morena. Senti Danny estremecer num orgasmo prolongado, seu olhar jorrando carinho e paixão. Pensei algo como: há sempre um pouco de morte em todo grande amor.
A decadência do capitalismo
Manú tirou o embrulhinho de dentro da bolsa, colocou-o sobre a mesa e falou:
"Aperta aí você que eu tô cansada."
Não se lembrava como ele viera parar em sua casa; conjecturava se tinham feito amor ou coisa parecida. Recordava-se, um pouco confusamente, que fora apresentada a ele por uma amiga, e que o achou interessante e misterioso. Mas agora, observando calmamente, com a mente limpa - apesar da ressaca -, experimentava uma viva decepação: ele era barrigudo, vestia-se mal e era horrivelmente tímido. Sempre odiara caras tímidos, ainda mais quando eram pobres! Pelas maneiras do rapaz, via-se que era de origem humilde. Era moreno, quase negro, com cabelos crespos, e contemplava deslumbrado os móveis e bibelôs da sala de estar. E se ele roubar alguma coisa? Preciso prestar muita atenção, pensou Manú.
Sua principal preocupação, porém, era a chegada iminente dos pais. Eles haviam viajado para a casa deles em Angra e retornariam hoje. Sua mãe dissera que pretendia sair de lá no domingo bem cedo, para fugir do congestionamento. Olhou para o relógio da parede: duas e meia da tarde. Eles deviam chegar a qualquer momento. Caso o rapaz ainda estivesse na casa, ele almoçaria com a família dela, na mesa comprida da sala de jantar. Sempre que tinha visita, a mãe fazia questão que comessem todos juntos na sala. Quando não havia visita, cada um fazia seu prato na cozinha e ia prum canto diferente da casa. Ela ia pra salinha de televisão comer no sofá vendo um filme qualquer no Telecine.
O negócio é que, com todos na mesa, haveria fatalmente uma conversa sobre quem era o rapaz, onde ela o conhecera, o que ele fazia, e todas essas babaquices. Manú morreria de vergonha por ter ficado com uma pessoa de tão baixo nível. A irmã mais nova, que também viajara com os pais, daria aquele sorrisinho insuportável que queria dizer: "tá vendo, sua horrorosa, você é mesmo uma tribufu gorda que só consegue pegar esses estudantezinhos pobres e bêbados que ficam com qualquer mulher depois de certa hora e algumas cervejas".
Ele pegou o embrulhinho, abriu, despejou o conteúdo sobre a mesa e começou a despelotar. Não estava se sentindo à vontade naquele apartamento luxuoso. Mas já que estava ali, queria aproveitar um pouco, fumar um, viajar, escutar uns Cds, olhar, pela janela, as montanhas verdes e o Cristo Redentor. A garota o havia agarrado quase à força na festa. Depois, arrastara-o, também quase à força, para o apartamento dela e se comportara como uma tarada. Mal chegaram, totalmente bêbados, ela abaixou as calças dele e chupou seu pau com uma sofreguidão que nunca vira antes em mulher alguma. Teve que segurar a cabeça dela para não gozar e sobrar energia para fodê-la legal. E foi o que fez, e ela gozou uivando como uma cadela no cio.
Foram para um quartinho nos fundos da cozinha e acenderam o baseado. Ele recostou-se num sofá macio e lembrou do chão duro que fazia o papel de cadeira, mesa e cama de seu conjugado no Bairro de Fátima. Por uma associação óbvia, lembrou-se que não tinha dinheiro nem pro ônibus e praticou, de cabeça, algumas frases de efeito para justificar o pedido de empréstimo que faria à moça. Ela vai saber que sou um pobretão e não vai mais querer sair comigo. Ah, foda-se, ela é uma baranga mesmo. Sem bunda, sem peito, gorda, grandalhona, e agora está se revelando também uma garota arrogante e convencida. Olha só o jeito que ela me olha!
Escutam o barulho da porta se abrindo e apagam o baseado. Manú pega um spray de Bom Ar e perfuma o ambiente. Correm pra sala, antes passando no banheiro e fazendo a higiene básica do maconheiro: lavam as mãos, escovam os dentes e pingam colírio nos olhos. Ela pede que ele vá para seu quarto e espere por lá.
Às três e meia da tarde o almoço foi servido. A mãe preparara espaguete com molho pesto. Sentaram-se todos à mesa, o pai numa cabeceira e o irmãozinho na outra. As duas irmãs ficaram frente à frente; o rapaz ao lado de Manú e a mãe ao lado da outra irmã. Estavam todos mal-humorados de fome. Tinham calculado chegar a uma da tarde, mas um engarrafamento provocado por um acidente na estrada fê-los atrasar em mais de duas horas.
Após as primeiras garfadas, o silêncio pesado foi aos poucos se desfazendo com frases curtas.
"E aí, mãe, fez sol lá?", perguntou Manú.
"No sábado de manhã fez um solão. A gente saiu de barco e fomos a umas ilhas que não conhecíamos."
"Foi super-legal!", empolgou-se o irmãozinho.
" Toninho! Não lhe disse para não falar de boca cheia? ", ralhou a mãe.
Fez-se silêncio novamente. Escutava-se somente os talheres batendo de leve no prato. O pai voltou-se para o rapaz e perguntou:
"Qual é seu nome, rapaz? "
" Arnaldo, senhor. "
" Arnaldo de quê? "
" Pai!", Manú sorria; ela sabia que a última pergunta havia sido apenas provocativa, com sentido cômico. O pai não ligava a mínima para sobrenomes. Ligava sim para o dinheiro que a pessoa, ou a família da pessoa, tinham. Era um legítimo burguês liberal. Estava só puxando assuto; ela sabia disso e protestava para divertir o pai. Arnaldo compreendera tudo e sorria também; respondeu:
"Arnaldo Gomes Pinto, nome de português."
"E você mora aonde, seu Arnaldo Pinto? "
Manú alarmou-se; notara um quê de sarcasmo ou irritação no pai.
"No Bairro de Fátima, na rua do Riachuelo."
"E conhece minha filha de onde? "
"Amor, pára com esse interrogatório. Deixa o rapaz comer em paz", interveio a mãe, incomodada com o fato do rapaz estar, há alguns minutos, com um garfo cheio de comida paralisado no ar.
Arnaldo sorriu de novo e não respondeu. Encheu a boca e põs-se a mastigar lentamente. Sua intuição lhe advertia que alguma coisa estava errada. Alguns minutos depois de silenciosa mastigação, o pai empurrou o prato pra frente, brutalmente. Tinha o rosto muito vermelho e os olhos cravados no rapaz.
"Retire-se imediatamente desta mesa e saia da minha casa, seu vagabundo, seu, seu, seu, seu maconheiro! É! Maconheiro! Eu senti o cheiro quando cheguei em casa. E vocês não conseguiram disfarçar. Dá pra notar que os dois estão doidões."
Foi um susto. Haviam interrompido a mastigação no instante em que o pai empurrou o prato. As primeiras palavras, naquele tom de voz, foram deixando a todos estupefatos. Nunca tinham visto o pai nesse estado. O rapaz estava petrificado. Queria levantar-se e ir embora, mas não conseguia mover um músculo.
Os pensamentos do pai queriam explodir. Eu tenho que falar. Tenho que falar. Tenho. Agora.
"Puta que pariu! Puta que pariu! Eu tô enlouquecendo nessa casa. Tô nervoso, muito nervoso. Estou desesperado. Eu tenho que falar pra vocês. Preciso contar a verdade. Nós estamos falidos. FALIDOS", berrou o pai.
O irmãozinho começou a chorar, apesar de não saber o que significava "falido". Podia sentir, antes que todos, uma coisa muito ruim no ar. Talvez por isso, tenha vomitado tanto durante a viagem. A mãe também chorava, mas discretamente. Então era isso, pensava ela, que já vinha desconfiando de alguma coisa nesse sentido, devido ao péssimo humor do marido durante o fim-de-semana. Aquela especulação doida em que ele e o sócio entraram deve ter criado um rombo monstruoso na empresa. Olhou para o marido, que queria falar mais:
"Temos que vender tudo. Tudo. O apartamento, a casa em Angra, o carro, pra pagar as dívidas da empresa. E mesmo assim vamos ficar devendo. Ficaremos pobres. Eu tô fudido."
Arnaldo sentia o sangue voltar a circular em suas veias. Enfim, não era comigo que o cara tava tão revoltado, refletiu. Levantou-se da mesa completamente ignorado pelos outros, que estavam hipnotizados pela cena terrível de derrocada: o pai chorando convulsivamente, debruçado sobre a mesa, os braços pendendo, mortos, para o chão.
Antes de sair, Arnaldo pegou umas moedinhas que viu em cima de um móvel na saleta da entrada. Deve dar pro ônibus, pensou.
"Aperta aí você que eu tô cansada."
Não se lembrava como ele viera parar em sua casa; conjecturava se tinham feito amor ou coisa parecida. Recordava-se, um pouco confusamente, que fora apresentada a ele por uma amiga, e que o achou interessante e misterioso. Mas agora, observando calmamente, com a mente limpa - apesar da ressaca -, experimentava uma viva decepação: ele era barrigudo, vestia-se mal e era horrivelmente tímido. Sempre odiara caras tímidos, ainda mais quando eram pobres! Pelas maneiras do rapaz, via-se que era de origem humilde. Era moreno, quase negro, com cabelos crespos, e contemplava deslumbrado os móveis e bibelôs da sala de estar. E se ele roubar alguma coisa? Preciso prestar muita atenção, pensou Manú.
Sua principal preocupação, porém, era a chegada iminente dos pais. Eles haviam viajado para a casa deles em Angra e retornariam hoje. Sua mãe dissera que pretendia sair de lá no domingo bem cedo, para fugir do congestionamento. Olhou para o relógio da parede: duas e meia da tarde. Eles deviam chegar a qualquer momento. Caso o rapaz ainda estivesse na casa, ele almoçaria com a família dela, na mesa comprida da sala de jantar. Sempre que tinha visita, a mãe fazia questão que comessem todos juntos na sala. Quando não havia visita, cada um fazia seu prato na cozinha e ia prum canto diferente da casa. Ela ia pra salinha de televisão comer no sofá vendo um filme qualquer no Telecine.
O negócio é que, com todos na mesa, haveria fatalmente uma conversa sobre quem era o rapaz, onde ela o conhecera, o que ele fazia, e todas essas babaquices. Manú morreria de vergonha por ter ficado com uma pessoa de tão baixo nível. A irmã mais nova, que também viajara com os pais, daria aquele sorrisinho insuportável que queria dizer: "tá vendo, sua horrorosa, você é mesmo uma tribufu gorda que só consegue pegar esses estudantezinhos pobres e bêbados que ficam com qualquer mulher depois de certa hora e algumas cervejas".
Ele pegou o embrulhinho, abriu, despejou o conteúdo sobre a mesa e começou a despelotar. Não estava se sentindo à vontade naquele apartamento luxuoso. Mas já que estava ali, queria aproveitar um pouco, fumar um, viajar, escutar uns Cds, olhar, pela janela, as montanhas verdes e o Cristo Redentor. A garota o havia agarrado quase à força na festa. Depois, arrastara-o, também quase à força, para o apartamento dela e se comportara como uma tarada. Mal chegaram, totalmente bêbados, ela abaixou as calças dele e chupou seu pau com uma sofreguidão que nunca vira antes em mulher alguma. Teve que segurar a cabeça dela para não gozar e sobrar energia para fodê-la legal. E foi o que fez, e ela gozou uivando como uma cadela no cio.
Foram para um quartinho nos fundos da cozinha e acenderam o baseado. Ele recostou-se num sofá macio e lembrou do chão duro que fazia o papel de cadeira, mesa e cama de seu conjugado no Bairro de Fátima. Por uma associação óbvia, lembrou-se que não tinha dinheiro nem pro ônibus e praticou, de cabeça, algumas frases de efeito para justificar o pedido de empréstimo que faria à moça. Ela vai saber que sou um pobretão e não vai mais querer sair comigo. Ah, foda-se, ela é uma baranga mesmo. Sem bunda, sem peito, gorda, grandalhona, e agora está se revelando também uma garota arrogante e convencida. Olha só o jeito que ela me olha!
Escutam o barulho da porta se abrindo e apagam o baseado. Manú pega um spray de Bom Ar e perfuma o ambiente. Correm pra sala, antes passando no banheiro e fazendo a higiene básica do maconheiro: lavam as mãos, escovam os dentes e pingam colírio nos olhos. Ela pede que ele vá para seu quarto e espere por lá.
Às três e meia da tarde o almoço foi servido. A mãe preparara espaguete com molho pesto. Sentaram-se todos à mesa, o pai numa cabeceira e o irmãozinho na outra. As duas irmãs ficaram frente à frente; o rapaz ao lado de Manú e a mãe ao lado da outra irmã. Estavam todos mal-humorados de fome. Tinham calculado chegar a uma da tarde, mas um engarrafamento provocado por um acidente na estrada fê-los atrasar em mais de duas horas.
Após as primeiras garfadas, o silêncio pesado foi aos poucos se desfazendo com frases curtas.
"E aí, mãe, fez sol lá?", perguntou Manú.
"No sábado de manhã fez um solão. A gente saiu de barco e fomos a umas ilhas que não conhecíamos."
"Foi super-legal!", empolgou-se o irmãozinho.
" Toninho! Não lhe disse para não falar de boca cheia? ", ralhou a mãe.
Fez-se silêncio novamente. Escutava-se somente os talheres batendo de leve no prato. O pai voltou-se para o rapaz e perguntou:
"Qual é seu nome, rapaz? "
" Arnaldo, senhor. "
" Arnaldo de quê? "
" Pai!", Manú sorria; ela sabia que a última pergunta havia sido apenas provocativa, com sentido cômico. O pai não ligava a mínima para sobrenomes. Ligava sim para o dinheiro que a pessoa, ou a família da pessoa, tinham. Era um legítimo burguês liberal. Estava só puxando assuto; ela sabia disso e protestava para divertir o pai. Arnaldo compreendera tudo e sorria também; respondeu:
"Arnaldo Gomes Pinto, nome de português."
"E você mora aonde, seu Arnaldo Pinto? "
Manú alarmou-se; notara um quê de sarcasmo ou irritação no pai.
"No Bairro de Fátima, na rua do Riachuelo."
"E conhece minha filha de onde? "
"Amor, pára com esse interrogatório. Deixa o rapaz comer em paz", interveio a mãe, incomodada com o fato do rapaz estar, há alguns minutos, com um garfo cheio de comida paralisado no ar.
Arnaldo sorriu de novo e não respondeu. Encheu a boca e põs-se a mastigar lentamente. Sua intuição lhe advertia que alguma coisa estava errada. Alguns minutos depois de silenciosa mastigação, o pai empurrou o prato pra frente, brutalmente. Tinha o rosto muito vermelho e os olhos cravados no rapaz.
"Retire-se imediatamente desta mesa e saia da minha casa, seu vagabundo, seu, seu, seu, seu maconheiro! É! Maconheiro! Eu senti o cheiro quando cheguei em casa. E vocês não conseguiram disfarçar. Dá pra notar que os dois estão doidões."
Foi um susto. Haviam interrompido a mastigação no instante em que o pai empurrou o prato. As primeiras palavras, naquele tom de voz, foram deixando a todos estupefatos. Nunca tinham visto o pai nesse estado. O rapaz estava petrificado. Queria levantar-se e ir embora, mas não conseguia mover um músculo.
Os pensamentos do pai queriam explodir. Eu tenho que falar. Tenho que falar. Tenho. Agora.
"Puta que pariu! Puta que pariu! Eu tô enlouquecendo nessa casa. Tô nervoso, muito nervoso. Estou desesperado. Eu tenho que falar pra vocês. Preciso contar a verdade. Nós estamos falidos. FALIDOS", berrou o pai.
O irmãozinho começou a chorar, apesar de não saber o que significava "falido". Podia sentir, antes que todos, uma coisa muito ruim no ar. Talvez por isso, tenha vomitado tanto durante a viagem. A mãe também chorava, mas discretamente. Então era isso, pensava ela, que já vinha desconfiando de alguma coisa nesse sentido, devido ao péssimo humor do marido durante o fim-de-semana. Aquela especulação doida em que ele e o sócio entraram deve ter criado um rombo monstruoso na empresa. Olhou para o marido, que queria falar mais:
"Temos que vender tudo. Tudo. O apartamento, a casa em Angra, o carro, pra pagar as dívidas da empresa. E mesmo assim vamos ficar devendo. Ficaremos pobres. Eu tô fudido."
Arnaldo sentia o sangue voltar a circular em suas veias. Enfim, não era comigo que o cara tava tão revoltado, refletiu. Levantou-se da mesa completamente ignorado pelos outros, que estavam hipnotizados pela cena terrível de derrocada: o pai chorando convulsivamente, debruçado sobre a mesa, os braços pendendo, mortos, para o chão.
Antes de sair, Arnaldo pegou umas moedinhas que viu em cima de um móvel na saleta da entrada. Deve dar pro ônibus, pensou.
O diabo não bebe cerveja
Faz dez anos que tenho problemas com a bebida. Perdi o emprego. Afastei-me dos amigos, da família. Mas como sempre conseguia um biscate, criando websites ou consertando computadores, vivia sem grandes preocupações. Até que um dia, meti-me numa briga de bar e esfaqueei um homem. Nem lembro direito como aconteceu, apenas de chegar em casa, pela manhã, muito bêbado e com a roupa toda suja de sangue. O sujeito morreu. Aí me acusaram de louco e me prenderam aqui.
Não sou louco. Quero provar a vocês que sou um cara normal. Ou quase. Apenas fui vítima de acontecimentos insólitos, cujas lembranças me tornaram um sujeito desequilibrado emocionalmente.
Começou assim: eu era casado com uma linda mulher e vivia num aconchegante apartamento em Botafogo. Três quartos, duas salas, uma cozinha espaçosa e uma enorme varanda que dava para uma vista magnífica da praia de Botafogo, do Pão de Açúcar e das avenidas litorâneas. Vivíamos um para o outro e não nos separávamos nunca por mais de algumas horas. Até fazer compras no supermercado era, pra nós, uma deliciosa aventura.
Uma noite, recebemos ligação de um amigo, ex-namorado de Eurídice - esse era o nome de minha esposa. Convidou-nos para uma festa em Copacabana. Ficamos empolgados com o programa, pois Hefestos sabia das coisas. Sempre que saíamos com ele, era diversão garantida. Eurídice vestiu uma túnica verde-musgo, amarrada na cintura e cingiu uma flor azul a seus cabelos longos e negros. Eu optei por minha bata branca tradicional.
Chegamos à festa por volta da meia-noite. Tocava um som muito louco e todos dançavam freneticamente. Os garçons passavam servindo bebidas variadas. Mergulhei fundo na coisa. Eurídice me olhava assustada, às vezes, e voltava a dançar. Ela e outra moça, também muito bonita, faziam uma coreografia diabolicamente sensual. Eurídice rebolava, saltava, mexia os peitos, balançava os braços, fazia o diabo com o corpo. A outra garota não deixava por menos, acompanhando-a em todos os movimentos. Eu não estava a fim de dançar e me instalei num banquinho junto ao balcão, concentrado em beber cerveja o mais rápido possível. Aos poucos, ou de repente, não sei, tudo começou a brilhar. Quando dei por mim, estava dançando também. Era estranho, nem parecia eu. Parecia que um demônio tomara conta de meu corpo e dançava em meu lugar. Diversas garotas dançavam comigo, todas bonitas, cabelos compridos, cabelos curtos, cinturas finas, vestidos negros, vermelhos, cintilantes. Fiquei tonto. Desmaiei.
Quando acordei, a boate estava vazia. Por todo lado, centenas de latinhas de cerveja, copos de plástico, sapatos, brincos perdidos, celulares. A primeira coisa que pensei, quando minha mente deu sinais de vida, foi, é claro, em Eurídice. Onde está ela? O engraçado é que assim que pensei isso tive a impressão de já ter a resposta.
Não tenho tempo de descrever todos os lugares sórdidos pelos quais passei antes de encontrá-la. A busca durou meses. Além dos hospitais, clínicas e necrotérios, estive em prostíbulos imundos, sinistras bocas de fumo, bares suspeitos, e outros lugares mal-afamados. Vou resumir: encontrei-a trabalhando numa estranha boate na área portuária de Santos.
Seu chefe era um homem sombrio, parecia estrangeiro e possuía olhos esbugalhados e sempre injetados de sangue. O nome caía-lhe como luva: Plutão. Podia jurar que o sujeito era o próprio diabo em pessoa. Hospedei-me numa espelunca ali perto e passei a observar a rotina de Eurídice. Havia sido praticamente escravizada. O estranho é que não parecia se importar. Por que não fugia? Por que não chamava a polícia? Sem respostas, decidi salvá-la imediatamente, livrá-la das garras daquele demônio.
Esperei uma noite em que Plutão se recolheu mais cedo e Eurídice ficou sozinha atendendo os clientes. Pedi uma cerveja. Quando ela veio, segurei sua mão e a olhei bem nos olhos. Vi que estremecia, mas não havia me reconhecido. O que o desgraçado fizera com ela? Soltei sua mão, deixei que continuasse a trabalhar. Esperei. Lá pelas quatro da manhã, tentei nova abordagem. Falei que era seu marido, que meu nome era Orfeu, e que nós costumávamos ser felizes. Seus olhos brilharam, um lampejo de lucidez cintilou em seu rosto. Senti imenso alívio ao ver que recuperava a memória e me olhava enternecida. Mas durou pouco. Logo voltou ao estado catatônico que, pelo jeito, era seu natural. Voltei ao hotel e esperei o dia seguinte.
Entrei no bar à meia-noite e pedi uma tequila. Plutão estava sentado a uma mesa nos fundos, fumando um charuto e sorvendo um líquido vermelho e viscoso. Aproximei-me. Ele mediu-me por um instante, cumprimentou-me com a cabeça e voltou a se concentrar na bebida. Sem saber como abordá-lo, disse a primeira coisa que me ocorreu.
- Com licença, senhor, poderia me dizer o que está bebendo?
- Sangue. Por quê? Quer um pouco?
- Ah, sangue - respondi, tentando sorrir do que achava ser uma piada. É um novo tipo de bebida?
- É uma bebida especial para pessoas especiais, meu caro. O que você quer?
- Quero levar Eurídice. Ela é minha esposa.
- O quê? Você quer levar minha melhor funcionária?
- Sim. Ela é minha esposa, já falei.
Ele riu e deu mais um gole na bebida nojenta. Puxei um revólver de dentro da calça e apontei para sua cabeça.
- Vou levar por bem ou por mal. Agora.
Notei uma expressão de medo em seu rosto. Ele procurou me acalmar.
- Eh, fica frio, rapaz. Não vamos brigar por causa disso. Tudo bem, pode levar a garota. Pegue-a pelo braço e diga: “Plutão mandou você vir comigo”. Vá na frente. Ela vai te seguir. Saia da boate. Caminhe até o fim da rua sem olhar pra trás. Sem olhar pra trás, ouviu bem? Ela estará te seguindo. Quando vocês contornarem a primeira esquina, estarão salvos.
- Salvos de quê?
- Do inferno, ora!! - e riu desbragadamente, exibindo os dentes sujos de sangue ou seja lá o que fosse.
Quase perguntei que inferno era aquele, mas dei uma olhada rápida ao redor e certifiquei-me de que estávamos mesmo num lugar assombrosamente infernal. As pessoas se comportavam de uma maneira bizarra. Ninguém ria ou conversava. Vi, num canto escuro do bar, um homem seviciando uma garota nua da cintura pra cima. Ele chicoteava a garota impiedosamente, e ela não gritava, apenas fazia caretas desesperadas. Em outra parte, dois homens faziam sexo furiosamente.
- Tudo bem. Vou lá pegar Eurídice.
Fui até onde ela estava e sussurrei em seus ouvidos.
- Plutão ordenou que você me acompanhe.
Foi como apertar o botão de um robô. Ela me olhou com obediência comovente. Largou a bandeja e me seguiu. Em alguns segundos estávamos fora do local. Senti desejo de olhar pra trás, mas lembrei-me do aviso de Plutão. Um pouco antes de chegar à esquina, a curiosidade mordeu-me o espírito novamente. Não pude resistir. Dei uma olhada ligeira pra trás. Ela arregalou os olhos e correu de volta.
Corri atrás dela, mas quando tentei entrar no estabelecimento, dei com a porta trancada. Esmurrei, chutei, gritei, mas não me deixaram entrar. Frustrado e deprimido, voltei ao hotel.
Vou resumir: nunca mais vi Eurídice. Acionei a polícia, a justiça, detetives particulares, paguei anúncios em jornais, e nada. O bar de Plutão transferiu-se para lugar desconhecido.
Comecei a beber descontroladamente. Aí vocês conhecem o resto da história. Talvez o que não saibam é que eu aprendi a tocar violão. Quando algum de vocês vier me visitar, posso mostrar as músicas que ando compondo...
Não sou louco. Quero provar a vocês que sou um cara normal. Ou quase. Apenas fui vítima de acontecimentos insólitos, cujas lembranças me tornaram um sujeito desequilibrado emocionalmente.
Começou assim: eu era casado com uma linda mulher e vivia num aconchegante apartamento em Botafogo. Três quartos, duas salas, uma cozinha espaçosa e uma enorme varanda que dava para uma vista magnífica da praia de Botafogo, do Pão de Açúcar e das avenidas litorâneas. Vivíamos um para o outro e não nos separávamos nunca por mais de algumas horas. Até fazer compras no supermercado era, pra nós, uma deliciosa aventura.
Uma noite, recebemos ligação de um amigo, ex-namorado de Eurídice - esse era o nome de minha esposa. Convidou-nos para uma festa em Copacabana. Ficamos empolgados com o programa, pois Hefestos sabia das coisas. Sempre que saíamos com ele, era diversão garantida. Eurídice vestiu uma túnica verde-musgo, amarrada na cintura e cingiu uma flor azul a seus cabelos longos e negros. Eu optei por minha bata branca tradicional.
Chegamos à festa por volta da meia-noite. Tocava um som muito louco e todos dançavam freneticamente. Os garçons passavam servindo bebidas variadas. Mergulhei fundo na coisa. Eurídice me olhava assustada, às vezes, e voltava a dançar. Ela e outra moça, também muito bonita, faziam uma coreografia diabolicamente sensual. Eurídice rebolava, saltava, mexia os peitos, balançava os braços, fazia o diabo com o corpo. A outra garota não deixava por menos, acompanhando-a em todos os movimentos. Eu não estava a fim de dançar e me instalei num banquinho junto ao balcão, concentrado em beber cerveja o mais rápido possível. Aos poucos, ou de repente, não sei, tudo começou a brilhar. Quando dei por mim, estava dançando também. Era estranho, nem parecia eu. Parecia que um demônio tomara conta de meu corpo e dançava em meu lugar. Diversas garotas dançavam comigo, todas bonitas, cabelos compridos, cabelos curtos, cinturas finas, vestidos negros, vermelhos, cintilantes. Fiquei tonto. Desmaiei.
Quando acordei, a boate estava vazia. Por todo lado, centenas de latinhas de cerveja, copos de plástico, sapatos, brincos perdidos, celulares. A primeira coisa que pensei, quando minha mente deu sinais de vida, foi, é claro, em Eurídice. Onde está ela? O engraçado é que assim que pensei isso tive a impressão de já ter a resposta.
Não tenho tempo de descrever todos os lugares sórdidos pelos quais passei antes de encontrá-la. A busca durou meses. Além dos hospitais, clínicas e necrotérios, estive em prostíbulos imundos, sinistras bocas de fumo, bares suspeitos, e outros lugares mal-afamados. Vou resumir: encontrei-a trabalhando numa estranha boate na área portuária de Santos.
Seu chefe era um homem sombrio, parecia estrangeiro e possuía olhos esbugalhados e sempre injetados de sangue. O nome caía-lhe como luva: Plutão. Podia jurar que o sujeito era o próprio diabo em pessoa. Hospedei-me numa espelunca ali perto e passei a observar a rotina de Eurídice. Havia sido praticamente escravizada. O estranho é que não parecia se importar. Por que não fugia? Por que não chamava a polícia? Sem respostas, decidi salvá-la imediatamente, livrá-la das garras daquele demônio.
Esperei uma noite em que Plutão se recolheu mais cedo e Eurídice ficou sozinha atendendo os clientes. Pedi uma cerveja. Quando ela veio, segurei sua mão e a olhei bem nos olhos. Vi que estremecia, mas não havia me reconhecido. O que o desgraçado fizera com ela? Soltei sua mão, deixei que continuasse a trabalhar. Esperei. Lá pelas quatro da manhã, tentei nova abordagem. Falei que era seu marido, que meu nome era Orfeu, e que nós costumávamos ser felizes. Seus olhos brilharam, um lampejo de lucidez cintilou em seu rosto. Senti imenso alívio ao ver que recuperava a memória e me olhava enternecida. Mas durou pouco. Logo voltou ao estado catatônico que, pelo jeito, era seu natural. Voltei ao hotel e esperei o dia seguinte.
Entrei no bar à meia-noite e pedi uma tequila. Plutão estava sentado a uma mesa nos fundos, fumando um charuto e sorvendo um líquido vermelho e viscoso. Aproximei-me. Ele mediu-me por um instante, cumprimentou-me com a cabeça e voltou a se concentrar na bebida. Sem saber como abordá-lo, disse a primeira coisa que me ocorreu.
- Com licença, senhor, poderia me dizer o que está bebendo?
- Sangue. Por quê? Quer um pouco?
- Ah, sangue - respondi, tentando sorrir do que achava ser uma piada. É um novo tipo de bebida?
- É uma bebida especial para pessoas especiais, meu caro. O que você quer?
- Quero levar Eurídice. Ela é minha esposa.
- O quê? Você quer levar minha melhor funcionária?
- Sim. Ela é minha esposa, já falei.
Ele riu e deu mais um gole na bebida nojenta. Puxei um revólver de dentro da calça e apontei para sua cabeça.
- Vou levar por bem ou por mal. Agora.
Notei uma expressão de medo em seu rosto. Ele procurou me acalmar.
- Eh, fica frio, rapaz. Não vamos brigar por causa disso. Tudo bem, pode levar a garota. Pegue-a pelo braço e diga: “Plutão mandou você vir comigo”. Vá na frente. Ela vai te seguir. Saia da boate. Caminhe até o fim da rua sem olhar pra trás. Sem olhar pra trás, ouviu bem? Ela estará te seguindo. Quando vocês contornarem a primeira esquina, estarão salvos.
- Salvos de quê?
- Do inferno, ora!! - e riu desbragadamente, exibindo os dentes sujos de sangue ou seja lá o que fosse.
Quase perguntei que inferno era aquele, mas dei uma olhada rápida ao redor e certifiquei-me de que estávamos mesmo num lugar assombrosamente infernal. As pessoas se comportavam de uma maneira bizarra. Ninguém ria ou conversava. Vi, num canto escuro do bar, um homem seviciando uma garota nua da cintura pra cima. Ele chicoteava a garota impiedosamente, e ela não gritava, apenas fazia caretas desesperadas. Em outra parte, dois homens faziam sexo furiosamente.
- Tudo bem. Vou lá pegar Eurídice.
Fui até onde ela estava e sussurrei em seus ouvidos.
- Plutão ordenou que você me acompanhe.
Foi como apertar o botão de um robô. Ela me olhou com obediência comovente. Largou a bandeja e me seguiu. Em alguns segundos estávamos fora do local. Senti desejo de olhar pra trás, mas lembrei-me do aviso de Plutão. Um pouco antes de chegar à esquina, a curiosidade mordeu-me o espírito novamente. Não pude resistir. Dei uma olhada ligeira pra trás. Ela arregalou os olhos e correu de volta.
Corri atrás dela, mas quando tentei entrar no estabelecimento, dei com a porta trancada. Esmurrei, chutei, gritei, mas não me deixaram entrar. Frustrado e deprimido, voltei ao hotel.
Vou resumir: nunca mais vi Eurídice. Acionei a polícia, a justiça, detetives particulares, paguei anúncios em jornais, e nada. O bar de Plutão transferiu-se para lugar desconhecido.
Comecei a beber descontroladamente. Aí vocês conhecem o resto da história. Talvez o que não saibam é que eu aprendi a tocar violão. Quando algum de vocês vier me visitar, posso mostrar as músicas que ando compondo...
Ainda não tenho saudades de Kátia

Acordei sem abrir os olhos. Como um cego acorda, pensei, tentando adivinhar o que realmente tinha me despertado. O sol batendo forte no rosto. Ou a fome doendo no estômago.
Não tinha coragem de abrir os olhos porque sabia que o risco de enxaqueca era grande. Levantei-me de olhos fechados, prudentemente, e sentei-me na beira da cama, de costas para a janela. Agora o sol batia em minha nuca. Calor insuportável. O ventiladorzinho furreca não dava conta. Abri os olhos apreensivo. Estava em casa? A visão do armário de portas abertas, roupas entulhadas lá dentro sem ordem alguma, tranquilizou-me. Abri totalmente os olhos e fui ao banheiro lavar o rosto e escovar os dentes.
No caminho, tropecei numa coisa mole, pesada, e desmoronei, batendo a cabeça na televisão, que por pouco não tomba em cima de mim. Soltei um palavrão. Aliás, dois palavrões. Com uma diferença fundamental entre eles. O primeiro tinha uma entonação furiosa. O segundo soou débil e assustado. A coisa mole e pesada no chão era o corpo enrijecido e gelado de Kátia.
Curiosamente, apesar do susto, não perdi a fome. Estava há dias sem comer. Eu e Kátia nos trancáramos naquele quarto de pensão, com 20 gramas de pó e uma dúzia de garrafas de uísque e vodka. Cheirando, falando, transando, vendo tv e planejando nosso primeiro assalto.
Achei um pacotinho de batatas fritas aberto jogado num canto. As batatas estavam moles, úmidas. Comi mesmo assim. Abri o frigobar e peguei uma coca cola. Evitava olhar o corpo de Kátia. Overdose, pensei.
Não sentia dor pela perda de quem eu tanto amara. A ficha não caíra. Era como se eu estivesse vendo um filme. Pura ficção. A qualquer momento, o filme terminaria, eu iria acordar Kátia e recomeçaríamos os estudos e planejamento para o assalto à mansão do magnata.
Matei a coca cola e peguei uma latinha de cerveja.
(Pintura: Juliano Guilherme)
a poesia não paga o aluguel do meu apartamento
(Egon Schiele)desespero-te sombriamente
entre a luz morta das praças do subúrbio
e o sonho vago, ansioso, de pequenos
proxenetas da rua Paisandu
esqueci-te num outrotra lânguido,
impregnado de magnetismo e crueldade,
eu era-me, brisa ácida, pelinhos tremulando
em pernas bronzeadas
ceticamente vaguei,
trajando roupas de aço,
por rodoviárias sujas e terrenos baldios,
estremecimentos que matam, assíduo enjôo
sem comida, pensamentos pesados,
sonhos simplórios, vil angústia
morro e mato,
verei membros arrancados,
lenta, amorosamente,
num contraste suicida,
entre a bomba e o piercing
no umbiguinho da garota dançando
desespero-te sem medo
ligeiro ódio apenas
para carburar, com rocks antigos,
teu coração cínico
os momentos transvivem-me
sangrentos, biliosos,
briga de velhos amigos,
hiroximas florindo
uma flor azul-assassino
que paradoxalmente
enrubesce o mundo
exaustos soldados,
punhetam-se nas sombras do bairro sujo
enfumaçado, destruído,
corpos mutilados
beijando fungos e cães
um sol doente
espalha negrumes brilhantes
pelos bares do centro
despertando seres estranhos,
aracnídeos semi-humanos
que vão copular em silêncio
nos cemitérios
o amor é uma mancha
de sêmen na calça
a lapa na sexta
o fogo das manhãs
sem cocaína de agosto
o grito das árvores
nas ruas engarrafadas
o fogo das manhãs
sem cocaína de agosto
o grito das árvores
nas ruas engarrafadas
o anoitecer armado,
suavemente histérico,
que precede as guerras,
os casamentos,
as demissões em massa,
e as rodas de samba
da joaquim silva
Revisitando textos recém-antigos
Soneto do cangaceiro
Misterioso é o sol da morte.
Deus e armas regem o universo
Um dois três e fecho o verso
Tu vais pro sul, eu vou pro norte.
Cada um, meu, tem seu porte,
é melhor você rezar o terço,
pois sou poeta desde o berço,
está no sangue e na cor forte.
Sou índio, mestiço e brasileiro,
Serei o que a morte permitir.
Quem no caminho for traiçoeiro,
E tentar, rasteiro, me destruir,
Verá o meu facão de cangaceiro,
Que você no meio eu vou partir.
escrito por Miguel do Rosário Domingo, Fevereiro 27, 2005
***
A cor da justiça é o verde
Porque é a cor da floresta
E a floresta é a flor do mundo.
Verde é a ferida do inferno
Guerrilha das plantas
Contra a tirania do concreto.
Apesar do cinza, sangue das cores,
O verde resiste
No interior do azul
Seu amigo mais fiel
Cúmplice nas lutas.
Graças aos exércitos
Terríveis do verde
E os batalhões
Numerosos do azul
A terra, o ceú,
E sobretudo o mar
Forjam o dourado
E o vermelho,
Que embriagam a alvorada.
*****
Essa é outra poesia. É uma paródia de uma poesia do Robert Frost chamada Tudo que é dourado deve morrer.
Ianques go home
O primeiro verde da justiça é vermelho
Para ela a cor mais difícil de acalmar
A primeira flor é uma bomba
Depois bomba se rende à bomba
E o Paraíso se transforma em Bagdá.
A paz se converte em nostalgia
A justiça morre em agonia.
Misterioso é o sol da morte.
Deus e armas regem o universo
Um dois três e fecho o verso
Tu vais pro sul, eu vou pro norte.
Cada um, meu, tem seu porte,
é melhor você rezar o terço,
pois sou poeta desde o berço,
está no sangue e na cor forte.
Sou índio, mestiço e brasileiro,
Serei o que a morte permitir.
Quem no caminho for traiçoeiro,
E tentar, rasteiro, me destruir,
Verá o meu facão de cangaceiro,
Que você no meio eu vou partir.
escrito por Miguel do Rosário Domingo, Fevereiro 27, 2005
***
A cor da justiça é o verde
Porque é a cor da floresta
E a floresta é a flor do mundo.
Verde é a ferida do inferno
Guerrilha das plantas
Contra a tirania do concreto.
Apesar do cinza, sangue das cores,
O verde resiste
No interior do azul
Seu amigo mais fiel
Cúmplice nas lutas.
Graças aos exércitos
Terríveis do verde
E os batalhões
Numerosos do azul
A terra, o ceú,
E sobretudo o mar
Forjam o dourado
E o vermelho,
Que embriagam a alvorada.
*****
Essa é outra poesia. É uma paródia de uma poesia do Robert Frost chamada Tudo que é dourado deve morrer.
Ianques go home
O primeiro verde da justiça é vermelho
Para ela a cor mais difícil de acalmar
A primeira flor é uma bomba
Depois bomba se rende à bomba
E o Paraíso se transforma em Bagdá.
A paz se converte em nostalgia
A justiça morre em agonia.
Bagatelas! Cheia de novidades
A Bagatelas!, que virou revista impressa e pode ser encontrada nas principais livrarias, começa seu ano após o carnaval com boas novidades! Inaugura seu selo editorial publicando um livro que seria capaz de fazer o mais honesto dos cristãos sentir-se um monstro diabólico: A Arte de Odiar, do escritor Julio Cesar Corrêia (finalista do concurso Contos do Rio de 2004).
E para quem estava com saudades dos bate-papos informais sobre literatura nas tardes de sábado, o Encontros & Bagatelas está de volta! Este será em homenagem ao consagrado Rubem Fonseca, com a presença dos escritores Tatiana Carlotti [SP], Rodrigo Melo [BA] e Julio Cesar Corrêia, que estará autografando seu livro. O evento acontece sábado, dia 01/04, às 14h, na Livraria Imperial - Paço Imperial, 48, lj. 3, Praça XV.
E para quem estava com saudades dos bate-papos informais sobre literatura nas tardes de sábado, o Encontros & Bagatelas está de volta! Este será em homenagem ao consagrado Rubem Fonseca, com a presença dos escritores Tatiana Carlotti [SP], Rodrigo Melo [BA] e Julio Cesar Corrêia, que estará autografando seu livro. O evento acontece sábado, dia 01/04, às 14h, na Livraria Imperial - Paço Imperial, 48, lj. 3, Praça XV.
Entrevista com Flavio Côrrea de Mello, poeta carioca

"O fato é que ler e escrever pra mim é tão necessário quanto beber uma água ou comer, se deixo de escrever durante algum tempo algo de catastrófico se passa... "
"... é a arte que acolhe o sujeito na sua diferença, com braços e veias pulsantes o envolve e, assim, ele pode doar o que tem de melhor, a capacidade de se libertar, a capacidade de transcendir o cotidiano mesquinho que o tolhe e que o reprime. Não há loucos, loucos são os outros, os outros, eu não."
Flávio Corrêa de Mello
Hoje venho com uma entrevista com Flávio Corrêa de Mello, grande poeta, do qual tenho a honra de ser amigo de longa data. Não admiro sua poesia, porém, por ser ele meu amigo. Pelo contrário. Como é frequente entre poetas, minha amizade é que nasceu da admiração por seu trabalho.
Mello lançou, há alguns anos, o livro Poemas Suíços, pela editora Ibsis Libris, e atualmente é colunista do site Bagatelas.net. Mello é carioca, mora na Tijuca, dá aulas de francês e trabalha na LIvraria da Travessa. Nesta entrevista, Mello filosofa sobre poesia e suas relações com o mundo, a loucura, a vida.
Miguel do Rosário: Flávio, quando você começou a escrever poesia?
Flávio: Com 16 anos, na época eu havia descoberto um vinil do Brasileiro, Profissão Esperança, de Paulo Pontes. Era uma gravação de um espetáculo sobre a vida e a obra de Antônio Maria e Dolores Duran, com direção de Bibi Ferreira. O lado 2 do lp me tocou muito, tinham uns monólogos que o Paulo Gracindo interpretava, entre eles um texto do José Régio, o famoso Cântico Negro. Mas ainda levou um tempo até a poesia tomar forma mesmo. Acho que a consciência poética, a consciência do ato de fazer poemas foi se moldando na UERJ, durante a graduação em LETRAS.
Miguel do Rosário: Na sua opinião, qual a importância da poesia para o ser humano?
Flávio: Para o ser humano eu não sei não, não dimensiono, neste aspecto, entendo a poesia de uma forma particular, uma forma de "religare" com o divino ou o caldeirão de emoções e pensamentos que fabricamos diariamente. Entretanto, pode-se perceber ao longo da história a importância da poesia na formação do caráter do indivíduo, desde a antiguidade, seja ela ocidental ou oriental, ela sempre esteve presente com função formadora, tanto intelectual e mental como emocional. De certo modo, hoje vejo a poesia como a arte mais íntima, na qual o poeta se expõe de maneira plena, porém discreta, até mesmo porque a poesia perante outras artes perdeu muito de sua força de influência, mas não perdeu de modo algum sua possibilidade de transformação interior, tanto para o poeta quanto para a sociedade na qual ele se insere, vide, por exemplo, casos como o de Agostinho Neto, poeta de Angola, e o de Xanana Gusmão, poeta do Timor, ambos exerceram sua poesia como elemento volitivo de transformação interior e exterior.
Miguel do Rosário: Em sua opinião, o que caracteriza a poesia de nosso tempo, de um tempo onde o audivisual impera e as pessoas sofrem com a falta de tempo livre?
Flávio: Até bem pouco tempo pensava na poesia como algo impresso... tipo tinta no papel, suor e tensão na caneta, esperma na tinta... entende... Pensava para mim, para minha produção pessoal. Hoje reavalio, pois as possibilidades do fazer artístico estão por aí... estão dadas, de modo que o poeta tem por obrigação captá-las e transformá-las, amalgamando-as no seu trabalho poético. Sim, é verdade, a poesia hoje está para além do poema propriamente dito, seja ele verso livre ou metrificado. Há um hibridismo latente em todos gêneros literários... isto eu sinto e percebo, porém, de modo algum vou sair urrando em cada esquina que o poema esquemático ou o livro morreu, ou que não há mais espaço para livros que não são lidos. Sou daqueles que, apesar das intempéries, das dificuldades capitais e físicas, acredita que ainda há espaço para o poema. Também não radicalizo a experiência de uma poética voltada para a ausência de palavras. O poema para mim, digo isto bem especificamente, faz-se com palavras e é por elas que ele torna-se vida durante a criação e, para o leitor, durante a fruição. Gosto de mesclar imagens a textos, acho isso interessante, dá cor e sabor ao texto. A proposta de artes plásticas, fotografias envolvendo-se ao texto vem a somar para o leitor, para o prazer do leitor. Quanto à falta de tempo, isto influi a feitura da poesia contemporânea sobremaneira, podemos perceber os ritmos velozes que impregnam boa parte da literatura desde o século vinte, as imagens estanques, as aliterações e as repetições. Todos esses recursos são característicos de nosso tempo. Sou influenciado por isso, você também e outros escritores também são. Entretanto, o que busco é um outro tempo textual, uma outra possibilidade literária que não está ligada ao real, mas sim a tranfiguração deste real, deste cotidiano... Quero que meus leitores tenham todo o tempo do silêncio para fruir meus poemas, que num primeiro olhar, numa primeira leitura não apreendam sentidos ou significações, mas que aos poucos mergulhem na leitura, de maneira que possam extrair algo de concreto, um sentimento, algo que eles possam se conectar a partir de uma abstração inicial, tendo tempo necessário para tal.
Miguel do Rosário: Poderia divagar um pouco sobre a tão falada relação entre a arte e a loucura?
Flávio: Mas o que é a loucura? Van Gogh cortou as orelhas. Dolores Duran chegou em casa com 29 anos e disse vou dormir, não quero acordar... Artaud tomando choques elétricos, vivendo um corpo sem órgãos, fluídico. Bispo do Rosário... outros tantos... O projeto de rádio que havia no hospital psiquiátrico Pedro II (no Engenho de Dentro, Rio de Janeiro) com os frequentadores do hospital... não há segmentação, compartilhamento ou distinção. É a convivência com os detalhes internos que povoam nosso ser que pode dinamizar um processo de criação artística... Viver seus personagens, habitá-los ao ponto de não mais saber diferenciar o que é real... até mesmo por que quem é que desmistifica o real do imaginário, o estado, a ciência?... Uns tão loucos quanto os outros. A internação dos ditos "loucos", nomeadamente "loucos" foi um elemento que se sedimentou com o advento do capitalismo industrial moderno. Foucault inventariou isso muto bem, basta ler a História da Loucura. Hoje, esses conceitos se transformam, se redimensionam já que cada vez mais valorizamos a necessidade de criarmos nosso legado, nossa biografia, vide as comunidades de relacionamento que pipocam na inernet, as redes... cada vez mais o que vale é ser diferente, ser pessoal, embora ainda tenhamos medos e paranóias coletivas, tais como: medo da felicidade, medo da incerteza, medo de dar os passos que nos libertem dos paradigmas capitais, dos paradigmas de consumo. E, neste ponto, ainda necessitamos das classificações, das estratificações, de: "quem é o louco... ou aquele cara é louco", não consegue fazer suas contas, não tem juízo e incorre contra sua própria vida. Entretanto, a arte é a válvula que impulsiona o louco... é a arte que acolhe o sujeito na sua diferença, com braços e veias pulsantes o envolve e, assim, ele pode doar o que tem de melhor, a capacidade de se libertar, a capacidade de transcendir o cotidiano mesquinho que o tolhe e que o reprime. Não há loucos, loucos são os outros, os outros, eu não.
Miguel do Rosário: Fale um pouco de seu processo de inspiração?
Flávio: Difícil falar... geralmente é uma frase... as vezes estou emborcando no sono e dali vem o gérmen... esse é o foco inicial, tenho que anotar rapidamente para não perder... existem as frases que vem na rua, andando, escrevo mentalmente muita coisa que se perde, que dariam poemas geniais, mas ficam ali no cérebro. Leio muito, isso fermenta a inspiração. Reescrevo bastante... um poema meu, muitas vezes guarda apenas um verso original do pensamento inicial, não tenho essa coisa... esse hábito de preservar o movimento inicial, aceito tudo que o poema me indica, o caminho que ele me sugere... os sons, sobretudo os sons... para isso repito em voz alta... e ando de um lado para o outro... o poema só acaba quando entrego os originais para a publicação e ainda quando o leio, após ser publicado, vejo coisas que gostaria de reescrever, assim foi com o Poemas Suíços. Entretanto, há algo extremamente importante: meu estado de espírito, cultivo a angústia para que ela se liberte no texto... Nesse ponto procuro ser o mais sensível e sincero comigo, depois vem a ourivesaria, algo que me dá muito tesão, procuro apenas manter a tensão que permeia o texto, tanto na prosa quanto no poema, pois é a tensão que vai indicar o ritmo e o andamento da literatura que faço. Mas tudo se trata de experimentação, não existe uma regra fixa, existem sim alguns nós, que em alguns momentos precisam ser bem nítidos e em outros não, devem ser desatados e fluídicos. O fato é que ler e escrever pra mim é tão necessário quanto beber uma água ou comer, se deixo de escrever durante algum tempo algo de catastrófico se passa...
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