Marginal Blues 1980

Imaginar que se passaram vinte anos... Pois digo a vocês, quando o sujeito não morre num lugar desses, ele se transforma. Afinal, é preciso sobreviver. No meu caso, não só me transformei como virei transformista. Claro que já tinha um DNA gay antes disso, porque esse tipo de coisa, creio eu, já nasce com a pessoa. Mas compartilhar uma cela com outros vinte e sete homens foi, talvez, o fator decisivo para a metamorfose completa. Da sexual, naturalmente, porque a mudança mental que se operou em mim se deve, essencialmente, ao ilustre senhor Dráuzio Varela e seu trabalho social aqui na prisão. Ele foi o idealizador da primeira biblioteca do Carandiru e eu era seu assistente no projeto. Depois fui encarregado pela organização de tudo, o empréstimo dos livros, a coleta das doações vindas de empresas, editoras, livrarias e até de escritores, empolgados com a perspectiva de criar uma ilha de cultura dentro daquele inferno dantesco – o projeto incluía aulas de literatura, português, história, filosofia, de tudo que pudesse facilitar ao preso a assimilação dos livros, que chegavam aos milhares.

Agora estou livre, quarenta anos de idade e uma experiência que nunca imaginei que possuiria há vinte anos. Eu, que era um garoto mimado, criado pela avó corujona, ignorante tanto em relação ao meu próprio sexo quanto à vida em geral, hoje contemplo o mundo do alto dessa colina, onde vim me esconder da polícia (sim, infelizmente, fui obrigado a fazer um último crime), sem ódio, sem rancor de espécie alguma, tranquilo, compreensivo. Nem da polícia tenho raiva. Pelo menos não enquanto eles não puserem a mão em mim novamente - e acho difícil que eles consigam porque esse é o meu melhor esconderijo. Se tivesse vindo pra cá em 1980 não teria sido preso. Mas aí também não teria me transformado, não teria chegado onde cheguei.

Hoje posso dizer que sou escritor. Embora não tenha livro publicado, sinto a paixão da escrita queimar dentro de mim. Por isso, tive que cometer esse derradeiro assalto, precisava garantir o futuro. Não posso simplesmente me empregar como office-boy e esquecer todos os sonhos. Ou montar uma banquinha de camelô e passar o dia vendendo biscoito enquanto qualquer idiotinha filhinho de bacana tá aí lendo os clássicos, estudando inglês e alemão, viajando à Paris, montando panelinha de literatura, com tempo sobrando pra pensar, escrever e coçar o saco, não necessariamente nessa ordem. Mais tarde tenho meus planos para com eles. Por enquanto, precisava apenas de uma coisa: dinheiro.

Alguns dirão que sou imoral, e por isso não tenho direito à glória literária, que nunca a sociedade irá aceitar um monstro (me chamaram disso nos jornais, acreditam?) que assassina a própria avó que lhe criou com tanto carinho e dedicação. Mas eu sei o que sou. Nietzsche me ensinou que a única moral que vale é a moral do forte.

Entretanto, não pensem, ao ler essa carta que envio para os jornais, que sou um desses psicopatas de filme americano, revoltado contra o sistema capitalista e disposto a explodir tudo. Não. Tenho meus planos, que infelizmente não posso contar, para que eles sejam bem sucedidos. Mas eles não incluem nenhum atentado terrorista, nem outros crimes de espécie alguma. O último foi esse mesmo, que fui obrigado a cometer em vista das circunstâncais. Minha avó, que sempre foi muito boa comigo quando eu era criança, tornou-se uma megera avarenta após minha prisão. Guardava jóias no quarto enquanto eu quase morria de fome no xadrez – é, porque não é fácil engolir a gororoba nojenta que eles nos serviam por lá. A rapaziada mais aprumada mandava trazer comida de fora.

Gostaria de adiantar somente isso: vou sumir do mapa por uns tempos, mas não esqueçam meu nome: Virgulino Candeias de Araújo, ou simplesmente Virgulino Araújo, como pretendo assinar meus livros de agora em diante. De vez em quando, enviarei uns textos por email para revistas, sites, jornais. Meu ser físico continuará ausente por alguns anos, quiçá por toda a vida.

Mudei muito. Naquela noite quente de 1980, quando fui preso, eu era apenas um garoto inconsequente escutando blues no toca-fita de um fusquinha velho - cujos donos eu havia matado a facadas. Hoje sou um homem maduro, consciente dos fatos sociais e históricos que marcaram o país e o mundo. Hoje tenho cultura e experiência, não serei pego com tanta facilidade.

Aguardem, meu amigos, em breve mandarei notícias.

Factotum

Fui assistir Factotum, o filme de Bent Hammer, baseado no romance homônimo de Bukowski. Que me perdoem, mas não achei tudo isso. Achei a trilha sonora fraca, e as cenas muito repartidas, sem uma linha narrativa que as conectassem melhor. Tal conexão poderia ser feita através justamente da música e da fotografia, que poderiam dar uma densidade mais poética ao filme, e mais condizente à atmosfera bukoswkiana. Também faltou, a meu ver, um certo toque de humor e sarcasmo característicos do velho bêbado. O filme é melancólico o tempo todo. Com musiquinha triste e tudo. Tá certo que Factotum é meio triste, se comparado a outros livros do Buk, mas também tem humor, e no filme esse item deveria estar presente.

Para completar minha chatice, também não gostei dos atores. Matt Dillon não convence como Buk. Falta-lhe poesia, personalidade e humor. A Jan é romântica e boazinha demais - no próprio filme é sugerida a sua infidelidade e problemática, mas não é mostrado. A Laura não convence como bêbada e me parece bonitinha em demasia, assim, excessivamente bem tratada para uma mulher "de botequim". Não digo que deviam usar uma atriz feia, mas podiam usar um figurino e maquiagem um pouco decadentes. Ficaria mais verossímil.

Os episódios são fiéis ao livro. Fiéis demais, a ponto de algumas cenas parecerem totalmente desnecessárias, porque tinham algum sentido no livro, mas não na telona. Dá a impressão de uma repetição mau feita do texto literário. Sei lá, fica meio artificial.

Bem, é o que achei. Me amarro no Buk e acho que o Bar Fly (sofrivelmente traduzido para Condenados pelo Vìcio) é melhor filme sobre o velho. Cronica de um amor louco também é muito bom, com um toque mais poético, mais lírico.

Factotum, no entanto, não é de se jogar fora. Para quem gosta da obra do Buk, vale a pena assistir. Talvez eu esteja sendo chato demais, confiram vocês mesmos. Pretendo ver esse filme mais uma vez, em dvd, bebendo um uisquinho vagabundo (ou caro, a depender do destino), e quiçá terei uma melhor impressão.

O café da minha casa & matricídio em São Paulo

Voltei em casa para tomar um café. Não vou beber café de botequim. Queria ir ao banheiro também, mas é melhor não falarmos nisso. Não é elegante falar de nossas anti-estéticas necessidades fisiológicas. O fato é que fiquei excitado e sempre que isso acontece o meu intestino funciona mais rápido. Talvez seja uma coisa saudável. A excitação gera um desejo instintivo de auto-limpeza. Enfim, voltei em casa para tomar um café e fazer aquilo que todos fazem. O motivo da excitação é que, finalmente, encontrei uma saída para um problema que vinha me atazanando há tempos.

Não consigo mais escrever em casa, por vários motivos. Escrever literatura. O ambiente doméstico obstrui-me a inspiração, principalmente porque trabalho em casa. Sou jornalista especializado em agribusiness. Passo horas pesquisando notícias e estatísticas na internet, que compilo, sumarizo e publico no site-jornal para o qual trabalho. Quando termino o batente, ainda tenho a mente cheia de números e informações. O computador à minha frente não me desperta aquele sentimento de mistério e felicidade que considero tão importantes para a inspiração. A sala bagunçada, a mesa cheia de anotações, o chão empoeirado, a mal organizada estante de livros, a cozinha americana - uma pia embutida na parede - são as mesmas imagens de sempre e, por algum motivo, ajudam na paralisia e torpor aos quais meu espírito parece estar preso.

A saída é escrever nesta lan house, que oferece preços promocionais - duas horas por cinco reais. Já disse ao atendente desligar o som alto, explicando-lhe que, apesar da maioria vir aqui só para entrar em orkut e conversar em msn, alguns vêm para escrever e precisam se concentrar.

Pedi um computador com headfone e achei uma boa rádio online, no site da TVcultura. Ainda não é a ideal, queria mesmo uma rádio com blues antigos, mas não quero perder minhas duas horas procurando. Mandem-me sugestões, por favor.

Devidamente instalado, posso dar livre curso às minhas divagações. Gostaria de comentar o recente caso do professor Geraldo Barbosa, que assassinou a própria mãe, num bairro de classe média da capital de São Paulo. A vítima, Zilda Barbosa, tinha sessenta e três anos, morava no mesmo prédio e vinha, diariamente, à residência do filho cuidar dos afazeres domésticos. Era assim desde que Geraldo separou-se de sua esposa, que foi morar em outra cidade.

Nesse dia, Geraldo acordou por volta de meio dia e encontrou sua mãe na cozinha. Por alguma razão, a presença dela irritou-o profundamente. Houve discussão, ela chamou-lhe fraco, incapaz de ter uma mulher. A senhora dizia isso de costas, enquanto cortava legumes. Geraldo nem aparentava tanta fúria; tinha uma expressão fria, ódio contido. Pegou a faca numa mesinha e atacou-a por trás. Repetiu o gesto três vezes. Ficou parado alguns minutos, contemplando o espetáculo sangrento. Aí resolveu fazer uma coisa ainda mais monstruosa. Abriu o armário, pegou um frasco de álcool e despejou sobre a vítima, que caíra no chão, gemendo e contorcendo-se. Riscou um fósforo e pôs fogo.

Sentiu sono. Chegara em casa pela manhã, depois de passar a noite numa festa, com seus alunos. Geraldo tinha quarenta e dois anos, mas sentia-se com trinta. Desde antes do divórcio, estava sempre namorando uma de suas alunas.

Interfonou para o porteiro, pediu que chamasse o bombeiro. Voltou ao quarto, indiferente aos gritos da velha, deitou-se na cama e dormiu. Teve um sonho agitado, no qual abria uma porta e saía para um jardim ensolarado, muito bonito, com flores de todos os tipos e cores. No entanto, havia algo de maligno e violento, pois era guardado por homens armados com metralhadoras. Sentia uma alegria enorme, e medo também. Apesar da luz que banhava o jardim, o sol, quando olhou para cima, era negro. Um astro negro no meio de um céu azul, que, no entanto, irradiava luz amarela, solar. Uma menina negra, de uma magreza cadavérica, saiu de trás de uma árvore e aproximou-se dele, sorrindo. Por alguma razão, ele tentou fugir, mas não conseguiu mover nenhum músculo do corpo. A negrinha correu até ele, olhos fixos no pênis do homem, que só agora conscientizou-se de que estava nu. Ela abocanhou-lhe o órgão, chupando-o sofregamente, gemendo. De início com nojo, ele não pôde evitar, contudo, a ereção. Ela continuou chupando até ele gozar. Quando terminou, a garota encarou-o e ele viu, aterrorizado, o rosto de sua filha!

Alguém sacudia-lhe o corpo, ordenando que acordasse. Abriu os olhos e viu um homem corpulento, de calça jeans, camisa social e gravata.

- Senhor, acorde! É a polícia!

Urubus não têm lei

Segue abaixo a minha última participação na revista Bagatelas, da qual não faço mais parte por uma decisão pessoal. Minha coluna não existe mais, portanto o texto abaixo só pode ser lido aqui. Desejo toda sorte e sucesso à revista e convido meus leitores a virem me visitar sempre por estas bandas.

Sou absolutamente contra o oba-oba. Claro que me aborreço muito com certo predomínio do pós-modernismo-joyciano-pilantra. Consequentemente, tenho me alegrado em ver as bases deste movimento ruírem aos poucos, de forma mais lenta do que eu gostaria, mas irreversivelmente. Pelo menos, prefiro acreditar nisso.

Literatura virou festinha? Agora tão criando uma faculdade de escritor lá no sul que vão ensinar até como dar entrevista... O mais preocupante é que, no fundo, a proposta é absolutamente coerente com os rumos que o segmento vem seguindo nos últimos tempos. Enfim, o problema no Brasil, blá blá, é a falta de leitores. Daí que ficamos reféns de meia-dúzia de intelectualóides e da ditadura dos concursos marmelada.

Ah, reclamar não adianta nada. A gente sabe que a vida é dura, e talvez as coisas devam ser assim mesmo. Quer moleza, dizia Chacrinha, senta no pudim. O fato é que eu fico chateado em ver que alguns dos que estão ingressando no mundo da literatura, inclusive amigos meus, começaram a deixar a discussão estética em segundo plano.

Em nome de uma suposta busca da profissionalização do escritor, estão esquecendo que isso só faz sentido se a literatura for o interesse central de suas vidas. Isso implica, naturalmente, em ler. Discutir o que leu. Perguntar. Pesquisar. Informar-se constantemente sobre o que vem sendo feito de novo no país e no exterior. Respeitar os que estão há mais tempo na luta, não pela idade avançada, mas pela extensão e repercussão de suas obras. Se não for assim, então não vale a pena.

Ganhar dinheiro com literatura? Ah, não me façam rir. Ser escritor é praticamente assinar atestado de pobreza. Conformem-se. Arrumem empregos que lhes permitam algum tipo de liberdade. Negociem com a mamãe uma mesada vitalícia. Encarando a literatura desta maneira leviana, vocês não somente não contribuem em nada para a profissionalização do escritor; pelo contrário, desmoralizam a literatura.

Querem que eu seja humilde? Então tá: parodiando o Veríssimo, eu sou o cara mais humilde do mundo. Me acuso, peço desculpas. Faço merda. Quem não faz? Quem atirará a primeira pedra? Um escritor deve ser leal apenas a si mesmo, e isso já é muita coisa. Elogio depois xingo, entro em contradição. Sou dialético, porra! O fato de ser simpático com as pessoas nem sempre é uma qualidade. No meu caso, é uma espécie de covardia congênita. Herdei essa merda. Tenho medo de cachorro e de magoar os outros, e a impressão de que meu talento existe à revelia da simpatia. Um dia ainda me livro disso, como já me livrei de tanta coisa em minha vida. Serei um filho-da-puta franco, cruel, mas de consciência tranquila.

Literatura é compromisso. Com a leitura, sobretudo. O escritor compete com dois-três mil anos de intensa produção literária. Como poderia ter a mínima pretensão de ser escritor se não procurasse dialogar com todo esse patrimônio? Evidentemente, isso será possível apenas se eu ler, reler e discutir todo maldito clássico, toda maldita obra contemporânea. Se um escritor não pensa assim, se acha que literatura é frequentar Flip, Flap e tomar umas cervas na Mercearia São Pedro, então, meu caro, definitivamente... boa sorte. O segredo é ler e sofrer, disse Dostoiésvki, respondendo ao jovem aspirante a escritor, que lhe pedira a fórmula de como escrever bem.

Cara, literatura não é um sonho bom. É barra pesada. Sofrimento, renúncia. Ser escritor, no início, é aguentar no lombo a consciência de ser um fraco que escreve mal pra caralho e não possuir nada além de uma ambição desmesurada e um ego doente. E trabalhar, trabalhar. Sondar as profundezas de seu próprio desespero. Aceitar a dor enquanto condição obrigatória para uma incerta evolução. Um dia, aprende-se a escrever, de forma singular e universal, e percebe-se que o sofrimento não diminuiu, pelo contrário. Não ganhamos dinheiro. O ego continua doente, a ambição cresceu. Que ganhamos? Satisfação íntima? Um pouco de dignidade?

Paneros & De Haro

Seguindo a tradição blogueira, faço esse post influenciado pelo blog do Douglas Kim, em cujos comentários se citou um dos poetas homenageados neste bar virtual. Ao fim, transcrevo poesia do Rodrigo De Haro, grande poeta catarinense, cujo livro Amigo da Labareda me foi enviado pelo ex-carioca e presentíssimo poeta e amigo Silvio Barros. Por fim, reservo-me o prazer de fazer a introdução léxica, com todo respeito, como diria o Anselmo Góes, da sulíssima (ia dizer gauchíssima, mas não quero causar conflitos diplomáticos com os catarinas) palavra "vasca".

LA POESÍA DESTRUYE AL HOMBRE...

La poesía destruye al hombre
mientras los monos saltan de rama en rama
buscándose en vano a sí mismos
en el sacrílego bosque de la vida
las palabras destruyen al hombre
¡y las mujeres devoran cráneos con tanta hambre
de vida!

Sólo es hermoso el pájaro cuando muere
destruído por la poesía.

"El último hombre" 1984


*


A poesia destrói o homem

A poesia destrói o homem
macacos pulam de galho em galho
buscando em vão a si mesmos
no sacrílego bosque da vida

as palavras destróem o homem
e as mulheres devoram crâneos com tanta fome
de vida!

Só é belo o pássaro quando morre
destruido pela poesia

"El último hombre" 1984

Leopoldo María Panero
Tradução livre por Miguel do Rosário


*


Festa

A comida dos santos
levo num barco
faço parte do hieróglifo.

Levo a comida dos santos
coberta por linho puro
destroços para caranguejos
Assim o poema
é comido na vasca.

A ilusão é bela
porém a pedra
ainda é mais.

Com a ferramenta parca
construo meu barco.
O rio escuro
fica pintado no muro.


(Rodrigo De Haro, Amigo da Labareda, 1991, Massao Ohno Editor)


*
Aurélio
vasca
[De or. incerta.]
Substantivo feminino.

1.Grande convulsão:
“Quem minha angústia suportar, prefira / A morte, redentora, à desventura / De não poder, nas vascas da loucura, / Distinguir a verdade da mentira.” (Martins Fontes, Verão, p. 119).

2.Ânsia excessiva; estertor:
“uma bala vara o peito de Juanillo que cai e, nas vascas da agonia, rolando no chão, aproxima-se da defunta” (Érico Veríssimo, México, p. 128).

O que é bom a gente prestigia



É isso mesmo, o que é bom a gente tem que dar valor e prestigiar. A Mercearia São Pedro tem se tornado, cada vez mais, um espaço importante de encontro e divulgação de literatura contemporânea. Mais que isso, se tornou um foco irradiador de arte, amizades, boas idéias, antigos sonhos e, sobretudo, muita alegria (no bom sentido, é claro, o que envolve inteligentes pitadas, nem sempre calculadas, inevitáveis diria, de melancolia e pessimismo. Afinal, arte não é comédia ou comitê eleitoral do partido republicano).

Enfim, tudo isso pra dizer que estou feliz com o lançamento da Revista da Mercearia, iniciativa, ao que parece, do Marquinhos, dono da famosa birosca, e do Joca, frequentador assíduo que, pelo jeito, está encontrando alternativas para pagar sua dívida no bar (preciso dizer que é brincadeira?).

A galera aqui do Rio tem prestigiado a Mercearia. O lançamento da segunda edição da Bagatelas, nossa revista de contos, será feito por lá, no dia 15 de julho. No início do ano, estivemos por lá e fizemos nossos contatos iniciais.

Sabe porque eu fico tão feliz com a iniciativa merceárica? Eu moro num bairro que tem tanto bar, birosca, botequim, pé sujo, fim de noite, que, se cada um deles disponibilizasse um espacinho para um sebo, uma estante de livros, isso aqui seria o local mais literário do planeta. Por enquanto, infelizmente (ou felizmente, por um outro ângulo), somente a Mercearia concilia o fogo da literatura ultra-contemporânea com o gelo das louras meretrizes - aquelas nas quais todos passam a mão e põem na boca.

Não poderei estar presente, fisicamente, na festa de lançamento da revista, marcada para hoje, dia 7 de junho, na própria Mercearia. Mas devo projetar meu espírito, que poderá, portanto, ser entrevisto vagando por entre as estantes e bebericando no copo dos outros.

O segredo do Homem

"Os que estavam à mesa começaram a dizer então: Quem é este homem que até perdoa pecados? ", Lucas 7, 49



Dentre as inúmeras lendas que cercam a vida de Jesus, uma das mais escondidas pela Igreja é a de que o Filho de Deus teria sido um grande boêmio. Não é polemismo barato. Não se trata somente do hábito de beber diariamente quatro ou cinco garrafas de vinho. Cristo seria também um poeta, um bon vivant, um artista! Essa ladainha do Dan Brow sobre Cristo transar com Madalena e ter um filho, que hoje horroriza setores reacionários da Igreja, é uma versão infantil da verdadeira história. Como disse a francesa, antes de baixar a calcinha: prepare-se, le chose é bem mais cabeluda do que imaginas.

Na China, essa história é conhecida e encarada com naturalidade. Afinal, Buda foi, em sua juventude, o maior playboy de todos os tempos. No Ocidente, porém, o judaísmo moralista tratou de distorcer o significado profundamente libertário da vida de Cristo, erguendo em torno de sua biografia um muro de castidade e inocência. A idéia da gravidez sem sexo de Maria é uma das lendas mais carolas e inverossímeis da mitologia mundial. Daí para a virgindade de Jesus foi um passo natural, apesar do absurdo da coisa. Incrível é como a humanidade tem sido engambelada há mais de dois mil anos.

A lenda diz que Jesus barbarizava as noites de Jerusalém, cantando, bebendo e dançando, participando de festas e orgias... Numa dessas, conheceu Madalena, a mais bela prostituta da Palestina, que apaixonou-se perdidamente pelo jovem de longas melenas, olhos brilhantes e lábios sempre coloridos pelo vinho.

O amor de Madalena, apesar do bem que proporcionou à alma inconstante de Jesus, trouxe-lhe também a sífilis. Tal fato é que teria motivado a tentativa de apedrejamento da meretriz, por parte de pretensos "amigos de Jesus". Madalena foi salva pelo corajoso amante, que enfrentou os atacantes gritando-lhes a famosa frase sobre a primeira pedra (conta-se que um engraçadinho, neste momento, lançou um pedra que atingiu o abdômem de Jesus; e que este revidou furiosamente, esmagando-lhe o crânio com uma pesada tora de madeira).

Jesus tinha trinta anos quando contraiu a doença, e os médicos lhe deram poucos meses de vida. Diante da proximidade da morte e proibido de fazer sexo ou exceder-se no vinho, Jesus aproxima-se da religião e decide tornar-se um profeta.

Consultando os sábios de sua Seita, Cristo descobre que havia uma planta que poderia curar-lhe a terrível doença. Era um derivado da papoula, ou da cannabis, coisa assim, muito popular entre os jovens da elite judaica. Não tendo dinheiro para adquirir regularmente o produto, Cristo começa a fazer tráfico da planta para bancar seu próprio consumo.

A atividade rendeu-lhe gordos lucros; em pouco tempo, estruturou uma poderosa organização. Patrocinava projetos sociais e religiosos, que lhe renderam a fama de Santo, além de úteis para comprar o silêncio da comunidade.

Os supostos milagres de Cristo seriam nada mais que o resultado de seus conhecimentos científicos. Aprendera como curar doenças com seu pai, José, membro da Seita dos Essênios, uma espécie de Maçonaria, cujos integrantes estudavam literatura, ciências, religião e medicina.

Os romanos haviam proibido expressamente o consumo da referida erva entre os judeus, pois queria-os dóceis, alienados e submissos, e a planta induzia seus usuários à reflexão, provocando debates filosóficos e políticos que, invariavelmente, produziam projetos de rebelião.

Judas Iscariotes era um viciado decadente, que se aproveitava do bom coração de Jesus para adquirir-lhe a droga sem pagar. A dívida de Judas cresceu e Cristo, mesmo sendo o bom cristão que era, ameaçou-lhe dar uma surra caso não a quitasse. Há relatos de que o discurso de Jesus sobre dar a outra face para quem lhe estapeia foi uma tirada sarcástica contra Iscariotes, pronunciada logo após o sonoro ressoar de um tabefe na parte esquerda do rosto do X9 mais famoso do Ocidente.

Até que um safado qualquer (quiçá o próprio Satã) observou a Judas que, delatando Jesus, poderia não só ganhar uma boa recompensa (que usaria para comprar mais drogas) como se livraria de ser espancado pelo Santo Credor, o qual, apesar de Santo, bem sabia aplicar um corretivo num pilantra caloteiro.

Judas gostou da idéia e traiu seu Fornecedor, dedurando-o às autoridades competentes. Jesus ficou sabendo da trairagem e, sem ter como escapar, tratou de fumar grande quantidade de erva, para evitar a dor física nas tradicionais sessões de tortura.

No momento de carregar a cruz, um de seus discípulos conseguiu passar-lhe uma boa dose de outro estimulante, o que lhe permitiu arrastar o peso até o monte Calvário. No momento da crucificação, enquanto alguém distraía os guardas, aplicaram-lhe outra dose, para que não sentisse as dores dos pregos sendo enfiados em seus pés e mãos.

Todo esse coquetel fê-lo entrar em coma, após algum tempo, levando os guardas a pensarem que estava morto e a liberarem o corpo para ser enterrado. Quando o efeito passou, Jesus, como se sabe, saiu do caixão e foi ao encontro de seus amigos.

Conta-se que, nesta ocasião, ele teria combinado com seus discípulos que o mais seguro era que romanos e filisteus acreditassem mesmo em sua morte.

Jesus então partiu para o exílio na Índia, onde terminou o resto de seus dias. Dizem as más línguas que ele teria se convertido ao budismo...


(conto publicado na revista impressa Bagatelas, número 2, lançada esta semana. O conto vem aqui com uma ou duas correções. Portanto, os que não tem acesso à revista impressa, poderão ler o conto com alguma vantagem)

Crise de inspiração

(essa é minha última crônica para o Bagatelas - última no sentido de mais recente, é claro, não de derradeira)

Há semanas que estou em crise de inspiração. Todas as histórias me parecem repetitivas. Toda linguagem me parece enfadonha e pouco original. Pra piorar, minha mão direita dói. Tô com tendinite.

Já inventei histórias escalafobéticas sobre mim, escrevi uma crônica sobre a velha (desculpa esfarrapada), interpretei psicodelicamente as aventuras da turma Bagatelas. Agora há pouco, enlouqueci no recém criado grupo de discussão Bagatelas e quase arrumei uma briga verbal com um sujeito chamado Sólon.

Até minhas participações nos comentários estão em crise. "Fóda", foi o máximo que pude dizer sobre o conto da Camilla Lopes. Que fazer, meu Deus? Musas, ó Musas, desçam do Olimpo, se é que estão aí, e venham acudir este aflito escritor carioca.

Humm... Hum..... Não veio nada. Vou fazer um café.

Bem, enquanto a inspiração não chega, a gente continua batendo papo. Tenho uma coisa presa na garganta. Encontrei um escritor numa festa, ano passado, e fui abraçá-lo e cumprimentá-lo pelo seu novo livro. Ele me disse que a gente "nunca vai escrever como Guimarães Rosa". O negócio me atingiu em cheio. Puta que pariu! O cara tá certo. E daí? Foda-se!

Eu adoro Guimarães Rosa, mas sei que ele tem um defeito. Não fala de cidade, de metrópole, e o Brasil hoje é 80% urbano. Portanto, há que surgir o escritor urbano.

O café ficou pronto. Acho que agora vai. Vamos começar assim. Um homem sentado numa praia deserta. Não, deserta não. Uma praia cheia de gente, mas é como se estivesse deserta, porque ele está sozinho e se sente isolado. Ele olha o mar e vê as pessoas entrando na água, pegando onda, as crianças mijando. Ele sabe que muitas entram no mar para mijar, mas todas, naturalmente, disfarçam muito bem. Nosso personagem, então, descobre um passatempo maravilhoso: identificar quem está no mar por puro prazer e quem está por necessidade fisiológica. Em primeiro lugar, é preciso observar as pessoas antes de entrarem na água. Algumas já vem com uma expressão meio aflita no rosto, o que seria um sinal. Bem, não é tão difícil. Como o mar está um pouco agitado, as pessoas que querem mijar são obrigadas a ficar completamente paradas, mais perto do raso, numa postura rígida, uma expressão sempre algo constrangida.

Nosso personagem, que se chama Sherwood Anderson (não me perguntem porque ele tem esse nome, foi seu pai que deu, provavelmente em homenagem ao escritor americano), resolve entrar na água. Não, ele não quer mijar, não agora. Seu objetivo é nadar, até o fundo, até bem longe. Quer se matar? Não, mas de fato ele não me parece muito bem, está se arriscando demais. O mar está agitado. Ele se afasta cada vez mais da praia. Um conhecido seu, que o observava de longe desde o início da história, mas que não lhe dirigira a palavra, olha preocupado para nosso personagem, a esta hora quase invisível.

Ele quer alcançar as Ilhas Cagarras. É, ele estava em Ipanema, no posto 9. Nunca ninguém de suas relações havia tido coragem de fazê-lo. As Cagarras distam uns quatro ou cinco quilômetros da praia. Que eu saiba, somente nadadores profissionais, com apoio técnico, poderiam realizar esta proeza. Ele está louco, o personagem! Sim, está louco. Não nadou nem dois quilômetros e começa a sentir uma forte câimbra na perna direita. Olha pra trás. A praia parece bem mais distante que a ilha. Resolve continuar, mas a perna dói, atrapalhando o desenvolvimento do nado.

Ai, Musas, que fazer? Mato o personagem afogado? Faço vir um deus ex-machina e o salvo? Os céus trovejam e começa a cair uma tempestade. Dessas súbitas e terríveis de verão. O mar se agita, e nosso personagem está engolindo água. Ele chora, a sua vida inteira lhe passa pela mente, como um filme em forward. Grita por socorro, mas o barulho do mar abafa sua voz e a água salgada invade a boca aberta, fazendo-o engasgar e perder o fôlego.

O fim está próximo para o nosso herói. O que ele pensa nesse momento derradeiro? Bem, ele não pensa nada. Sente apenas uma grande e angustiante vontade de mijar e cagar. E ninguém vai reparar! Ele ri. Enquanto caga e mija, as ondas quebrando-lhe por cima, fazendo-o engolir cada vez mais água, ele ri. Debaixo d'água ele ri. "Posso mijar e cagar à vontade, ninguém me verá! Ah Ah Ah!" Nunca se viu alguém realizar suas necessidades com tanta alegria.

É quase uma morte feliz.

Peraí. Antes de morrer afogado, ele põe sua cabeça para fora d'água e olha para o céu. O que vê? Ele me vê! Um grande rosto no firmamento, os olhos gigantescos, monstruosos. O nariz do tamanho da Ponte Rio-Niterói. Sim, ele vê a mim, o Autor, que está rindo mais que ele. Eu digo: "eu estou te vendo, otário! Estou vendo você a cagar a mijar no oceano. Personagem sem-vergonha".

Ele morre enfim, com cara de besta, sem entender nada.

Buk no Rio




Passei a tarde numa biblioteca pública, saboreando Factotum, de Charles Bukoswki, um dos poucos dele que ainda não tinha lido. Devorei quase tudo, tenho que voltar lá para terminar o livro, mas as páginas assimiladas me fizeram refletir sobre as diferenças entre os escritores de lá e os daqui. (nota: tenho que ver o filme Factotum)

Em primeiro lugar, compreendi mais um pouco o carinho que os brasileiros têm pelo velho bêbado. Ele é pobre, fudido e mau pago, como a gente. Esta é a razão da afinidade que sentimos. Outra, ele é humilde, diferente do caráter padrão do norte-americano, arrogante e prepotente.

As semelhanças páram por aí. Um escritor brasuca que se dispusesse a imitar a trajetória etílica do velho não aguentaria quinze dias - o tempo que se leva para uma crise aguda de fome.

Em Factotum, Buk viaja pela América dos anos 40, em plena Guerra. Os EUA haviam se tornado o principal fornecedor de alimentos, insumos e armas para o palco de guerra. Além disso, dezenas de milhares de homens lutavam no front, desafogando o excesso de mão-de-obra no país. Buk vaga por várias cidades, sem emprego, sem dinheiro e mesmo assim dorme em hotéis e passa o dia inteiro bebendo.

O jovem Henry Chinaski, alter-ego de Buk, dá-se ao luxo de passar dias sem folhear os jornais à cata de emprego, e quando o faz arruma um trabalho quase que imediatamente. O trabalho, apesar de pesado e braçal, sempre lhe proporciona grana suficiente para beber uisque, comprar um carro usado e dormir em hotéis baratos.

No tempo livre, entre uma dose e outra, Chinaski escreve. Aí entra outra diferença. Ele envia contos pelo correio para as revistas literárias de sua preferência. São muitas as revistas literárias consagradas nos EUA. E todas, quando aceitam publicar contos dos novos autores, pagam-lhes quantias razoáveis.

A história de Buk em Factotum é muito parecida com a de John Fante em Pergunte ao Pó. Não é outra razão do velho ter se apaixonado pelo livro.

Também li poemas muito bonitos do velho de uma livro recém-publicado, título irrepetível aqui. Sabe, podem falar o que quiserem, gosto cada vez mais desse pinguço filho-da-puta. Não digo isso por deslumbre, nem estou descobrindo Buk agora. Gosto dele bem antes de virar moda, desde o final da década de 80, quando eu era um adolescente desajeitado lendo Cartas na Rua na biblioteca nacional. Desde então, já li quase todos os clássicos, antigos e modernos. Ainda sou um rato de bibliotecas, lendo tudo que me aparece pela frente. Mas são poucos os livros que me dão tanto prazer de ler como os do velho. Por trás de suas histórias, de seu humor corrosivo e calejado, há um humanismo intenso. Uma coisa que acho que faz falta por aqui, um calor humano que o Brasil finge que tem mas que não tem porra nenhuma. Somos um país de pessoas frias, filhas-da-puta no mau sentido, uma burguesia mais cínica e mais burra do que em outros países.

Por isso gosto tanto de ler o velho Buk, para sentir essa fé... não no homem, mas na humanidade, se é que me entendem. Podemos às vezes nos sentir cercados de idiotas, ou mesmo nos sentir idiotas, mas sabemos, pela música, pela literatura, pela arte, que a humanidade é mais que isso. Que a humanidade é surpreendente e que o mundo, por mais que nos dê uns murros de vez em quando, é o mesmo mundo que pode, a qualquer momento, nos oferecer um bom gole de uísque, uma buceta quentinha e um maço de notas, só pra calar nossa boca resmungona, nos fazer olhar a vida nos olhos e dizer: vem cá sua vadia, eu te pago mais uma!

Crônica de uma cidade morta

Rebeliões nos presídios, ataques a policiais, ônibus incendiados, ruas desertas, lojas, bares e shoppings fechados. A rotina da megalópole que disputa com Seul o título de maior cidade do mundo foi severamente abalada pelo crime organizado. Uma leitura isenta e crítica de vários jornais e sites noticiosos permite algumas conclusões sobre o que realmente aconteceu a este município com mais de 10 milhões de habitantes. Hum, não somente à cidade, mas à todo o estado de São Paulo, o mais rico, mais desenvolvido e mais industrializado do país.

Bem, o que aconteceu foi que o PCC, Primeiro Comando da Capital, principal organização criminosa do estado, originado aparentemente dentro dos presídios paulistas, ordenou um ataque sistemático e geral às autoridades. Marcos Willians Herba Camacho, o Marcola, líder do PCC, insatisfeito com o tratamento recebido pelas autoridades penitenciárias, decidiu mandar um aviso à sociedade civil: me respeitem ou eu páro São Paulo.

E parou mesmo. Até conseguir o que queria. A maior cidade do país entrou em pânico, vivendo a maior crise de segurança pública de sua história. Os ataques só cessaram após encontro de autoridades do governo paulista com Marcola e a aceitação de suas exigências, dentre as quais a instalação de 60 televisores de plasma nos principais presídios do estado.

Muitos cidadãos acharam que o pânico foi excessivo. Outros acharam que tudo não passou de boataria. Bem, se você acha que a morte de quase 100 pessoas em apenas 2 dias, 80 ônibus incendiados, ataques a prédios públicos e rebelião em presídios, se você acha que isso não deveria despertar pânico na população, então você está pronto para residir em Bagdá, numa casinha bonita perto de uma base americana, e só para mostrar coragem hastear uma bandeirinha dos EUA no jardim.

O negócio foi feio. O ex-governador do estado, dr.Geraldo Alckmin, soltou mais uma de suas pérolas de sabedoria: "criminalidade é uma coisa séria". Que bom que temos políticos dotados de tanta visão e inteligência! Não fosse ele dizer isso, por quanto tempos ficaríamos iludidos, pensando que a criminalidade não passa de brincadeirinha inocente de garotos mimados! Quando fôssemos assaltados, diríamos aos bandidos: "pára com essa brincadeira, seu bobo, aponta essa arma para lá!". Iluminados pela sabedoria de nossos políticos, podemos tocar nossa vida.

A declaração do governador Claudio Lembo - que não fosse pelo episódio jamais seria tão conhecido nacionalmente - de que a situação estava "sob controle", também foi fundamental para nos tranquilizar. Mesmo aqui no Rio, eu estava preocupado com o que ocorria em São Paulo. Após ouvir Lembro dizer que a situação estava controlada, relaxei e fui dormir tranquilo como um bebê dopado. Ou morto.

O fato é que o PCC matou São Paulo por dois dias e duas noites. As febris madrugadas paulistanas converteram-se em noites vazias e silenciosas. A solução para o problema é complexa. A direita quer endurecer, a esquerda não sabe o que fazer. A classe média quer repressão. Os pobres pagam o pato: a polícia invade as periferias, mata uns pretinhos, diz que são traficantes e sacia a sede de sangue da opinião pública. Intelectuais e artistas voltam a ocupar bares da moda e bebem e cheiram os problemas.

Uns dizem que a melhor saída para o problema da segurança pública nas metrópoles brasileiras continua sendo o aeroporto. Sinceramente, não tenho respostas. Não sou especialista em segurança. Mas tenho uma opinião. Em meio a tantas notícias e declarações sobre o caos paulista, alguém disse que os presidiários têm regalias demais em Sampa. Bem, até onde eu sei, é o contrário. Temos presídios super-lotados, com pessoas vivendo em condições desumanas. Disseram também que é preciso aumentar a pena. Outra besteira, a meu ver. Tem é que transformar os presídios em centros de reciclagem. Investir mais na área de inteligência da polícia e usar menos truculência no trato com as comunidades. Detectar as áreas urbanas mais sensíveis e realizar aí investimentos sociais maciços.

A sociedade civil também precisa participar mais. Em vez das toneladas de teses sobre o homossexualismo de Miguel de Cervantes ou a crise do ser em Heidegger, as universidades podiam contribuir com mais estudos, pesquisas e propostas sobre o tema. Todos os cursos poderiam ajudar, inclusive o de Letras (para ficarmos no terreno literário do exemplo que usei), que poderia elaborar teses sobre o imaginário de violência que prospera na periferia, e como usar a arte e a literatura para convencer crianças e jovens de que o caminho da paz pode ser muito mais corajoso e frutífero do que pegar em armas e lutar uma guerra insana e suicida contra o Estado de direito.

Crônica de uma tarde bêbada

(Conto publicado na última edição do Paralelos, corrigido)


Tenho feito caminhadas pelos arredores da Cruz Vermelha, esmiuçando antigos casarios, sobrados coloniais, a rica e decadente arquitetura do centro da cidade. Há uma energia misteriosa nas ruas cujo significado procuro decifrar. Saio de casa à tarde, por volta das três ou quatro horas. O céu muito azul. Subo a Riachuelo, passando pelo Hospital Espanhol, a Academia Brasileira de Filosofia, entro pela Marques de Pombal, viro na Irineu Marinho, paro num bar e peço uma cerveja.

A sede do jornal O Globo fica na esquina. Enquanto bebo cerveja, procuro identificar algum jornalista. Não vejo nenhum, apenas algumas moças com pinta de estagiária andando apressadas.

Finalmente aparece um cara com pinta de jornalista. Alto, branco, olhos azuis, óculos de aros vermelhos, a roupa limpa e bem passada, cores claras e alegres. Tem um porte altivo, orgulhoso, deve escrever sobre política. Um desses jornalistas que, apesar de assinarem as matérias, a gente nunca sabe o nome, nem lhes conhece o rosto, porque só os colunistas é que ficam famosos.

Ao passar por mim, ele me olha fixamente, de forma um pouco exagerada. Minutos depois ele retorna, entra no bar. Compra cigarros, me observa de perto. Sustento o olhar. Ele sorri, pede um uísque, não tem, pede um conhaque, bebe, me encarando sorrindo. Eu sorrio, iniciamos uma conversa amena. Ele é jornalista, de fato, de política, na mosca!

Na casa dele, cheiramos umas carreiras, ele pergunta se estou com fome, não estou, ele abre o bar e pega uma garrafa de uísque. Eu vou até o som, escolho um cd, ligo, fico dançando, excitada e feliz no centro da sala.

Enquanto danço, excitada, no centro da sala, olho-me no espelho e vejo um homem. Eu sou agora o jornalista de óculos de aros vermelhos, eu sou alto, branco, de olhos azuis e a mulher, que era eu, está sentada no sofá, beijando outra garota. Vou até o bar, completo meu copo, pego o gelo e lembro do que fiz durante o dia. Conversei, ao telefone, com um senador, que me transmitiu informações explosivas sobre a crise política.

As duas prosseguem a perfomance. Uma é garota de programa. A outra, ex-eu, é meio estranha, mas bonita. Encontrei-a num bar perto do jornal. Disse-me que estava escrevendo uma crônica sobre a Cruz Vermelha e precisava de histórias.

Elas páram de se beijar. Uma delas está sem camisa, tem seios grandes, com mamilos enormes, inchados, respira forte, quer sexo. Chamo-a de peituda, ela ri, tem dentes um pouco cavalados, mas o rosto é harmonioso, olhos castanhos claros, nariz fino e lábios suavemente carnudos. Ela acaricia os próprios seios e roça uma perna na outra.

A outra é a escritora, magra, seios pequenos, olheiras profundas muito sensuais, chamo-a de Sherazade. Ela tem um sorriso giocôndico, está cheirando muito pó, digo para tomar cuidado, esse é puro.

No espelho vejo que continuo sendo o jornalista alto, mas estou um pouco mais gordo, e não tenho mais os olhos azuis. A peituda desapareceu. Há somente eu e a escritora na sala, nós dois dançando, eu beijo seu pescoço, ela estremece. Ela me diz que estuda jornalismo, que está desiludida com a profissão, uns vendidos. Não estico o assunto enjoado, já sei o que ela vai falar, sempre a mesma coisa. Beijo sua boca, ela me morde os lábios.

"Puta que pariu! Você me machucou!"

Ela tem um olhar estranho, me dá calafrios. Me afasto um pouco, olho bem dentro de seus olhos, vejo um brilho de loucura, que merda, não tenho sorte com mulher, quando é bonita é louca, quando é legal é um tribufu. Ela pega a estátua de mármore sobre a mesa e parte pra cima de mim, insana!

No espelho, levo um susto, sou eu quem segura a estátua de mármore, estou no meio de um impulso, acerto a cabeça do jornalista, ouço o som dos ossos partindo. O sangue espirra na minha roupa. Ele cai, desacordado, morto?

Revisto à casa à procura de jóias, dinheiro, carteira, agenda. Encontro a agenda, dou sorte, ele anota as senhas do cartão. Limpo as impressões digitais, apago a luz, saio do prédio chique em Ipanema, tomando cuidado para não ser vista por ninguém. São três e cinquenta da madrugada.

Entro no carro dele, estacionado na rua, disparo pelas avenidas, acelero enlouquecidamente no aterro.

Acordo no dia seguinte, vou ao banco, saco o máximo de dinheiro, compro os jornais, paro num bar perto da Cruz Vermelha para beber uma cerveja. Dali a meia hora, vou ao banheiro fazer xixi, o espelhinho me devolve a imagem de um homem com aproximadamente trinta anos, muito bêbado, tentando organizar os pensamentos: bem, com sete reais dá para beber exatamente três itaipavas e uma cachaça com limão.

O Crime compensou


O grande mérito de Crime Delicado, o novo filme de Beto Brant, é a ruptura com certos cacoetes televisivos que vinham contaminando o cinema nacional. Era necessário que um diretor do quilate de Brant, consagrado por três longas de sucesso (Matadores, Ação entre Amigos, Invasor), lembrasse ao distinto público que cinema é cinema, tv é tv.

Nada contra a televisão, o meio audivisual mais popular do país. Mas é que a tv está amarrada a uma linguagem padronizada, feita para agradar comerciantes e voltada na maioria das vezes para a quantidade, não para a qualidade.

Crime Delicado é um filme sem pretensões de bater recorde de bilheteria; seu público preferencial deve possuir uma bagagem cultural mínima. O texto do filme, notadamente os monólogos do protagonista, o crítico de teatro Antônio Martins, é complexo, sofisticado, difícil. Brant fez um filme cult.

Não é um filme hermético, porém. A generosidade das imagens, a fotografia voluptuosa de Walter Carvalho e o documentarismo viril de algumas cenas, neutralizam a suposta “intelectualidade” do filme e nos recorda que estamos diante de um trabalho de Brant, o mesmo diretor de vertiginosos filmes de ação.

“Você não ama nada!”, acusa o personagem interpretado por Claudio Assis, dirigindo-se ao crítico. A acusação de Assis atinge também o público, a sociedade, a mídia, a raça humana, constantemente obcecados em negar que é o amor, enquanto paixão e loucura, o motivo capital de nossa breve passagem na Terra...

A própria presença do diretor de Amarelo Manga no filme é uma forma de posicionamento político muito claro de Brant. O cinema, enquanto arte industrial, com necessidades financeiras muito superiores às outras e, no caso do Brasil, sofrendo de uma crônica dependência do Estado como financiador, não pode se furtar ao debate da política cultural. Claudio Assis, Lírio Ferreira e, agora, Beto Brant, já explicitaram, em viva voz e em película, o seu apoio à política de financiamento a filmes de baixo orçamento, no caso 1 a 2 milhões de reais. Essa política tornou possível a produção de dezenas de bons filmes por ano e não de três ou quatro super-produções. Não que a super-produção não seja importante, mas é preciso antes democratizar a produção cinematográfica no país, e para isso é necessário desenvolver a criatividade e aprender a fazer bons filmes com menos dinheiro.

O filme, embora utilize uma linguagem sofisticada, não é conceitual, graças a Deus. Tem ritmo, volúpia, intensidade, texto, enredo. Brant conseguiu unir sua experiência como narrador de histórias ao talento, desconhecido nele até então, como provocador estético e criador de uma linguagem peculiar e original.

O diálogo com o teatro e as artes plásticas foi uma sacação brilhante de Brant, uma idéia tão espantosamente simples, eficaz e elegante, que soa como um novo 11 de setembro para o cinemão bilionário que alguns medalhões ainda reclamam para o audivisual brasileiro.

Se a violência presente nos filmes anteriores nunca foi gratuita, antes sempre um componente estético necessário à narrativa e usado sem apelação, desta fez Brant conseguiu sublimar a violência do mundo real, transformando-a em pura arte. Vale ressaltar ainda que os créditos de Crime Delicado não ficam apenas com Brant, mas com toda sua extraordinária equipe, com destaque para o produtor e amigo-de-guerra Renato Ciasca e para a qualidade plástica dos trabalhos do mexicano Felipe Ehrenberg.

O desempenho dos atores principais, Marcos Ricca e Lilian Taublib, produz o desconforto da verossimilhança bruta. A falta de uma perna em Lilian não é mais um defeito, mas um poderoso recurso estético, um toque desconcertante, uma singularidade dolorosa e, por isso mesmo, prodigiosamente universal.

Música e poesia nas ruas

Recentemente vivenciei dois grandes acontecimentos musicais. O primeiro foi a compra de um aparelho MP3 Player. A segunda foi a passagem do poeta blogueiro Jorge Ferreira pelo Rio de Janeiro, à caminho da Nova Zelândia, deixando um rastro de 400 músicas em meu computador.

Desde então, gravo as músicas no meu MP3 Player e vou caminhar pelas redondezas do meu querido Bairro de Fátima, região central do Rio de Janeiro. Escutando um Tim Maia da fase Racional, subo a escadaria atrás da praça principal, ando um pouco, viro na Costa Bastos e sigo até Santa Teresa. Fiz esse percurso muitas vezes.

Ultimamente, tenho optado por um trajeto distinto, perambulando aleatoriamente pelas adjacências da Cruz Vermelha. As ruas pelas quais passo, nesse caminho, são Riachuelo, Marques de Pombal, Irineu Marinho, Santana, Mem de Sá, Resende, Inválidos. Passo por casarios antigos, prédios decadentes dos anos 30 ou 40, construções coloniais, igrejas góticas. Esse caminho tem a desvantagem de ser mais tentador. São dezenas de botequins pitorescos, clássicos, e eventualmente paro num deles para beber uma cerveja e "sentir" o ambiente.

O mais importante, porém, é que voltei a escutar música com reverência e prazer. Sons que tenho curtido: Erasmo Carlos, fase antiga; Bob Dylan; Jorge Benjor; Led Zeppelin; Raul Seixas; e muitos outros.

Bem, dito isto, vamos a outra parte deste post. Creio que venho perdendo meus já raros leitores pela ausência e pela frieza nas postagens, ultimamente apenas contos, sem nenhuma reportagem cultural ou narrativa boêmia. O cachê do blogueiro, já disse alhures, são os comentários. Se o blogueiro não se esforça, perde o cachê.

Vamos tentar consertar isso, contando como foi a sexta-feira passada. Nilton Pinho, artista plástico e companheiro de copo, futebol e trocadilhos, produziu um breve mas interessante espetáculo em Santa Teresa. Vale adiantar que a Petrobrás patrocinou dezenas de eventos artísticos nesta Semana Santa. Música, artes plásticas, poesia, a programação foi intensa. O evento do Nilton consistiu numa perfomance de Fernando Mendonça, também artista plástico e sua esposa. Fernando desceu uma ruazinha vestido de Jesus Cristo, carregando uma cruz estilizada, obra do Nilton, que prendeu na entrada da padaria. Sentada no meio fio, a mulher do Fernando representava Madalena, trajada como mendiga. Eles conversam, brincam de futebol, depois Madalena entra na padaria e volta com um monte de sacolas com bolas de futebol e pãezinhos, que distribui para o público.

Foi divertido. Isso foi às 14:00, num dia de sol e céu azul do Rio de Janeiro. Pouco antes, tomei umas cervejas no Mineiro com a Priscila e Vincent, um canadense que estava sendo ciceroniado pela gente (ou pela Pri, para ser mais exato). Nesta hora, aparece o escritor Botika, sem camisa e brincalhão como sempre, nos cumprimenta e me convida para recitar poesia em evento que coordenaria mais tarde, no Mineiro.

A Pri queria trocar de roupa, então descemos pela Ladeira do Castro e, lá embaixo, eu e Vincent esperamos num barzinho da Nossa Senhora de Fátima, bebendo umas cervejas. Consegui arranhar um francês sofrível, todo errado, mas ao cabo relativamente eficaz. Neste momento, Vincent quis algumas informações sobre a situação política, assunto que tento evitar a todo custo ultimamente, mas não me omiti e consegui dar minha opinião para o canadense de Quebéc, dono de uma agência de turismo. A Pri chegou e subimos pela escadaria da praça que dá na Monte Alegre, e chegamos ao fim do espetáculo do Céu na Terra. Reencontramos o pessoal, meus amigos artistas plásticos de Santa Teresa, o Nilton Pinho, Juliano Guilherme, Hélcio Barros, entre outros. Fomos pra casa do Hélcio, o Vincent sempre à vontade, depois devoramos uma pizza num restaurante e voltamos ao Largo dos Guimarães. Nesta noite, estavam programados vários espetáculos de poesia. Encontrei o Gean no Largo, apresenteio-o ao Vincent, que comprou um livro de poesia. O Vincent estava fascinado com a concentração de artistas em tão pouco espaço.

Chegamos ao Mineiro, pegamos uma mesa e os trabalhos começaram. Neste momento, eu estava empapuçado de cerveja e passei para o destilado, uísque nacional. Nada da poesia começar. Até que Maurição sobe na mesa ao lado, ocupada por três moçoilas perplexas, e inaugura o Cep 20.000. O Maurição tem perto de 1.90 m de altura e deve pesar mais de cem quilos. Estas medidas e mais o seu comportamento frenético e ostensivamente alcoolizado devem ter contribuido para a perplexidade das moças desavisadas.

Maurição gritou seus versos no gogó, depois veio o Guilherme Zarvos, recitou outros poemas e aí um monte de poetas já estava fazendo fila para recitar. Infelizmente, a acústica do Mineiro não era boa e pouco se compreendia do que se falava. Maurição viu-me na última mesa do bar, soturno como sempre e gritou:

MIGUEL DO ROSÁRIO, VOCÊ PODE! VEM AQUI!

E puxou um dos poetas que insistia em falar antes de mim. Eu estava sem meu novo livro de poemas (Antes que chegue a primavera), pois o tinha emprestado para o Botika mais cedo, pensando que o encontraria à noite, mas ele não apareceu. Cooperativo, não neguei fogo e subi na cadeira. Recitei o início do Fantasma da Puta, um dos poucos que sei de cor, mas minha voz não teve uma impostação legal no ambiente. Acabei errando os versos, entrei em outro poema e percebi que ninguém estava entendendo nada. Para piorar, o Zarvos ficou arrotando do meu lado, não sei se porque não estava gostando ou por excesso de gases. Encerrei minha perfomance um pouco melancolicamente e voltei à mesa.

Chacal também deus as caras e recitou alguma coisa. Ericson Pires apareceu, com seu novo looking surfista. Laurent Gabriel estava do lado de fora, dizendo-me que aceitava a proposta para publicar seu livro de poemas pelo Arte & Política.

Encontrei uns amigos, bebi bastante, depois fizemos uma caminhada insensata até o Largo das Neves atrás de outro ambiente. Mas estava tudo fechado lá, como eu previa e voltamos ao Mineiro, a esta hora já encerrando.

Descemos para Lapa, sempre na companhia do Vincent, passamos pela porta do Estrela da Lapa, do Carioca da Gema e do Rio Scenarium, e terminamos a noite na Pizzaria Encontros Cariocas.

A filha do bicheiro

(Leonardo Da Vinci)

Bem que eu tentava aparentar tristeza, mas os garçons não parávam de me servir uísque importado e ela continuava a me sorrir do outro lado da sala. O defunto parecia indiferente ao flerte entre sua filha e eu. Fosse vivo, eu já teria ido embora, evitando confusão, ou melhor, evitando uma morte violenta. Há tempos Danny insinuava-se pra mim. Eu fingia que não reparava. Garota louca, paquerar um cara de quarenta, pobretão, ela com só vinte aninhos e tão rica.

Virgílio de Andrade morrera de crise renal, quem diria. Um sujeito que escapara de mais de vinte tentativas de assassinato, terminar assim, vítima de si próprio, um cadáver de terno e gravata no meio da sala, enquanto seus convidados enchiam a cara e riam de sua lembrança.

Ela veio se aproximando, aos poucos, conversando com as pessoas no trajeto, até que se postou a meu lado, sorrisinho safado.

"Oi! Você vai na festa hoje?"

Olhei para os lados, algumas pessoas nos observavam com malícia. Senti vontade de fumar um cigarro, mas tinha parado de fumar há meses.

"Pô Danny, festa? Seu pai morreu e você dá uma festa?"

"Ah, deixa de ser careta! Quem inventou essas convenções? Morreu morreu! Quem fica tem de comemorar o fato de estar vivo."

Ela olhou-me daquele jeito que me deixava louco, revirando os olhos. Mexeu na blusa, aumentando o decote. Continuou:

"Estou esperando você lá! Vou ficar muuuuito triste se você não for."

E saiu, recebendo os cumprimentos de conhecidos com um ar visivelmente enfastiado. Antes de atravessar a porta da sala do velório, voltou-se e me deu tchauzinho.

Aceitei mais uísque e senti vontade de chorar. De alegria. Aquela garota era meu sonho de consumo. Peitos grandes, coxas grossas, bunda perfeita, cinturinha, cabelos longos pintados de louro, e safadinha que só ela. Quando eu fazia plantão dentro da casa, ela sempre aparecia, exibindo-se. Mergulhava na piscina, estendia-se no quintal, toda gostosa, procurando me excitar. Uma vez ela se deitou na beira da piscina, de biquini, e começou a se masturbar, suavemente. Eu podia ver Seu Virgílio lá dentro, lendo jornal, e não sabia o que fazer para esconder minha ereção. Ela reparou e continuou, olhando-me nos olhos. Gozou com um sorriso que se me fixou na cabeça por meses, torturando-me.

Trabalhar para um bicheiro nunca havia me passado pela cabeça antes de ser expulso da polícia civil, acusado de receber propina. Ah, que piada. Todo mundo fazia isso, mas eu fui escolhido para ser o bode expiatório da tal "nova gestão".

Anoitecia. Despedi-me de quem eu conhecia e saí do velório. Consumia-me pensando em Danny, se valia a pena investir na garota. O filho do bicheiro, Castorzinho, tinha apenas vinte e dois anos, era um playboy total, preocupando-se apenas com carros, mulheres e drogas. Mas não era cego. Não lhe agradaria ver a irmã saindo com um dos seguranças. Seria capaz de mandar me matar com o mesmo sangue frio do pai.

Gastei algumas horas num botequim próximo, bebendo cerveja e tentando não pensar em nada. Faria o que me viesse na telha, na hora certa.

Às dez e meia, estava totalmente bêbado. Chamei um táxi e disse o endereço.

Ela estava linda, com um vestido muito curto, colado ao corpo. Abraçou-me longamente. Disse-lhe que estava bêbado. Ela pegou-me na mão, fez-me sentar num sofá, trouxe água com gás e aconchegou-se em meu colo, fazendo-me carícias no rosto.

Não tinha muita gente na festa, apenas alguns amigos mais chegados. Senti-me melhor após algum tempo. Ela chamou uma de suas amigas, uma morena magrinha, de short. As duas sentaram-se em meu colo e beijaram-se. A morena abaixou a parte de cima do vestido de Danny, fazendo os peitões saltarem. A morena esfregava-se na minha perna e com uma das mãos apertou meu pau por cima da calça. Enfim, ainda a morena, abriu meu flechequer e tirou meu pau pra fora, enorme, duro, latejando. Seus olhos brilharam e atirou-se de boca no mastro, chupando sofregamente. Danny acariciava os próprios seios com uma mão e se masturbava com a outra, não usava calcinha. Sorria-me e dizia-me algo que eu não podia compreender.

"Fui eu."
"O quê?"
"Fui eu."
"Você o quê?"
"Eu matei meu pai."
"O quê?"
"Troquei os remédios dele."
"Ãh?"

Ela não paráva de se masturbar enquanto falava. Fazia caretas como se fosse gozar. A outra continuava me chupando decididamente. Eu estava aprisionado. Enfim, entendi o que ela me dizia.

"Queria ficar com você."
"Danny! Você ficou louca?"
"Não queria ninguém entre nós."

Gozei na boca da morena. Senti Danny estremecer num orgasmo prolongado, seu olhar jorrando carinho e paixão. Pensei algo como: há sempre um pouco de morte em todo grande amor.

A decadência do capitalismo

(Basquiat)

Manú tirou o embrulhinho de dentro da bolsa, colocou-o sobre a mesa e falou:

"Aperta aí você que eu tô cansada."

Não se lembrava como ele viera parar em sua casa; conjecturava se tinham feito amor ou coisa parecida. Recordava-se, um pouco confusamente, que fora apresentada a ele por uma amiga, e que o achou interessante e misterioso. Mas agora, observando calmamente, com a mente limpa - apesar da ressaca -, experimentava uma viva decepação: ele era barrigudo, vestia-se mal e era horrivelmente tímido. Sempre odiara caras tímidos, ainda mais quando eram pobres! Pelas maneiras do rapaz, via-se que era de origem humilde. Era moreno, quase negro, com cabelos crespos, e contemplava deslumbrado os móveis e bibelôs da sala de estar. E se ele roubar alguma coisa? Preciso prestar muita atenção, pensou Manú.

Sua principal preocupação, porém, era a chegada iminente dos pais. Eles haviam viajado para a casa deles em Angra e retornariam hoje. Sua mãe dissera que pretendia sair de lá no domingo bem cedo, para fugir do congestionamento. Olhou para o relógio da parede: duas e meia da tarde. Eles deviam chegar a qualquer momento. Caso o rapaz ainda estivesse na casa, ele almoçaria com a família dela, na mesa comprida da sala de jantar. Sempre que tinha visita, a mãe fazia questão que comessem todos juntos na sala. Quando não havia visita, cada um fazia seu prato na cozinha e ia prum canto diferente da casa. Ela ia pra salinha de televisão comer no sofá vendo um filme qualquer no Telecine.

O negócio é que, com todos na mesa, haveria fatalmente uma conversa sobre quem era o rapaz, onde ela o conhecera, o que ele fazia, e todas essas babaquices. Manú morreria de vergonha por ter ficado com uma pessoa de tão baixo nível. A irmã mais nova, que também viajara com os pais, daria aquele sorrisinho insuportável que queria dizer: "tá vendo, sua horrorosa, você é mesmo uma tribufu gorda que só consegue pegar esses estudantezinhos pobres e bêbados que ficam com qualquer mulher depois de certa hora e algumas cervejas".

Ele pegou o embrulhinho, abriu, despejou o conteúdo sobre a mesa e começou a despelotar. Não estava se sentindo à vontade naquele apartamento luxuoso. Mas já que estava ali, queria aproveitar um pouco, fumar um, viajar, escutar uns Cds, olhar, pela janela, as montanhas verdes e o Cristo Redentor. A garota o havia agarrado quase à força na festa. Depois, arrastara-o, também quase à força, para o apartamento dela e se comportara como uma tarada. Mal chegaram, totalmente bêbados, ela abaixou as calças dele e chupou seu pau com uma sofreguidão que nunca vira antes em mulher alguma. Teve que segurar a cabeça dela para não gozar e sobrar energia para fodê-la legal. E foi o que fez, e ela gozou uivando como uma cadela no cio.

Foram para um quartinho nos fundos da cozinha e acenderam o baseado. Ele recostou-se num sofá macio e lembrou do chão duro que fazia o papel de cadeira, mesa e cama de seu conjugado no Bairro de Fátima. Por uma associação óbvia, lembrou-se que não tinha dinheiro nem pro ônibus e praticou, de cabeça, algumas frases de efeito para justificar o pedido de empréstimo que faria à moça. Ela vai saber que sou um pobretão e não vai mais querer sair comigo. Ah, foda-se, ela é uma baranga mesmo. Sem bunda, sem peito, gorda, grandalhona, e agora está se revelando também uma garota arrogante e convencida. Olha só o jeito que ela me olha!

Escutam o barulho da porta se abrindo e apagam o baseado. Manú pega um spray de Bom Ar e perfuma o ambiente. Correm pra sala, antes passando no banheiro e fazendo a higiene básica do maconheiro: lavam as mãos, escovam os dentes e pingam colírio nos olhos. Ela pede que ele vá para seu quarto e espere por lá.

Às três e meia da tarde o almoço foi servido. A mãe preparara espaguete com molho pesto. Sentaram-se todos à mesa, o pai numa cabeceira e o irmãozinho na outra. As duas irmãs ficaram frente à frente; o rapaz ao lado de Manú e a mãe ao lado da outra irmã. Estavam todos mal-humorados de fome. Tinham calculado chegar a uma da tarde, mas um engarrafamento provocado por um acidente na estrada fê-los atrasar em mais de duas horas.

Após as primeiras garfadas, o silêncio pesado foi aos poucos se desfazendo com frases curtas.

"E aí, mãe, fez sol lá?", perguntou Manú.
"No sábado de manhã fez um solão. A gente saiu de barco e fomos a umas ilhas que não conhecíamos."
"Foi super-legal!", empolgou-se o irmãozinho.
" Toninho! Não lhe disse para não falar de boca cheia? ", ralhou a mãe.

Fez-se silêncio novamente. Escutava-se somente os talheres batendo de leve no prato. O pai voltou-se para o rapaz e perguntou:

"Qual é seu nome, rapaz? "
" Arnaldo, senhor. "
" Arnaldo de quê? "
" Pai!", Manú sorria; ela sabia que a última pergunta havia sido apenas provocativa, com sentido cômico. O pai não ligava a mínima para sobrenomes. Ligava sim para o dinheiro que a pessoa, ou a família da pessoa, tinham. Era um legítimo burguês liberal. Estava só puxando assuto; ela sabia disso e protestava para divertir o pai. Arnaldo compreendera tudo e sorria também; respondeu:

"Arnaldo Gomes Pinto, nome de português."
"E você mora aonde, seu Arnaldo Pinto? "

Manú alarmou-se; notara um quê de sarcasmo ou irritação no pai.

"No Bairro de Fátima, na rua do Riachuelo."
"E conhece minha filha de onde? "
"Amor, pára com esse interrogatório. Deixa o rapaz comer em paz", interveio a mãe, incomodada com o fato do rapaz estar, há alguns minutos, com um garfo cheio de comida paralisado no ar.

Arnaldo sorriu de novo e não respondeu. Encheu a boca e põs-se a mastigar lentamente. Sua intuição lhe advertia que alguma coisa estava errada. Alguns minutos depois de silenciosa mastigação, o pai empurrou o prato pra frente, brutalmente. Tinha o rosto muito vermelho e os olhos cravados no rapaz.

"Retire-se imediatamente desta mesa e saia da minha casa, seu vagabundo, seu, seu, seu, seu maconheiro! É! Maconheiro! Eu senti o cheiro quando cheguei em casa. E vocês não conseguiram disfarçar. Dá pra notar que os dois estão doidões."

Foi um susto. Haviam interrompido a mastigação no instante em que o pai empurrou o prato. As primeiras palavras, naquele tom de voz, foram deixando a todos estupefatos. Nunca tinham visto o pai nesse estado. O rapaz estava petrificado. Queria levantar-se e ir embora, mas não conseguia mover um músculo.

Os pensamentos do pai queriam explodir. Eu tenho que falar. Tenho que falar. Tenho. Agora.

"Puta que pariu! Puta que pariu! Eu tô enlouquecendo nessa casa. Tô nervoso, muito nervoso. Estou desesperado. Eu tenho que falar pra vocês. Preciso contar a verdade. Nós estamos falidos. FALIDOS", berrou o pai.

O irmãozinho começou a chorar, apesar de não saber o que significava "falido". Podia sentir, antes que todos, uma coisa muito ruim no ar. Talvez por isso, tenha vomitado tanto durante a viagem. A mãe também chorava, mas discretamente. Então era isso, pensava ela, que já vinha desconfiando de alguma coisa nesse sentido, devido ao péssimo humor do marido durante o fim-de-semana. Aquela especulação doida em que ele e o sócio entraram deve ter criado um rombo monstruoso na empresa. Olhou para o marido, que queria falar mais:

"Temos que vender tudo. Tudo. O apartamento, a casa em Angra, o carro, pra pagar as dívidas da empresa. E mesmo assim vamos ficar devendo. Ficaremos pobres. Eu tô fudido."

Arnaldo sentia o sangue voltar a circular em suas veias. Enfim, não era comigo que o cara tava tão revoltado, refletiu. Levantou-se da mesa completamente ignorado pelos outros, que estavam hipnotizados pela cena terrível de derrocada: o pai chorando convulsivamente, debruçado sobre a mesa, os braços pendendo, mortos, para o chão.

Antes de sair, Arnaldo pegou umas moedinhas que viu em cima de um móvel na saleta da entrada. Deve dar pro ônibus, pensou.

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